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COWBOYS GAYS: UM FILME SOBRE HOMOFOBIA CULTURAL

Luiz Mott

Na fila, para assistir O SEGREDO DE BROKEBACK MOUNTAIN, vi algumas
mulheres saindo da sala de exibição enxugando os olhos. Uma conhecida
ao me beijar, disse no meu ouvido: ?é um filme muito sensível!? As
críticas divulgadas nos jornais e Internet insistem na tecla ?filme
romântico gay?, chegando a qualificá-lo como ?o melodrama do
diretor Ang Lee?.
Não precisa ser militante chato, para fazer avaliação diametralmente
oposta: o filme é uma chocante denúncia contra a intolerância
anti-homossexual, utilizando como veículo uma obra de arte entremeada
de beijos, belas paisagens, sexo e desencontros amorosos.
Não nego a importância didática do filme para mostrar à população
em geral que amor, fidelidade e paixão são sentimentos que
independem do sexo do casal, exatamente como há dois mil anos garantiu
o Evangelista João, o ?Discípulo que Jesus amava?, quando disse:
?onde há amor, Deus aí está!?. Mesmo que os papas neguem, o amor
homossexual também é divino! E o público sai do cinema desconcertado,
em ter de aceitar tal realidade. Nesse sentido Brokeback Mountain
certamente terá o mesmo efeito positivo junto à população como o
causado pela adoção do Xicão, por Eugênia, a mulher de Cássia
Eller. Ser do contra, num e noutro caso, é dar atestado de
intolerância. Não pega bem.
Mais que um filme de amor, trata-se um libelo e denúncia contra a
homofobia ? esse medo angustiante, cruel discriminação e violência
mortal contra o amor gay. Amor que tem de ser mantido secreto, como
sugere o sintomático título em português ??O Segredo de
Brokeback Mountain ?. E qual seria esse segredo que desperta tanta
curiosidade nos amantes do cinema e na galera em geral: ?o pecado
cujo nome não se pode pronunciar?, antigamente chamado de ?crime
nefando?, proibido de ser dito! Muito mais ainda: proibido de ser
revelado e exibido, pois além de provocar a ira divina (recordai-vos
da destruição de Sodoma e Gomorra e do castigo da Aids!), causa tanto
ódio entre certos humanos, que faz de cada homem um potencial matador
de homossexuais. ?Viado tem mais é que morrer?! é ditado até
hoje repetido de norte a sul em nossos país. Ou nessa outra versão
mais família: ?Prefiro um filho morto do que viado!?
A homofobia está presente do começo ao fim do filme: ?eu não sou
gay (queer no original)!? disse o cowboy ?ativo?, logo depois de
gostosamente chegar ao orgasmo com seu parceiro. Mesmo após duas
décadas de desastroso casamento heterossexual, confrontado à
prazerosa relação homoerótica com seu fogoso e carinhoso amante,
esse mesmo cowboy recusa assumir sua verdadeira felicidade. Motivo: é
vítima do que a psicanálise chama de ?egodistonia?, seu ego está
em dissintonia com seus desejos mais profundos. Nesse caso, sua
homofobia internalizada se deveu ao tratamento de choque dado por seu
pai na adolescência: foi obrigado a contemplar o cadáver
ensangüentado de um cowboy gay, que em castigo por viver conjugalmente
com seu companheiro, teve o pênis mutilado. Igual aconteceu com Zumbi
dos Palmares e uma dezena de gays no Brasil contemporâneo, aos quais
os machões castram o símbolo aparentemente ultrajado da
masculinidade.
Além da homofobia internalizada, que desgraçou a vida do vaqueiro Del
Mar, o filme Brokeback Mountain revela formas mais violentas de
discriminação anti-homossexual: o fazendeiro dono das ovelhas, ao
flagrar os jogos amorosos entre seus dois vaqueiros, suspende o
contrato de trabalho, recusando novo pedido de emprego por não tolerar
suas vergonhosas ?sacanagens? homoeróticas. Este mesmo vaqueiro, o
mais assumidamente gay, é novamente vítima de homofobia quando, ao
oferecer cerveja para um colega de rodeio, este, além de recusar,
espalha entre os presentes seu ?segredo?. Homofobia extrema é
revelada na trágica morte do ex-cowboy Jack, bem sucedido vendedor de
tratores graças a seu casamento do tipo golpe do baú, e cujo sogro e
a própria esposa suspeitavam de suas prolongadas e misteriosas
pescarias com o parceiro de juventude: é assassinado a golpes de ferro
e chutes por um bando de rapazes, delinqüência muito comum estimulada
pela cultura machista tanto nos Estados Unidos, quanto no Brasil e na
maior parte do mundo, que faz do espancamento de gays uma forma
culturalmente instituída de afirmar a heterossexualidade dos
adolescentes. Em nosso país, campeão mundial de crimes homofóbicos,
a cada dois dias um gay é barbaramente assassinado, vítima do
machismo.
Brokeback Mountain é um grito contra o segredo, a hipocrisia, o
armário. Quanto mais homens que amam outros homens assumirem sua
verdadeira identidade homossexual e se afirmarem socialmente como
gays, menos homossexuais serão castrados, menos adolescentes GLTB vão
se suicidar, menos gays vão desgraçar a sua vida e de suas esposas e
filhos, porque não ousaram sair do armário. O amor homossexual existe
inclusive em ambientes marcados pelo machismo: os cowboys gays estão
aí para não deixar dúvida. A felicidade de se assumir gay é
possível: a crescente legalização do casamento entre pessoas do
mesmo sexo e a globalização das paradas gays nos países mais
civilizados comprova que para atingir o arco-íris, temos de detonar a
gaveta e arrombar o armário! ( Salavdor, Bahia, 9 de fevereiro de 2006)

Para contacto e informação: luizmott@ufba.br

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