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MICHÊ

Para Leila Lopes
Editoria local Salvador, Ba, 20.01.2010


 

http://www.youtube.com/watch?v=HUYDJH8LmRQ - Confira video com atriz.

 

por ALBERTO HERÁCLITO

Depois de insistentes e reincidentes queixas das minhas belas e inteligentes amigas quarentonas sobre a falta de homem, ouvidas e remoídas nas nossas conversas diretas, via telefone ou mesmo e-mail, resolvi – numa manhã ensolarada de sábado de verão baiano, com aquele azul luminoso e esperançoso, que só mesmo os baianos conhecem – tomar uma decisão até então nunca pensada.

Confesso que fui movido muito mais por um impulso (como geralmente faço com as coisas mais importantes da minha vida) do que por caso pensado, como quando me dirigi ao shopping Lapa para colocar o anúncio no jornal. Fizera eu o percurso Federação/Piedade a pé e juro que em nenhum instante hesitei da minha decisão, apesar da timidez rubra que me tomou no momento fatídico: aquele de encarar a funcionária dos classificados do jornal e escrever o meu texto para a publicação. Sei que não sou um homem que tem o perfil dos homens que fazem uso de tal prática; porém, raciocinei com os meus botões feministas: mulher secundariza a aparência física em troca de um bom papo e de um bom acolhimento.

Foi movido por essas meias-verdades que comecei a preencher o formulário do anúncio: seção: encontros pessoais – mensagem: “Homem de 47 anos, magro e esbelto, negro, com um grau suficiente de conhecimento geral, professor universitário, atende mulheres solitárias, inteligentes e bonitas. Posso realizar fantasias sexuais DAS MAIS DIVERSAS, acompanhar em encontros sociais, ou, simplesmente sair para um bom papo ou um jantar. Dote: 22 cm. Adônis”. Li e reli a correção gramatical do texto; afinal, a mim não ficava bem cometer aqueles erros crassos dos anunciadores dessa página de jornal. Paguei mais caro para que o anúncio saísse em destaque e com outras viadagens** jornalísticas. Ah, também o expus na versão virtual do periódico.

Depois de pago e entregue o formulário à funcionária do jornal, marchei decidido para a praça de alimentação do shopping, pedi um café expresso em copo descartával e fui para aquele cantinho, constrangido, já na rua, reservado ao dinossáuricos fumantes. Deveria expor em meu anúncio esse meu mau hábito? Deveria eu confessar a falta de alguns dentes ou mesmo o ato de beber e vez por outra fazer uso de drogas ilícitas? Foram as perguntas que fumaram, na ocasião, o meu concentrado e forte hollywood vermelho. Estava quase acometido de súbito arrependimento quando olhei para a banquinha de dvd pirata de um ambulante.

O proprietário era um baiano típico, na faixa dos seus quarenta anos, mulato forte e com aquela barriga proeminente dos homens cervejeiros. Detalhe: ele só trabalhava de short e exibia sem constrangimento seus fartos pentelhos e um questionável cofrinho. O pior é que ele expunha, com a maior naturalidade, um arsenal de filmes pornôs na prateleira principal da banca. Ali estavam os filmes do Alexandre Frota, Leila Lopes, Gretchen, Rita Cadillac e o hit do momento: o dvd sobre o tarado de Juazeiro, aquele que gravava as suas transas com as suas parceiras e depois distribuía para esse perigoso mundo virtual pós-moderno. Naquele momento, uma culpa intelectualizada me abateu e eu já pensava: – só posso estar em surto de novo, que maluquice é essa de fazer parte desse mundo nojento que o capitalismo perverso produz e etc, etc, etc... – Estava a ponto de jogar fora o chip do celular que eu comprei, especialmente para tal fim, quando vi aproximar-se da banquinha duas distintas senhoras já chegando à terceira idade. – O que a senhora quer não chegou ainda não, tia –, informou o dono da banca de dvds falsificados.

Mas o meu susto maior me veio da resposta de uma das distintas senhoras: – Só quero um que tenha dupla penetração, o senhor está entendendo? – Essa bobajada toda aí eu já tenho e já vi e revi –. As mulheres despediram-se do ambulante muito cordialmente e subiram a Ladeira em direção à igreja da Piedade. – “ Imagine um absurdo: Na Bahia já teve precedentes!” – Lembrei-me na hora da máxima do saudoso Otávio Mangabeira, olhando encabulado para os passos lentos e claudicantes das senhoras que partiam.

Meus pensamentos foram trocando a culpa pela escuta da dramaturgia social daquele espaço. Olhando para uma lojinha em frente, um sex shopping expunha, de forma muito natural, calcinhas, cuecas e roupas para as mais variadas fantasias, além de anunciar numa placa, em letras garrafais: “Temos produtos para quem gosta de SM”. Meu fascínio pela gramática cultural baiana começou a abrir os olhos para as meninas seminuas que passavam; para os olhares claros e diretos dos homens para as suas bundas.

O pior de tudo foi ouvir com esses meus ouvidos quase surdos, um menino de uns cinco anos, que subia a ladeira vestido de Batman e segurando na mão da mãe cantar em alto e bom som o hit baiano do momento: “Todo enfiado, todo enfiado...” repetia ele naquela voz esganiçada de criança sem causar nenhum espanto à mãe tampouco aos transeuntes.

As minhas reflexões sociológicas começaram a me causar pânico. Não era mais vergonha, culpa ou outra besteira pequeno-burguesa qualquer. Era pânico mesmo. O súbito ataque de intenso medo me veio de uma constatação absolutamente óbvia: será que eu teria competência para desempenhar o papel de garoto de programa no cenário complexo da sexualidade baiana? Tô fudido!... constatei. Mas agora era tarde demais e Inês já era morta.
Desolado, remexido por pensamentos confusos e ambíguos dirigi-me ao Largo do Mocambinho, para destilar as minhas desditas saboreando uma cerveja gelada no Moreira. A pequena caminhada, entre o shopping Lapa e o Largo do Mocambinho me distraiu com a sua profusão de informações para todos os sentidos. Frutas, artesanato, comidas, folhas de Santo, panfletos de empréstimos consignados e principalmente corpos, muitos corpos a desanuviarem os meus tendões duros.

Ao chegar ao meu bar predileto encontro uma roda de velhos amigos, admirando o último cartaz de propaganda de uma marca de cerveja. O proprietário do estabelecimento, um senhor respeitável, coçava acintosamente o sexo por cima das calças e se gabava: – desse aí tem poucos. Só para estabelecimentos vips! – informava para a turma de marmanjos que se regozijavam com a beleza da nova ninfeta da cerveja da vez. – Essa perfeição toda é tudo computador, computador hoje faz miséria. – Informava Orlandinho Sarará, um gay muito amigo.

A intimidade obscena, própria das velhas amizades e as cervejas que desciam em trio para a nossa animada mesa me distraíram completamente. O papo da vez era uma Dona que dera para cornear o marido diabético, só porque o pau dele não subia mais. – Tá dando igual chuchu na cerca – , informava Agenor, um conceituado e jovem advogado criminalista.

Querendo fugir de um problema que eu mesmo criara, embebedei mais rápido do que normalmente e fui levado ao táxi de Vovô, que me deixou em casa. Uma amnésia abateu-me, um sono profundo me fez babar todo o travesseiro quando o celular, já com o novo chip, começou a tocar ao som de La Comparsita. A forte ressaca – física e moral – me fez desligar rapidamente o telefone com os olhos arregalados e a cabeça pesando 500 quilos. Quanta maluquice, pensava eu com o firme propósito de expiar a minha culpa alcoólica. Engoli dois remédios de enjôo, que são ótimos soníferos e apaguei de novo, naquele fim de tarde de sábado. Foi um desmaio profundo, até às 11 horas do domingo, quando acordo sem mesmo saber me localizar entre o mundo da fantasia e o da realidade.

Sentado na privada, com forte diarréia, a realidade bateu na minha testa como um tijolo. Excretar culpado é horrível, pois produz intoleráveis sensações físicas como cólicas e sudorese. Foi ainda sentado naquele trono sacrificial que ouvi o telefone fixo tocar insistente. Era Andréia, minha bela e inteligente amiga, que se queixava da solidão e do tédio de viver em Salvador. Sua súplica abateu-me como uma inocente perdiz caçada. A realidade exigia-me sair do meu aconchegante esconderijo.

Dirigi-me à banheira e mergulhei no seu útero estreito e esmaltado, durante uma hora. A água me revigorava e me fazia sentir inusitadamente bem. Sem explicação, uma ereção do tamanho do mundo furava as bolhas da banheira e se me apresentava assim exposta, pedindo um toque das minhas mãos, por pura carência. Não obedeci, dessa vez, à imposição autoritária do desejo. Levantei-me da banheira ainda com aquela coisa em riste, fiz a barba, ainda com aquela coisa em riste, perfumei-me com um cheiro de madeira forte, ainda com aquela coisa absolutamente em riste. Resoluto, liguei o celular no chip novo. Tomei um uísque como quem já antevia o que iria acontecer. Não fiz pergunta à minha primeira cliente, simplesmente anotei o seu endereço e as discrições necessárias que ela se me impunha. Vesti uma calça de elástico sem cuecas, uma bata frouxa e leve. Tomei o táxi rumo ao seu destino.

A cliente me recebeu perfumada e tossindo. Não era uma tosse de gripe; era uma tosse própria aos tímidos. Adentrei o apartamento que tinha grandes janelas para a baía de Todos os Santos. Ela não sabia o que fazer com aquele homem que acabara de contratar; era necessário tomar atitudes enérgicas.

Fui imperativo e pedi um uísque com duas pedras de gelo, que ela serviu nervosamente. Perguntei, quase ordenando, por que ela não brindaria comigo a mesma dose. Cheia de temores ela encheu o copo baixo até a boca. Confessou: – gosto mais à la cowboy –, revirando em grandes goles o conteúdo do copo, para o meu espanto. Apertei o botão do som e eis que surge, inundando a sala em pequenos silêncios sincopados, o bolero de Ravel. Apaguei as luzes, deixando o brilho da lua inebriar o ambiente e a tomei nos braços, como um Don Juan, para uma contradança.

Seus passos eram leves e perfeitos, sincronizados com os meus; seu hálito de desejo chegava perto do meu corpo que sentia a seda finíssima do seu belo vestido. Fui atento à evolução da música e boleramos pela longa sala, criando intimidades ao pé do ouvido. Primeiro confessei meu nome verdadeiro; depois ela me disse: – sou professora de letras vernáculas com francês. – Depois eu disse que adorava Balzac, querido e fiz um discurso de defesa do desejo sexual de Emma Bovary. A noite crescia em seus propósitos. Apertei seu corpo contra o meu sexo rijo. Era que a seda não se impunha como um tecido que separasse, mas sim como uma delicadeza de pele, que unisse, tocasse, apalpasse. Com a mesma delicadeza que eu senti seus contornos macios de mulher já feita; seu sofisticado perfume. Com cuidado desabotoei o seu vestido. Com mais cuidado abaixei as minhas calças de elásticos.

Agora não havia nenhum impedimento entre nós. Só um roçar lânguido de corpos nus. Uma intumescência cada vez mais direcionada atingia túneis insondáveis da minha alma. Eu não sabia que com aquela súbita experiência, líquidos e líquidos de prazer eu depositava na camisinha.

Depois de retirar de uma fina carteira de pelica o que me devia, depositando discreta a soma no meu bolso, despedimo-nos no elevador com um breve beijo. Seus olhos, contudo, não estavam saciados. Seus olhos procuravam em mim um futuro que eu não estaria disposto a lhe dar. Nem a nenhuma delas, que generosamente me pagavam. Definitivamente as mulheres são seres para o futuro. Elas não existem, apenas, no presente concreto, do utilitário e fulgaz mundo dos homens.

A segunda cliente me chegou dois dias depois. Tratava-se de uma mulher de voz ríspida e autoritária: – sou 5.0, aposentada do serviço público federal, tenho muitos conhecidos na polícia e não gosto de muita putaria não!– Eu, subserviente ouvia. – Ah! Sim, iremos a um motel que eu mesma escolherei. Posso te pegar na Praça Nossa Senhora da Luz, às 20:00 h. Eu estarei num corola preto, ligarei para você assim que estacionar e farei sinal de luz, – continuou a cliente sentindo-se dona da situação arrematada por uma frase nada discreta: – eu pago, eu mando! Vista-se como um homem decente para me evitar contratempos acidentais. Está me ouvindo? – Cumpri como um coroinha às ordens do seu pároco, todas as exigências por ela imposta. Vesti-me com um blazer preto e calça jeans discretíssima. O carro cantou o pneu depois que bati a porta. A mulher, logorréica, corria a mais de 100 Km por hora, com um discurso nervoso, mas aparentemente autoritário que me impunha todas as suas condições: – não beba e nem fume na suíte porque eu não gosto. Só faça aquilo que eu te mandar.

Ao chegarmos à suite vip de decoração egípcia, ela percorreu todos os cômodos como quem investigava. Ligou para uma amiga dizendo onde estava e com a mão esticada exigiu-me a apresentação da identidade. Eu prontamente obedeci. – Por que vocês mentem o nome? – É uma regra, senhora. Uma regra de proteção da nossa identidade pessoal. – Ela começou a rir descontroladamente e confessou: – Hoje aquele filho da puta me paga os meus 28 anos de fidelidade. Hoje ele vai tomar um corno daqueles!– regozijou-se tirando completamente a roupa, deitando-se de pernas abertas na cama e ordenando: – meta, mas sem beijo na boca e nem outra sem-vergonhice qualquer. Só faça meter até gozar. O que você está esperando?... coloque logo essa camisinha!

A terceira eu recusei peremptoriamente. Tratava-se de uma jovem de 17 anos que tinha fascínio por coroa e tinha mentido para o namorado de 22 anos que não era mais virgem. – O senhor pode abrir uma exceção. Eu gosto de coroas e marquei para transar com o meu namorado no final de semana –; perplexo, bati o telefone e desliguei o aparelho. Aquela brincadeira já estava indo longe demais.

Foram sucessivas as queixas, as propostas indecorosas, as chantagens que ouvi da minha meia dúzia de clientes. Todas, absolutamente todas, não se contentando somente com uma vez de fantasia e prazer. Senti que as minhas intenções iniciais, por mais justas que a mim transpareciam, viraram um sortilégio moral, visto aquele bando de mulheres subitamente bobas de paixão.

Não fora correto o que eu fizera, apesar de, pilantra e machista, adorar dominar aquele harém de mulheres carentes. Passeei de lancha; comi caviar; ganhei roupas caríssimas. Fiz um bom pé de meia às custas da ilusão feminina que, sem piedade, eu alimentava.
Definitivamente há um preço cruel nas nossas escolhas, por mais inconsequentes que elas sejam. Em vez de libertar as minhas idolatradas clientes carentes, eu reatualizava uma regra de ouro do patriarcado: comer e se picar!

 A falta de homem, para as mulheres, tem um significado diferente daquele que eu pensava. As mulheres são, definitivamente, inexplicáveis. São bichos que sangram, como já afirmou uma outra mulher. Logo depois da minha desistência de tão estapafúrdios acontecimentos, chegou o carnaval, quando todos fingem que esquecem os seus lastros de existência, na alegre e sensual Cidade da Bahia.

Contatos com o autor podem ser feitos pelo e-mail: Alberto Heráclito " <betoheraclito@yahoo.com>

 

 

 


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