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A ira dos intolerantes

A intolerância e preconceito sexual ainda estão enraizados na sociedade brasileira. Neste ano, 232  homossexuais já morreram vítimas do preconceito, destes, cerca de 70% era gays, 27% travestis e 3% de lésbicas.
Em 2009, foram registradas 198 mortes decorrentes da violência. O antropólogo, historiador e pesquisador, Luiz Roberto de Barros, mais conhecido como Luis Mott, um dos mais notáveis ativistas brasileiros em favor dos direitos civis das pessoas de minoria sexual, ou seja, gays, lésbicas e bissexuais, explicou em exclusividade à Tribuna, a motivação de tantos assassinatos, assim como a intolerância religiosa e a lei que criminaliza a homofobia. Para ele, o Brasil, apesar de não ser o país mais homofóbico do mundo, é o país líder em assassinatos de homossexuais. 
 
Tribuna da bahia - Como você vê os recentes acontecimentos em São Paulo, com o espancamento de gays em plena Avenida Paulista?
Luis Mott - A bruxa está solta. A maior visibilidade e a conquista de espaços públicos por parte de homossexuais provocam a ira dos mais intolerantes, que estavam acostumados a um complô do silêncio. Os próprios homossexuais não se expunham para evitar situações de risco. Há anos, na Bahia, quando passava um gay e os machistas percebiam, eles gritavam: ‘Tchibum’. Como dizendo: ‘Ali passa o veado, vamos caçar o veado’. Era uma forma de desmascarar. Hoje, as pessoas partem para a agressão física, como aconteceu em 2000 com o Edson Neri, na Praça da República, em São Paulo, que foi o caso mais emblemático. Ele foi trucidado por um bando de carecas neonazistas. Acho que essa visibilidade incomoda.
  
 TB - Você acredita que os constantes atos de violência ocorridos em paradas gays são uma coincidência?
Luis Mott - O Brasil é o país líder em assassinatos de homossexuais. Não é o país mais homofóbico do mundo, porque não tem as leis, como no Egito ou no Iraque, onde os homossexuais podem ser executados, mas, a cada dois dias, um gay ou um travesti sofrem algum tipo de constrangimento ou agressão. O Brasil tem um lado cor de rosa, que é representado pelas paradas gays, tem mais de 200 paradas e a maior parada gay do mundo; tem a maior associação LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transexuais) da América Latina; tem o Programa Brasil Sem Homofobia, ou seja, conquistou muitos avanços, mas tem um lado vermelho de sangue. Ao mesmo tempo, é um País que tem esse componente de agressividade letal. Em 2009, foram 198 assassinatos documentados. Em 2010 já são 232 assassinatos.
 
TB - A principal justificativa desses assassinatos é o preconceito, a aversão aos homossexuais?
 Luis Mott - Sim. São crimes em que a vulnerabilidade da vítima é fator fundamental. O assassino parte do pressuposto que o gay é frágil, afeminado, é presa fácil. Há casos em que o gay gritou pedindo socorro e a vizinha não foi porque teve medo ou porque não tinha nenhuma solidariedade. Há ainda outro fator, que chamamos de homofobia cultural. Por que a travesti está fazendo pista (se prostituindo) e, muitas vezes, está envolvida no crack? Porque ela foi jogada, foi expulsa para a margem da sociedade. Então, mesmo nos crimes em que há envolvimento com droga ou nos casos de latrocínio praticado por rapazes de programa, que transam com o gay e depois matam e roubam a vítima. 
 
TB - O que leva uma pessoa a ser homofóbica, a ponto de agredir e até cometer assassinato?
  Luis Mott - Acho que essa violência contra homossexual é uma forma de afirmação da masculinidade. A homofobia e os crimes de morte têm a ver com uma afirmação do machismo, da virilidade e com a ideia de, sobretudo quando o gay é assassinado por rapaz de programa, uma questão de classe. Considero que o machismo brasileiro e o latino-americano têm raiz histórica no escravismo. Os brancos machos, donos do poder, eram menos de 20% da população. Então, para manter os outros 80% da população submissos, explorados, o macho latino-americano tinha que ser super, violento e viril. Qualquer afeminação podia representar uma possibilidade de os oprimidos tomarem conta.
 
TB - Qual a sua posição diante das reações negativas de grupos religiosos à possibilidade da aprovação da lei que criminaliza a homofobia?
Luis Mott - As igrejas cristãs, em geral, têm as mãos sujas de sangue, pela intolerância que divulgam nos púlpitos e nas televisões. As igrejas Pentecostais, Universal, Assembleia de Deus, que têm como líderes Malafaia, (Marcelo) Crivella e Magno Malta são nossos maiores inimigos. Particularmente, esse Papa Bento XVI se distinguiu, desde quando era assessor de João Paulo II, como sendo o mais intolerante dos papas dos últimos séculos. Ele disse: ‘O homossexualismo é intrinsecamente mau. Então, a partir daí é que as igrejas protestantes, inclusive muçulmanos, impediram que na Organização das Nações Unidas (ONU) fosse incluída a orientação sexual como direito humano fundamental. Vai chegar uma época em que o papa e essas igrejas vão pedir desculpas de joelhos aos homossexuais, como a igreja já pediu desculpas aos judeus, negros e índios.
 
TB - Você diria que, hoje, o direito de ter uma opção sexual, digamos, não convencional, avançou em relação há 30 anos, quando fundou o GGB?
 Luis Mott - Há mais de 20 anos que o Grupo Gay da Bahia pleiteia a equiparação da homofobia ao racismo. Bastava para nós que os mesmos insultos, agressões, discriminações que são categorizados, no caso do racismo, como crime inafiançável, que fossem na mesma extensão para os delitos em relação à orientação sexual. Porém, esse projeto de lei, da Iara Bernardi (PT), que é a autora original do projeto, foi muito detalhado. Inclusive, como aconteceu com a lei de Juiz de Fora (Lei Municipal nº 9791, conhecida por ‘Lei rosa’), permitindo afeto em público por homossexuais... 
 
TB - Como os defensores dos direitos dos homossexuais pretendem agir em relação à lei anti-homofobia?
 Luis Mott - A aprovação é fundamental, sobretudo, para marcar a presença de 10% da população brasileira constituída por LGBTs, que vão ter o mínimo de proteção legal. Na Constituição de 1988, não foi incluído a proibição de discriminar por orientação sexual e isso permite que juízes, delegados, policiais digam que discriminar gay não é crime. Em outros países, há leis severas contra a homofobia. Acho que o projeto de lei é importante porque tipifica os delitos de homofobia e, sendo aprovado, vai inibir a prática no dia a dia, mas não tem nada sobre a violência letal. Falta no projeto uma explicitação sobre isso. ( Reprodução jornal Tribuna da Bahia 8/12/2010).

 

 

 

 


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