O GGB    ::    SEJA MAIS UM FILIADO    ::    FAÇA SUA DOAÇÃO    ::    ggb@ggb.org.br
 

Home
Saúde
Movimento GLBT
Grupos GLT
Editorial
Legislação
Direitos Humanos
Orientações
Caderno Cultural
Educação
Agenda 2004
Notícias
Artigos-Opinião
Acontece
Nossas publicações
Turismo
Sociedade
Destaques
Marcelo Cerqueira
Sites
Projetos
Roteiros e serviços

 

  

O gordo Riso contra o magro Siso

A cara do Carnaval é gorda, meu rei
Para Eliana Kertész (mãezona do sequinho malvadinho Chicó Quértisco) e para Bira Gordo (bem-comido presidente da Afundação Piroquinha Calmon)
Pelo patusco Dr.Albergalhão


Ai, que loucura!!!!

Gorda!!

 

                                                                  
Os modernistas deslumbrados desta inchadona Província-Que-Não-Se-Compreende só ficam trombeteando a patacoada do tal “Maior Carnaval do Mundo” (inscrito no Guiness Book of the Records, bíblia dos bestas). É o maior, mas não o melhor! E vem piorando muito em qualidade, na medida em que nossas mais belas tradições vêm sendo descaracterizadas ou chutadas para escanteio.

Assim, nosso xodozento Rei comilão & suas corte de Rainha e Princesas gostosinhas há muito deixaram de ter suas visibilidades garantidas, tanto nas ruas quanto na mídia. As tevês já encegueiradas pelo artificialismo das Estrelas dos superblocos & supercamarotes, viciadíssima na superexposição das Grande Atrações do dinheirudo Axé-System em geral.

Avassalante monomania novidadeira e loroteira! Coisa de gente desengraçada & desinteligente que não entende que nosso Rei da Fuzarca não é nenhum arcaísmo a ser eliminado ou “repaginado”, mas uma herança viva, um patrimônio simbólico imortal -- o verdadeiro Maioral que deve ser recolocado no centro da patuscada popular. Da mesma forma que o Caboclo não pode deixar de estar sempre à frente da nossa não menos popular muvuca mix do 2 de julho. Nem podemos imaginar a (igualmente carnavalizada) Parada Gay que já vem se tradicionalizando entre nós sem a centralidade representacional desta lenda viva que é Mott – varão peludão não menos lindão que personifica toda a ousadia da militância anti-homofóbica & toda a exuberância da nova cultura queer global (já bem aclimatada e sincretizada com a antiga cultura local da xibungagem). Outra figura emblemática, a comandar toda nossa Meia-Bahia-Veadeira em cima do primeiro trio, com o pau da bandeira do arco-íris na mão e o fálico microfone na ponta da língua...
 
Esperamos que em 2009 a imagem desta graciosíssima Majestade (um Momo ainda hetero ou já multissexual) seja revalorizada, reaparecendo nos palcos e telas de tevê com todo o esplendor real a que tem direito em nossa Bahia pós-moderna. Pois é inegável a importância de um personagem visual tão emblemático -- representação mais exuberante do próprio folião destabocadão que reina esparramado por todas as buraqueiras da cidade nessa excepcional meia-semana de liberdade (e libertinagem) tolerada, em que tudo parece estar viado, digo, virado pelo mijado avesso...

Trata-se de dar continuidade a uma preciosíssima história que se perde nas brumas do nosso passado ocidental. Momo era na mitologia grega uma divindade marginal: o Deus-do-Riso, a subversão pela troça, o endiabrado Anti-Poder. E a tal ponto esculhambou a arrogante caretice da elite dos deusões poderosões (que tanto se levavam a sério!) que terminou sendo expulso do Olimpo pelos soberbões incomodados.

Insolente figura que reaparece na tradição carnavalesca européia já como um Rei Gordo (que recebia as chaves da cidade para desregrar tudo neste breve interregno de Reinação da Esculhambação). E é com esta fisionomia que ele foi introduzido na Bahia, há mais de 50 anos. Aclimatando-se perfeitamente em nossa ”doce e gorda Cidade da Bahia”, “Terra da Brincadeiria” (bricadeira+trutaria).

No mais, o personagem que temos largamente tipicizado e tradicionalizado em nosso imaginário popular é a do Gordo manifestando o Riso – em contraste com a do Magro traduzindo o Siso. Gordura condensada alegoricamente na arquetípica imagem corporal do Rei Momo à qual nos acostumamos desde o tempo dos nossos avós patusqueiros. Uma imagem-corporal-de-marca com imenso valor afetivo para o povão folião. E que nunca poderia ser desvirtuada atabalhoadoamente, vitimada pelo furor modernista-higienista dos Donos da Festa e dos seus símbolos.

Ora, sabemos que um pândego Rei Momo gordíssimo é um tipo social “diferente” -- que encarna maravilhosamente a estética grotesca do nosso jocoso Carnaval popular, o que rola rente ao chão, entre os travestidos, nas moquequinhas, na pipocaria solta. A extravagante & aconchegante corpulência do Gordo-Risonho-Cara-de-Lua-Cheia representando toda a enxerida convivialidade que deve reinar nesses excepcionais “dias gordos” de doideira coletiva em que se invertem os padrões éticos e estéticos da cidade. Contrastando com a banal figura do Magro-Sisudo-Cara-de-Fuinha que domina todo o regradíssimo resto dos aporrinhantes dias do ano...

Por outro lado, a corpulência do nosso rebulinte Gordo-Rei, todo fofão a desfilar na avenida, representa não só a alegria, mas também o prazer da transgressão. Especialmente quando Momo, confundido com Baco, torna-se o ícone deste passageiro hedonismo furdunceiro de fevereiro: a gordura aí já representando os excessos do comer, beber, farrear com os amigos até cair duro no lixo da quarta-feira. Alvoroçada liberação do “baixo corpo” que pode incluir, extensivamente, outras ousadias carnais não menos gozosas...

Também, o simbolismo do Rei-Momo-Gordo se reproduz nas entrelinhas do catolicismo popular – de onde nasceu o Entrudo (intróito da Quaresma) e o próprio Carnaval (adeus à carne). O rotundo Momo passando a representar o reinado da carnalidade carnavalesca que antecede o império da espiritualidade quaresmal. A gordura (dos pecadores comilões, beberrões e sensualistas em geral) manifestando os excessos da viciosa “carne” do futuro desencarnado (ossudo que irá brincar de alminha boazinha lá em cima depois de patuscar encapetadamente cá em baixo).

Alternância de comportamentos (e de figurações corpóreas) do volúvel baiano -- ora furdunceiro, ora quaresmeiro; ora muquirana travequeiro, ora machão femeeiro; ora escrachado pai-d’égua no verão, ora posudo pai-de-família no inverno... Mutações cíclicas que fazem parte dessa espécie de Inconsciente Coletivo que modula o ritmo das nossas vidas cotidianas. Troca-troca dos nossos modos de ser e parecer que estão inscritos na própria articulação temporal do Profano e do Sagrado definidos ao longo ano litúrgico cristão (referência básica do ano civil).

O destrambelhamento do patrimônio imaterial da Bahia

Legendária imagem-padrão, melhor dizendo, anti-padrão -- de um Anti-Herói que só pensa na esculhambação. Perfil de uma criatura excepcional, pois os grandalhões gordíssimos se resumem (como os anões, num outro extremo) a um minoriazinha de pessoas, singulares pela sua raridade e “notáveis” sobretudo quando supercaracterizados como personagens carnavalescos. Irresistíveis atratores das multidões pulonas, comilonas, beberronas, ózadonas de toda nossa Cornolândia festejante...

Em resumo, a abundância da imagem corporal deste Rei-Farsesco não pode deixar de espelhar a própria extravagância da festa, de reduplicar seu espírito jocoso-feioso, de comédia burlesca, de mascarada patusquenta. Grandalhão arreliento sempre fora dos padrões que impõem o ano inteirinho nossa Moral de Jegue & Estética do Cãozinho Poodle (insuportável frescurismo belezista-madamista!).

Majestoso “Tripa Grossa” que é o ícone do Baixo Carnaval boêmio, bregueiro e avacalhativo do Povão – molecão jocoso sempre a desafiar a ditadura do Alto Carnaval vistoso dos Mangangões. Gaiatão grandalhão esculhambadão e alegrão não pode deixar de ridicularizar a sem-gracice dos raparigotes esganiçados “puxadores” dos blocos-de-trio (tipo Ricardo Chaves, Netinho, Saulo, Tomate). Ídolos chués daquela “gente bonita” cheia de triquetriques – galerinha mofina em que saltitam os mauricinhos sarados com cara de “barbies” e patricinhas sequinhas de peitinho siliconado, barriguinha de tanquinho e perninhas de saracura...

Portanto, não podemos separar a rotunda aparência de Momo da sua essência prazenteira e patusqueira. Pois o que está em jogo aí é um tipo de corporeidade, de figurino, de performance e de narrativa mito-poética que já faz parte da arquitetura conceitual da festa. E que não pode ser alterada ao léu sem que afetemos a estrutura de todo o edifício imaginário que construímos desde o tempo em que o Carnaval foi sendo “tropicalizado” também entre nós (assimilando, sobretudo entre o povão, boa parte do espírito-de-porco-gordo do velho Entrudo).

Imagem-padrão do Rei Momo que representa um bem simbólico do mais alto valor histórico e cultural para a Cidade da Bahia. Só perdendo sua supremacia para as imagens não menos paradigmáticas do Caboclo do 2 de Julho e do Senhor do Bonfim. Constituindo-se, assim, como um patrimônio imaterial público que pertence a todo o povo baiano – não podendo ser privatizado por uma entidade carnavalesca fantasma que se toma como a proprietária exclusiva da marca “Rei Momo”. Da mesma forma que nem a Irmandade do Senhor do Bonfim, tampouco, o Instituto Geográfico e Histórico -- guardiões dos símbolos maiores da nossa comunidade -- poderiam se considerar como os senhores absolutos das imagens que têm a honra de custodiar.

Enfim, a consagrada fisionomia roliça de Momo condensa uma das nossas mais doces tradições carnavalescas. Jamais podendo ter sua integridade danificada irresponsavelmente, passando a ser “manipulada por pessoa física ou jurídica desprovida de qualquer legitimidade para representar a vontade da coletividade”, como destacou o Ministério Público. O uso do surrado chavão gerencial da “quebra de paradigma” não tendo passado de uma medíocre desculpa para encobrir a micropolítica interesseira dos azedos fraudadores da última eleição.

Pois a figura de um Rei Momo de perna fina e bunda seca chacoalhando os cambitos no Carnaval é tão incomunicável como a de um Cristo gordo, um Caboclo depenado, um Papai Noel sem braba branca, uma baiana de acarajé sem saia rodada, uma piriguetinha de calcinha atochadinha sem a “marquinha da cachorra”, um putão “toradão” sem a mão no pintão. Imenso contra-senso cultural, num extremo uma aberração sexual!

  Roberto Albergaria, doutor em esculhambologia momesca, é um magro que tem vergonha na cara. Texto publicado parcialmente no jornal a Tarde (na quarta feira de cinzas) e no site da Rádio Metrópole (durante o mês de fevereiro).

 

 

 


Voltar

  __________________________________________________________________________________________________________
  Grupo Gay da Bahia - GGB
Rua Frei Vicente, 24 - Pelourinho - Caixa Postal 2552
CEP 40.022-260. Salvador / Bahia / Brasil 
Tel.: (71) 321-1848 / 322-2552 / 322-2176
Fax: 322-3782
 
__________________________________________________________________________________________________________

         © 2003, Todos os direitos reservados, Grupo Gay da Bahia