O GGB    ::    SEJA MAIS UM FILIADO    ::    FAÇA SUA DOAÇÃO    ::    ggb@ggb.org.br
 

Home
Saúde
Movimento GLBT
Grupos GLT
Editorial
Legislação
Direitos Humanos
Orientações
Caderno Cultural
Educação
Agenda 2004
Notícias
Artigos-Opinião
Acontece
Nossas publicações
Turismo
Sociedade
Destaques
Marcelo Cerqueira
Sites
Projetos
Roteiros e serviços

 

  


O ÚLTIMO CAPÍTULO DO QÜIPROQUÓ DO PADRE PINTO?

Pelo padre-pintólogo Roberto Albergaria

1. De um Pinto a outro

No início (logo que irrompeu, surpreendentemente, na cena midiática local e nacional), a história do Padre Pinto nos parecia mais nitidamente definida e ideologicamente polarizada: era a peleja da Liberdade-do-Indivíduo contra a Repressão-da-Instituição (e o Conformismo da beatas), da Espontaneidade contra o Fingimento, de Cristo contra os Fariseus...

Mas, mês após mês, foi mudando o jogo -- e as identidades e os interesses dos jogadores... O José de Souza Pinto de janeiro não é mais o de abril. Tomou gosto pela liberdade recém-conquistada, a-d-o-r-o-u a experiência de sair do armário...

Seu exuberante "outro lado" pintor/estilista e modelo fotográfico de moda/ cantor/ escritor (do futuro “Confissões”) homem (sexuado) foi se sobrepondo à fisionomia mais contida de velho padre da Lapinha. A parte que era identitariamente secundária, virou a principal... Suas porções "padre" e "pessoa privada" foram redimensionadas.

(Daí ele insistir tanto que é "bi": meio isto, meio aquilo -- variando na dose quando lhe convém, simulando cá, dissimulando lá... Camaleonismo que tanto desagrada nosso amigão Luizão [Mott], "fogoso arrombador de armários e cofrinhos". Varão ousadão que também já estudou-pra-padre; mas que rompeu radicalmente com a sua Igreja-Madrasta, a ponto de se declarar Ateu!).

Se bem que os papéis que costumava representar mudaram – ele está, agora, investindo sua face pública não só de artista mas, também, de agitador cultural-midiático, de celebridade (atuando, especialmente, como show-man de programas de variedades), de empreendedor social, de homem apaixonado (inclusive por mulheres!) etc. O Pinto soltou a franga em todos os sentidos! Não é mais aquele! [nem o pau que ia na cacunda dele...]

Mudou o personagem principal, o cenário, a reação da platéia etc. E consequentemente, mudaram, também, as relações do alegre Pinto de hoje com os demais poderosos (e sisudíssimos!) atores deste drama. Assim, o atual episódio da suspensão é mais um capítulo de uma longa série de incomodações & acomodacões, de ameaças & panos-quentes compreendendo o Pe. Pinto, a Arquidiocese, a Congregação (das Divinas Vocações), a Mídia e Meia-Bahia opinante e fuxicante. Todos unidos neste enredoso sociodrama iniciado no início deste ano...

Um conflito político-religioso, com seus momentos de avanço & recuo, de oposição aberta & negociações secretas? - Ou -- ao se prolongar tanto ("noveleiramente"?), ao repercutir e se desdobrar tamanhamente em tantos setores (todo o mundo metendo o bedelho, com os mais variados motivos, incluisive eu!) -- algo que teria tomado a forma mais uma pendenga à baiana maneira?

O sociodrama originante já virando uma farsa meio grotesca? Um fuzuê articulado através de um embrulhoso jogo de falações e não-ditos, já parecendo uma grande comédia de erros dos dois lados, um imenso imbróglio pessoal-institucional-midiático...

Um qüiproquó de mais em mais enredante e confuso -- que nos faz dar adeus à polaridade inicial (transgressor/repressor, heterodoxia/ortodoxia etc.). Gangorra em que os dois lados imediatamente envolvidos (a Arquidiocese e o Pinto) sempre interagiram numa larga praia de vacilação e ambivalência:

a) A Arquidiocese variando entre a Punição e a Tolerância...

b) Também o Pe. Pinto oscilando entre a Ruptura e a Concliação. Mantendo-se sempre em cima do muro, parecendo querer empreender uma guerra de guerrilha contra a Arquidiocese: atuando intensamente na "selva da mídia", escondendo seu lado padre cá, exibindo-o lá, ziguezagueando como padre-artista/artista-padre entre a folhagem das páginas dos jornais, o fashionista (sempre bem maquiado!) borboleteando entre as luzes coloridas das telas das tevê, o anarquista escaramuçando o Governo da Igreja nos talk shows...

Antes do Carnaval (cena na qual tinha prometido atuar, mas desistiu) arrumou Relações Públicas e Advogado, anunciou a Fundação Padre Pinto (tentando um perfil semelhante ao de Irmã Dulce)... Mas recuou logo para o quartinho que deram a ele na Lapinha (depois da negociação como Dom Ludovico, superior vindo de Roma para tapar o buraco, para menizar o "barraco"...).

Como diria o povão: nem Dom Majella nem ele mesmo sabiam se o Pinto ficava dentro - ou se era melhor botar o Pinto pra fora...

2. Um Pinto exemplado!

Mas esse seu movediço terreno midiático (que PP ocupou com muita habilidade) já estava começando a escassear. Sua novidade começava a cansar, sua imagem já estava se tornando saturante -- sobretudo cá na Midiolândia Soteropolitana.

Em 6 meses seu "affair" já estaria completamente esgotado como assunto. Agora, terá mais 3 meses de sobrevida (na nova onda de aparição jornalística que se prenuncia, pós-suspensão)...

Obrou mal, a Arquidiocese a radicalizar agora? Sim e não... Pois esta suspensão terá um efeito negativo na mídia (reativará o imaginário da Igreja Inquisidora, excessivamente zelosa da sua ortodoxia), mas produzirá um efeito benéfico interno, institucional, organizacional.

Na verdade, o Pe. Pinto está sendo punido não tanto pela sua heterodoxia ritual e doutrinária (sua tônica no sincretismo, no ecumenismo, na liberdade sexual etc.), mas pela sua insubordinação à hierarquia constitutiva da organização da qual faz parte, pelas suas reiteradas inconfidências.

Soldado não pode criticar o General... Seu personalismo (não raro roçando o mais "pintoso" exibicionismo?) quebrava a regra da impersonalidade e da discrição sacerdotal, sobretudo em matéria carnal (pois um sacerdote católico deve manter uma expressão corporal extremamente assexuada, especialmente quando é, intimamente, gay – praticante clandestino ou abstinente, tanto faz). Os segredos internos de qualquer Organização (micro-políticos, sexuais etc.) não devendo nunca vazar – sobretudo para a mídia (que vive de escancarar tudo!).

Sendo que para a Igreja Católica tal vigilância deve ser redobrada neste particular. Pois faz parte da lógica simbólica da mitologia cristã a desvalorização da Carne, sempre em benefício do Espírito, supervalorizado (diferentemente do chamado Paganismo, que tanto os sacerdotes – celibatários radicais, em princípio -- combatem...).

Assim, podemos ver o gesto de D. Majella como mais uma medida visando neutralizar a diferença/divergência de Pinto, desautorizando suas palavras e gestos enquanto sacerdote. É assim que ele será representado como irreverente, inconseqüente, desequilibrado mental etc, afastado do seu universo microssocial originário da Lapinha e, em seguida, suspenso. Não se aquietou, o pau cantou!

A Cúria sempre tentando reforçar as idéias de autonomia e hierarquia como fundamentais à organização religiosa. A Igreja enquanto mega-instituição burocrática transnacional nunca podendo deixar de estar ciosa da sua unidade “holística”. O que a leva o Alto Clero (romano ou local) a sempre vigiar as iniciativas dos membros do Baixo Clero (ou dos seus escalões intermediários), a desconfiar das inovações das suas bases leigas, a combater o laxismo sincretizante da sua clientela mais ou menos fiel etc.

Uma punição exemplar ao inconfiável pároco: inclusive, para prevenir ulteriores casos de possível rebeldia -- em que outros sacerdotes, mais ou menos inconformados neste ou naquela circunstância, poderiam ultrapassar os limites da micro-política interna (ou do simples esperneio). É o que se diz nos bastidores (embora ninguém queira aparecer...et pour cause!).

3. Do Pinto certo ao Pinto duvidoso?

Certamente, a esperança de D. Majella de que este seja "um ponto final" não se sustenta nem por um dia...

E para o versátil multimidiático Pinto? Paradoxalmente, esta suspensão vai beneficiá-lo -- reforçando a sua imagem de libertário perseguido, dando-lhe uma intensa sobrevida midiática de mais alguns meses, permitindo a divulgação da sua griffe PP... Até chegar a nova festa da Lapinha, quando reaparecerá nas gazetas com suas "novas novidades", já se tornando uma figura quase-folclórica da tal "baianidade", até morrer (como corpo, personagem ou notícia, tanto faz).

Pelo momento, o que vemos é que cada novo capítulo desta espichosa história termina gerando ainda mais confusão na cabeça do povão. Se bem que muita gente não sabe mais o que representaria o Ícone-Padre-Pinto no baile-de-máscaras do audiovisual de massas de hoje.

Estaria ainda manifestando aquela idéia inicial de um combativo espírito libertário, socialmente orientado (embora “carnavalizante” pelas beiradas)? Ou suas palavras e seus gestos já estariam deixando transparecer, particularmente, um certo afã de egocentrismo exibicionista? Mais ou menos isso ou aquilo? O que estaria em jogo, agora? Que ideais, vontades e interesses estariam prevalecendo de um lado e do outro?

A superexposição do (extravagante?) Pinto alimentando este clima de permanente confusionismo... Nossa miolada vacilando em meio a tantas interpretações compossíveis... Nossas certezas iniciais dando lugar a tantas dúvidas... E a coisa continuando a rolar normalmente assim, uma vez que a ambivalência é uma característica estrutural da atual “cultura da mídia”.

Equivocante espetacularização da política, da religião, das personalidades... Jogo dúbio em que a mediação áudio-visual mais confunde que esclarece nosso estressado juízo crítico (já pós-crítico?).

Enfim, as recaídas deste compliquento "affaire" seguindo sempre nos conformes da lógica do qüiproquó que rege nossas vidas pós-modernas: para os mais exigentes, tudo já parecendo mais simulação (ou, baianamente, "presepada") que ação.

A mutabilidade das opiniões (não raro levada ao extremo da leviandade, da fantasiosidade ou da maluquice mesmo) já tendo se tornado um hábito mental naturalíssimo entre todos os enganadiços espectadores & fingidiços atores que se entretêm, de Carnaval a Carnaval, na clausura desta enganosa Sociedade do Espetáculo, Circo Total, Geléia Geral, Era da Ambivalência generalizada...

 


Voltar

  __________________________________________________________________________________________________________
  Grupo Gay da Bahia - GGB
Rua Frei Vicente, 24 - Pelourinho - Caixa Postal 2552
CEP 40.022-260. Salvador / Bahia / Brasil 
Tel.: (71) 321-1848 / 322-2552 / 322-2176
Fax: 322-3782
 
__________________________________________________________________________________________________________

         © 2003, Todos os direitos reservados, Grupo Gay da Bahia