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HOMENS BEIJOQUEIROS DO MARROCOS

por Luiz Mott, decano do movimento homossexual

Um gay brasileiro ao desembarcar no Marrocos perde imediatamente a cabeça, fascinado pela beleza dos jovens e homens locais: cabelos e bigodes pretos, olhos grandes e penetrantes, pele morena do tipo Omar Sherif, músculos naturais à mostra. De túnicas ou vestidos à ocidental, na sua simplicidade nativa, irradiam charme e sensualidade. O que mais chama a atenção logo na primeira caminhada pelas ruas, é que estes mesmos homens, ultra-másculos na aparência, se comportam em público com uma desenvoltura e delicadeza que só os gays mais assumidos no Brasil ousariam assim se permitir.

Quando jovens e adultos se encontram nas calçadas, nos cafés, os mais amigos se dão dois beijos na face; caminhando pelas avenidas e praças de Tanger, Ceuta, Tetuan, Fez, Tarifa, Rabat, os homens sempre estão de mãos dadas, dedos entrelaçados, de braço dado, com os braços meigamente encostados no ombro do parceiro. Nos mercados as movimentadas “medinas” apinhadas de gente, onde tudo se vende e a vida fervilha, várias vezes vi dois homens sentados numa única cadeira, o da frente de costas no meio das pernas abertas do outro, na maior simplicidade. Da janela do trem que me levou a Casablanca, vi na zona rural um rapaz nu tomando banho numa bacia ao ar livre, próxima à estrada de ferro, enquanto um outro esfregava-lhe as costas.

Os mais brincalhões, ao encontrarem um amigo particular, dão-se beijos estalados ou tentavam mordiscar o pescoço alheio; vi outros homens dando uma palmadinha no bumbum uns dos outros, brincadeirinha de machos. Geralmente todo marroquino tem um amigo particular com quem sempre se encontra, diariamente, com quem passeia de mãos dadas pelos jardins públicos e bulevares, com quem toda tarde vai tomar o típico chá de hortelã num café freqüentado somente por homens. O chá é servido em copos de vidro, bem doce e fervendo. Mulher, nestes lugares masculinos, nem pensar!

Toda esta liberdade de expressão de carinho e sociabilidade entre homens, que a sociologia define como homossociabilidade, sugere à primeira vista tratar-se de uma sociedade muito tolerante em relação ao homoerotismo. Infelizmente, este é um típico caso onde “as aparências enganam!” O Marrocos, assim como diversos outros países do Oriente e África do Norte (Tunísia, Argélia, Arábia, Irã, Iraque, Turquia, Síria, etc), são sociedades fortemente estruturadas pela religião de Maomé. E no que se refere ao reconhecimento de direitos de homossexuais, país muçulmano é bem diferente de país cristão.

O Brasil, por exemplo, apesar de ser “o maior país católico do mundo”, de tropeçarmos nas ruas da Bahia e do Rio de Janeiro com macumbas e feitiços, a religião entre nós é algo muito mais cerimonial do que vital. É preciso conhecer um país muçulmano para se constatar o quanto neles a religião é importante e determinante. Bem diferente do que estamos acostumados a vivenciar no nosso “ocidente cristão”.

De fato, Alá, como ensinou o Profeta Maomé, é o Deus todo poderoso, e os muçulmanos devem rezar cinco vezes por dia, ajoelhando-se e inclinando a cabeça até o chão, virados em direção a Meca, a cidade santa do islam. Vi inúmeros homens, inclusive jovens, que ostentavam calos na testa, de tanto rezar encostando a cabeça no chão ou num tapete. E a oração deve ser feita na hora certa, onde quer que o fiel esteja: na rua, no aeroporto, em casa. Há mesquitas espalhadas por toda a cidade e de suas altas torres os sacerdotes “muezins“ gritam através de possantes alto-falantes, cinco vezes por dia, conclamando os fiéis à oração. Seus gritos sacros penetram noite a dentro, invadindo as janelas dos hotéis onde estava hospedado, acordando-me muitas vezes no meio do sono.
Segundo a tradição islâmica, Maomé teria recebido de Alá a revelação que está codificada no Corão, a bíblia dos muçulmanos, onde toda a vida social e religiosa está programada: as orações diárias, a obrigação das mulheres de usarem o véu, a proibição do consumo de bebidas alcoólicas, a condenação do sexo fora do casamento, inclusive do amor entre pessoas do mesmo sexo.

Os homossexuais são chamados de “camelot”, isto é, “gente da terra de Lot” ou da terra de Sodoma, cidade onde o personagem bíblico Lot teria vivido antes de sua destruição. Maomé conhecia as tradições judaicas e cristãs, tanto o velho quanto o novo Testamento, de onde tirou esta versão hoje considerada equivocada pelos estudiosos, da destruição de Sodoma e Gomorra devido à prática generalizada do homoerotismo. Portanto, em muitos paises de língua árabe, “camelot” equivale a sodomita, homossexual, personagens discriminados cuja forma de fazer amor é oficialmente condenada pelas leis religiosas e civis.

Uma sociedade onde a religião é tão determinante na vida e no dia a dia da totalidade das pessoas, onde as mulheres são cidadãs de segunda classe, escondidas, ausentes, inferiorizadas, cobertas com véu ou “burka”, tal sociedade inventou rígidos códigos de sociabilidade bastante diferentes dos nossos. Entre os ocidentais, apesar da Bíblia também determinar que a mulher deve ser obediente a seu marido e andar de cabeça coberta, onde também a homossexualidade é condenada, felizmente os países deste hemisfério conseguiram libertar-se parcialmente do controle da inquisição, e separar a religião do estado. No oriente restam ainda muitos lugares onde o fundamentalismo religioso domina, onde a vontade dos aiatolás é lei, onde o Corão é seguido ao pé da letra, apedrejando-se as adúlteras e os homossexuais, cortando a mão dos ladrões, execráveis costumes bárbaros.

Assim, numa sociedade onde os sexos são tão rigidamente separados e antagônicos, onde as mulheres ficam isoladas do convívio público, os homens desenvolveram uma série de códigos de interação social que dispensam a presença feminina. O trabalho, o lazer, a sociabilidade, a oração coletiva, todas estas esferas de convivência são marcadas pela unissexualidade, onde predomina exclusivamente a presença masculina. Os homens passam a maior parte do dia e de suas vidas unicamente em companhia de outros homens, daí terem desenvolvido e valorizado diversos padrões culturais de carinho, ternura e intimidade corporal com outros homens, já que ninguém é de ferro, e na falta do sexo oposto, o jeito é extravasar tais impulsos para quem está mais perto: pessoas do mesmo sexo.

Poderíamos propor outra interpretação histórica: os antigos homens do deserto, os ancestrais formadores da cultura do norte da África, por gostarem do convívio intra-sexual, por serem predominantemente homo-direcionados uns, e homoeróticos, outros, inventaram regras de exclusão das mulheres, proibindo-as de sair de casa, criando espaços de convivência exclusivamente masculinos, que redundaram nesta peculiaridade comportamental/sexual ainda hoje observada no Marrocos, Tunísia, Argélia, etc. Lugar de mulher é dentro de casa, na cama, no escuro, debaixo das cobertas. Se também elas entre si desenvolveram intimidades homoeróticas, pouco se sabe, pois é assunto tabu pouco divulgado na literatura.
Apesar da forte repressão religiosa e policial contra os homossexuais, tanto no Marrocos como nos demais países árabes ou muçulmanos, de baixo do pano, clandestinamente, há um certo número de “camelot” que aproveitam-se desta liberdade socialmente aceita de dois homens se beijarem, andarem abraçados, sentarem-se no meio das pernas do outro, para dar vazão a seus impulsos e desejos homoeróticos.

Claro que tudo bem discreto, disfarçadamente, já que ninguém se admira de tais atos costumeiros e públicos de homossociabilidade. Privadamente, com muito cuidado e com certo risco, as transas entre homens ocorrem como no resto do mundo: longe do olhar condenatório dos aiatolás e da homofobia hipócrita da maioria das pessoas, os marroquinos se entregam apaixonados e “calientes” aos amores unissexuais, seja entre si, seja com estrangeiros. Num próximo número prometo contar como foram minhas transas no Marrocos.

 


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