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A alma boa da bicha má

“Tudo neste mundo não passa de uma
sombra e de uma aparência”
(Erasmo de Rotterdam, O Elogio da Loucura, 1509)


Antonio Júnior
de Natal (RN), exclusivo para o site do GGB


O mundo não pára de transformar aos nossos olhos. Um mundo onde os valores e ideais são complexos e contraditórios. Não há mais murmúrios de fadas, cochichos de seres lendários, fábulas morais, aventuras heróicas e românticas. Rapunzel atirou-se da torre medieval, Pinóquio exibe o nariz cada vez maior e a megera madrasta de Cinderela é celebrada nas mais populares colunas sociais.

Tempos sem ética ou piedade, onde o cruel estímulo da colonização norte-americana penetra a alma humana através da televisão, do cinema, da internet, da imprensa. Um possível retorno à barbárie representado pela proliferação de guerras, pragas letais como a Aids, fanatismo de todas as espécies, destruição do ecossistema, manipulações genéticas, corrupção institucionalizada e cretinice irracional e prepotente. Nesse vazio agudo e sofisticado, criou-se uma flor imaginária, bizarra, carnívora e eletrônica, que produz dor ou dano a todos: a negação da compaixão.

O universo gay não escapa desses invasores mesquinhos do espírito e frequenta esse jardim florido do bem e do mal. Basta observar cenas corriqueiras, cotidianas, e enxergar o bê-a-bá que ensina ilusão e solidão, sexo e poder, errância e escárnio, desespero e alienação. Por exemplo, numa sauna seca, dois senhores beirando os sessenta anos conversavam discretamente, e um deles queixava-se da hipocrisia de um jovem ex-amante. “Dediquei três anos da minha vida ao pé-rapado, enganando minha esposa com desculpas diárias, e terminei por descobrir que ele só tinha interesse no meu dinheiro, nunca foi sincero comigo, era um total desconhecido.

Três anos de boas intenções e nada restou, nem mesmo uma fraterna amizade”, choramingou balançando a pulseira de ouro de forma dramática. Outra noite, numa boate concorrida, três amigos musculosos e idênticos como irmãos gêmeos, criticavam um outro qualquer: “Ele não tem onde cair morto, é pobre dé-ma-ré-dé-ci, e diz pra toda a gente que é estilista, que fez um curso em Paris com Versolato. Como se Versolato fosse professor de moda e Paris um bairro de Mossoró”.

Natal, como qualquer outra cidade do planeta, vive uma situação limite da questão homossexual, uma avalanche incontrolável de vaidade e superficialidade, incapaz de medir as conseqüências de seus atos inúteis. Um mundo que renunciou aos laços da amizade e do amor, que não se interessa por perplexidades e questionamentos, que escolhe o mal pelo bem ou o falso pelo verdadeiro. Não que a decadência sentimental seja privilégio do universo gay, tem origem na decaída dos valores humanistas em todas as classes, raças e sexos. Situação absurda que deveria ser analisada argutamente e minuciosamente, e não adaptada trivialmente ao próprio cotidiano. Por que repetir os costumes sociais decadentes, os infernos contemporâneos de perseguidores seculares, que chegaram a queimar “frescos” em espantosas fogueiras durante a Inquisição?

O gay não deveria ter a a necessidade de ser inventivo, a pretensão bufa de ser original, encantador, divertido e criativo. Creio que o gay, como toda a humanidade, deve ser rebelde, sincero com o seu coração e espírito, compreender a incerteza do real, combater os invasores sintéticos do eu interior, procurar puramente a consumação e o êxtase. Afinal, por trás das máscaras usadas para melhor defender o personagem inventado pela mídia, sobrevivem os mesmos pudores, anseios e preconceitos dos conservadores. Em qualquer local gay certamente conta-se nos dedos a bichinha que não anda de nariz empinado, que não é arrogante, oca ou semi-ignorante.

Uma comunidade de mocinhos enfadonhos de farda justa, peito desnudo, tatuagens idiotas, que dão nomes e telefones falsos, vendem sentimentos que não possuem, juram que trabalham como modelo e sonham em brilhar na tevê ou nas passarelas. Caíram no espetáculo perpétuo e na excêntrica classificação de pessoas que não sabem dizer o que se deseja realmente dizer. Nunca leram Genet, Thomas Mann, Carson McCullers ou Adolfo Caminha. Não sabem que são protegidos por São Sebastião. Não ouviram falar de Ganimedes, Alcebíades, Aquiles ou Patroclo. Ignoram o cinema de Fassbinder, Derek Jarman ou Visconti. São apolíticos e insossos como chuchu. Não discutem o confronto entre o velho e o novo. Uma tragédia pessoal inconsciente onde o convívio amoroso é avaliado através da juventude, beleza física, troca de favores, diversão e cumplicidades ditadas pela mutilação mediática e narcisista.

Vagam entusiasmados no caos da aventura terrestre usando os mais batidos valores heterossexuais, inclusive certa ótica feminina do “padrinho” que banque o apetite material. Obviamente que no meio da multidão existem presenças iluminadoras, voltadas para transformações profundas, mas é uma gota d’água no oceano, um maldito, um marginalizado.

Os gays que compram favores sexuais – e tem todo o direito de o fazê-lo – também circulam nesse labirinto kafkaniano, sem saída e azarado, nada inovam e não são corretos com o seu próprio desenvolvimento secreto. Repito que o fetiche (ou a necessidade) do prostituto é uma realidade de consumo como qualquer outra, e toda a história da humanidade está marcada pela prostituição de ambos os sexos, do Antinoo do imperador Adriano as louras de farmácia que circulam com milionários jogadores de futebol. A atmosfera do ridículo está no confundir as emoções, inverter os papéis, chorar ou sofrer. E o ridículo, como escreveu Aristóteles, é uma espécie pior do feio.

Ninguém se deprime ao descobrir que comprou um ovo podre ou lamenta que o relógio novo não diga “i love you”. O envolvimento com um michê implica claramente que ele não vai para os seus braços pelo seus belos olhos. A vida não é uma comédia romântica estrelada por Audrey Hepburn, e as bonequinhas de luxo são apenas bonequinhas de luxo, e algumas inclusive são deliberadamente perversas e psicopatas.

Encontro na chanchada gay difundida por todas as partes, uma solidariedade nula, semelhança inconseqüente e mau-gosto explícito. São lugares de delírio melancólico, para ir muito raramente, e assim sendo, embriagar-se, falar bobagens e fingir crer na evolução, sabedoria e vibração positiva homossexual. Nesses redutos sem sorte, não há como conjugar vozes afetadas, música ruim, perfume vulgar e assédio sexual. Não há um efeito comovedor, uma resposta para os afetos, um encontro de palavras adequadas para a expressão lúcida. Sendo assim, o meu boteco gay favorito é o privado, o que busca a verdade interior, lê o Diário de Lúcio Cardoso, ouve Someone to Watch Over Me de Gershwin e efetua compromissos generosos.

Sei também que os caricatos das boates ou os mercadores insatisfeitos de corpos não são necessariamente maus como parecem. Por trás de muitas atitudes bisonhas, existe uma alma oprimida, coitadinha, açoitada por imprudências, ávida por um lirismo ignorado, escondido e ainda sem forma. Por que não apressar o passo e segurar a mão do coerente Anjo Exterminador, que existe dentro de cada um de nós, e aceitar sua fúria e sua bondade extremas, absolutas? Um Anjo de néon, chama, aura, eletricidade, imã. Medíocre, jamais.

Antonio Júnior é jornalista, narrador, ensaísta, poeta e fotógrafo. Autor de três livros, dois deles publicados em Lisboa. Viveu sete anos em vários países europeus, entrevistando nomes como José Saramago, Camilo José Cela, Doris Lessing, Antonio Lobo Antunes e Isabel Allende, para diversos jornais brasileiros e portugueses. Nasceu na Bahia e passa temporada no Rio Grande do Norte. E-mail: antonio_junior2@yahoo.com

 

 

 


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