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ADOLFO CAMINHA - Afro-descendente do bem

A crítica literária sempre elencou o romance Bom-Crioulo, publicado em 1895, como um dos primeiros a tratar a questão homossexual. Em sua análise, Gilmar de Carvalho vai muito além deste lugar comum: ressalta o atrevimento do escritor e este viés antecipatório, mas fala, especialmente, da questão do desejo, não colocada no romance, motivado mais pelo ódio à Marinha e à hipocrisia do tempo do que por uma visão inclusiva

Gilmar de Carvalho
Especial para O POVO 20/01/2007

O Bom-Crioulo é um romance atrevido, antecipador ao eleger o homoerotismo como tema, e deve haver poucas dúvidas sobre a importância de Adolfo Caminha para a literatura brasileira (exceção feita aos teóricos "uspianos").

Quero abordar o Bom-Crioulo sob outro ponto de vista: o do desejo.
Adolfo Caminha era hetero e até hoje ninguém levantou dúvidas quanto às escolhas afetivas e sexuais dele. Já remexeram o baú de Zumbi, já descobriram que Lampião costurava em uma máquina Singer, mas o "outing" (a retirada à força do "armário") não chegou (nem chegará) ao nosso "padeiro" Félix Guanabarino.

Bastaria A Normalista para incluí-lo de vez no nosso pobre panteão. O Bom-Crioulo amplifica e reforça o atrevimento em nível nacional de Caminha.
Mas onde está o problema? Exatamente no fato de Caminha não ter preferências homossexuais. Aí reside o nó górdio de seu romance.

Ele escreveu motivado pelo ódio que sentiu da Marinha e resolveu escancarar a hipocrisia, por meio de um tema que ainda hoje é tabu nas forças armadas: a homossexualidade.

O mesmo ódio que sentiu de uma Fortaleza provinciana e rancorosa que forçou seu exílio e foi retratada em A Normalista.

A morte aos trinta anos retira qualquer exagero de sua genialidade.
Mas o Bom-Crioulo é mais um ajuste de contas que um romance homoerótico. Falta o desejo, o olhar cúmplice, a antecipação do gozo.

Caminha falou do que viu, do que lhe contaram e, desse ponto de vista, romanceia uma situação freqüente nas forças armadas (e no clero) que muitos tentam empurrar para debaixo do tapete roto.

Li certa vez sobre as humilhações por que passam os que são excluídos da farda, em cerimônias públicas de execração. O "politicamente correto" ainda não conseguiu evitar esses constrangimentos. O mesmo procedimento autoritário, de desrespeito à alteridade, foi adotado por partidos de esquerda, durante a ditadura: o militante com preferências homossexuais era alguém que se deixava seduzir, que se corrompia facilmente e não era capaz de manter suas convicções na hora da prisão e da tortura.

Trabalha-se, ainda, em certos grupos religiosos, com a idéia de "doença", nos melhores moldes do cientificismo do século XIX ou dos horrores stalinistas, nazistas ou castristas.

Sobra sinceridade e falta vivência no Bom-Crioulo. Caminha nunca poderia compreender que o desejo se dissimula nos olhares enviesados, como pulsão de vida e "qualquer maneira de amar vale a pena", conforme se cantou anos depois.

Para ele devia ser o avesso. Ele estava na periferia das questões, com sensibilidade aguçada, sem a maior parte dos preconceitos da época (de outras épocas), mas não sentiu na pele o desejo por outro homem, o contato com um corpo que é espelho e reverso.

Tanto a construção do estigma como as variações do desejo foram processos históricos. Nos anos 40, uma fila do Cine Diogo se levantava para evitar a companhia de um homossexual assumido. A luta passou pelo jornal Lampião (1978), pela escritura de João Silvério Trevisan, Aguinaldo Silva, e outros que ousaram se expor publicamente. O desejo era chamado de anormalidade e outros termos ainda mais depreciativos.

Hoje, são feitas paradas da diversidade sexual, existe lei anti-discriminação, mas os clichês continuam nos programas de humor da televisão e em muitas atitudes homofóbicas.

O Bom-Crioulo insiste na oposição macho versus fêmea, na idéia de ativo/ passivo, onde o grumete delicado é "vítima" e paixão doentia do brutamontes. Ficção?

O objetivo de Caminha foi atingido e o romance cumpriu sua função inaugural.
Vale a pena homenageá-lo, ainda que hoje o desejo transite pelos seres em trânsito de João Gilberto Noll, pela criativa ambigüidade de Almodóvar, e pela fotografia de Mapplethorpe. Bom ressaltar que preferência homossexual não avaliza, necessariamente, uma produção estética de qualidade.

Pode-se escrever sobre o que não se viveu, a literatura dá direito a essas licenças poéticas. O fruidor de hoje está mais exigente e distingue entre sinceridade, dor, dilaceramento, prazer, e opção por um nicho promissor de mercado.

(Bons) crioulos são afro-descendentes, nestes tempos difíceis de convivência com as diferenças. Que viva Caminha!


Gilmar de Carvalho é doutor em Comunicação (Semiótica), escritor, pesquisador, professor da UFC


 


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