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Paixão e Medo em Brokeback Mountain
Ricardo
Líper é autor do livro Sexo entre Homens e a Tradição
Espartana. e-mail: ricardoliper@bol.com.br
Estreou no Brasil no dia 3 de fevereiro O Segredo de Bokeback Mountain.
Nos Estados Unidos os cinemas, onde está sendo exibido, estão
lotadas
e tudo indica que aqui ocorrerá o mesmo.
O filme é sobre sexo e amor entre dois cowboys. Ambos são
absolutamente homens. Másculos. Não se enquadram em nenhuma
categoria
a que estamos acostumados a enquadrar as pessoas. Não podemos dizer
que
são gays porque não possuem nem a mentalidade nem o estilo
de vida
mais comum entre gays.
A história começa quando, em 1963, eles pastorearam ovelhas
em uma
montanha na qual ficam isolados durante alguns meses. Lá ocorreu
sexo
entre eles. Até aí é compreensível. Só
que eles não conseguem
conter, como muitos fazem, a soma de uma amizade profunda e atração
sexual e tomam consciência que se apaixonaram um pelo outro.
Só essa história não levaria o filme a ter ganho
O Leão de Ouro do
festival de Veneza e o Globo de Ouro nos Estados Unidos e ser um dos
fortes candidatos ao Oscar. O que faz este filme ser grandioso é
que
seu tema principal é paixão e medo. Dois homens fisicamente
destemidos. Um enfrentando touros em rodeios. Outro, qualquer desafio.
Rudes. Mas, é, principalmente o mais rude, que também é
extremamente
medroso diante do que sente por outro homem. Enfrenta outros sujeitos
e
os espanca com facilidade, ursos e coiotes mas não a sociedade.
Tem
pavor dos outros virem a saber o segredo de Brokeback Mountain. Como as
ovelhas que eles pastorearam lá cumprem o que a sociedade espera
deles.
Se casam, têm filhos, sofrem nesses casamentos com suas banalidades
domésticas. Às escondidas, ao longo de vinte anos, encontram-se
com
intervalos de meses, por não poder conter a paixão que sentem
um pelo
outro.
O filme quebra a espinha de muitos conceitos pré-concebidos. Homens
de
fato podem vir a fazerem sexo entre si, contradizendo todos os
rótulos, podem vir a sentirem pelo outro amor e, muitas vezes,
não
saberem direito o que fazer com isto. E, vai mais além, mostra
até
que ponto o medo das convenções sociais faz as pessoas estragarem
suas vidas. As obrigam a ficarem representando o papel em um teatro de
convenções sociais sufocando seus sentimentos e condenando-se
a uma
ruína final.
Só as pessoas corajosas têm alguma chances de serem felizes.
O medo é
o principal ingrediente da infelicidade. Principalmente o medo dos
outros. De joelho, diante dos preconceitos, ninguém pode ser feliz.
O que é importante é que o filme consegue atravessar o impacto
inicial
que é ser sobre sexo entre homens e atingir um tema universal que
é a
capacidade e o medo de amar. A partir do meio do filme não importa
mais que sejam dois homens que se amam e não conseguem defender
o
direito que têm de amarem-se. Esse contraponto só faz aumentar
o
desejo, que todos temos, que eles consigam ficar juntos. O cinema tem
essa capacidade. Nós torcemos pelos personagens e queremos que
eles
sejam felizes. Talvez só no cinema ocorra isso. Um grande número
de
pessoas não ficam à vontade com a felicidade dos outros
que as
cercam. Mas acredito, mesmo estas, torcem para que personagens de
ficção sejam felizes e se entristecem quando eles sofrem.
Mesmo que
você não goste de ver dois homens se beijando e se acariciando,
que
vá contra sua religião, convenções e preconceitos,
é muito
difícil, ao assistir O Segredo de Brokeback Mountain não
desejar que
eles consigam ter coragem suficiente para terem paz juntos.
A beleza das cenas e sua cuidadosa composição é também
surpreendente. O trabalho de direção e dos atores chega
perto da
perfeição. Os dois estão muito bem. Michelle Williams,
como a esposa
de Ennis Del Mar (Heath Ledger), dá um show de interpretação.
Anne
Hathaway, como a esposa de Jack (Jake Gyllenhaal), não fica atrás.
Todo o resto do elenco está muito bom. O dono das ovelhas, que
os
contrata no início do filme, está perfeito.
Precisou muita coragem de Anne Proulx para escrever o conto no qual o
filme é baseado. Heath Ledger e Jake Gyllenhaal foram corajosos
para
fazerem um filme deste tipo com cenas quase explícitas de sexo
entre
eles. Não correram depois para a imprensa para dizerem que não
gostaram do que fizeram ou que não gostam de homens com costumam
fazer
nossos pobres atores quando interpretam personagens que não se
relacionam com mulheres. Coragem também de Ang Lee. Não
recuou diante
do tema nem deixou de narrar a história com todos os detalhes
necessários. Coitada de uma rede de televisão nacional que
com um
tema semelhante gravou, mas não teve coragem de colocar no ar,
um
simples beijo entre dois cowboys.
O Segredo de Brokeback Mountain recebeu vários prêmios, o
diretor e os
atores estão sendo reconhecidos pelo seus trabalhos. Estão
famosos e
suas carreiras, daí por diante, deverá crescer. A vida costuma
premiar quem tem coragem de ousar. ( Salvador, 9 de fevereiro de 2006)
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