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A PROVAÇÃO DO PADRE PINTO

Roberto Albergaria

A TARDE vem dando um excelente exemplo de jornalismo na cobertura do “Caso Padre Pinto”. Uma história complicadíssima em sua abordagem, uma vez que envolve questões de ordem pessoal muito delicadas, alguns temas morais tabus e tantos pactos de silêncio implícitos. O jornalista se encontrando preso num imenso aranhol constituído não só pelo jogo difuso das conveniências, dos interesses e dos poderes mas, também, pelas limitações estruturais impostas pela própria natureza da tecnocultura de massas que enforma nossas mentes no mundo contemporâneo.

O noticiário do caso requer muita consciência ética, muita astúcia e muita paciência. E uma boa dose de senso crítico, para que o imbróglio seja analisado em suas diversas dimensões, fugindo do anedótico, das facilidades do sensacionalismo. Sempre se procurando compreender o “outro lado” (muitas vezes obscuro e dificilmente abordável publicamente) do que vem acontecendo.

Do meu ponto de vista, acho importante que comecemos valorizando os aspectos mais ousadamente criativos e simbolicamente densos da cerimônia-performance do nosso querido sacerdote-artista da Lapinha. Algo de oportuno especialmente neste momento em que os apressadinhos vêm negligenciando alegremente tudo aquilo que o evento comportou como força de experimentação etnocenológica e de manifestação de liberdade religiosa – uma atitude tão salutar nestes tempos de extremo conformismo estético e político.

Um ato corajoso, mas também perigoso, na medida em que as coisas foram escapando do controle do Padre... O fato é que o acontecido na modesta Igreja da Lapinha mudou de significado na medida em que tudo virou uma espécie de monstruoso midia event . A repercussão do espetáculo televisual logo transfigurando um simples clérigo de uma pequena paróquia na celebridade instantânea nacional da vez -- o “affair Padre Pinto” já representando o hype do verão!

Assim, o pobre sacerdote-artista-dançarino terminou se transformando em mais um refém das onipresentes & onipotentes Maquinas Miméticas que governam nosso imaginário hoje – as inconfidências de terceiros sobre sua vida privada passando alimentar os mais disparatados rumores entre nosso povo fuxiqueiro. E não podia ser de outra forma, uma vez que o olhar vítreo da mídia televisiva tende a promover uma forte descontextualização das imagens e, mesmo, das palavras.

Ou seja, aqueles poucos minutos de espetáculo que assistimos em casa foram apenas representações fragmentárias e distantes dos acontecimentos presenciados pela cordial gente da Lapinha, já conhecedora do estilo e da personalidade do Padre Pinto. Mas, do lado de cá das telas das tevês, ficamos só com aquele pacotinho de imagens e sons -- completamente isolados do ambiente festivo micro-local onde foram geradas (no círculo do olho-a-olho dos participantes das cerimônias e da festa de largo). Assim, a “multidão solitária” dos telespectadores domésticos permaneceu, em sua imensa maioria, alheio ao sentido original deste evento apenas televisto; ignorando sua inserção no ambiente socialmente orgânico do bairro e na longa trajetória criativa do generoso e desassombrado Padre Pinto.

Efeito perverso da comunicação de massa, que acaba ressignificando tudo, transmutando a realidade em fantasmagoria. Como bem destacou uma cronista de A TARDE na semana passada, o fluxo avassalante das superexcitantes estimulações áudio-visuais que recebemos de todos os lados termina nos fazendo cada vez mais impacientes e ansiosos. O tempo da reflexão parecendo a todos uma pura perda de tempo. Se bem que o tsunami dos vagalhões de novidades sucessivas que inundam nossas mentes noite e dia vai nos entretendo numa espécie de presente eterno -- que elimina qualquer possibilidade de referenciação histórica dos fatos (que muitas vezes não passam de factóides descartáveis).

Foi desse jeito que o rosto risonho e familiar do bom Padre Pinto dos paroquianos da Lapinha passou a ser percebido pela Bahia-de-Massas como uma figura estranha, ridícula até. “Chocando a família baiana”, como diriam os sisudos pomadistas. Sua arrojada criação cultural, seu figurino e maquiagem aparecendo nas telas das tevês estaduais como mero elementos provocativos de escândalo. E duplicando-se nos programas nacionais como uma espécie fait divers pitoresco, quando não como mais uma amostra de exótica “baianidade” para paulista rir (reativando o clichê do baiano místico e presepeiro).

Leitura superficialista característica da Sociedade do Espetáculo em que cultos e crenças são reduzidos ao neo-folclore. Sendo deixadas de lado todas as contradições culturais da “sincrética” religiosidade baiana, nada se falando dos dissentimentos micropolíticos do nosso catolicismo institucional (incluindo as linhas divergentes que investem mais fortemente as experiências litúrgicas de inculturação).

As peripécias do personagem representado (no big brother midiático) sobrepondo-se à vida do ser humano. Um tipo de narrativa acelerada, imediatista e espetaculosa em que não há espaço para uma sensibilidade mais fina, mais humana. O próprio ritmo da encenação comunicacional fazendo com que os estressados newsmen tendam a se tornar pouco atentos à dimensão existencial do homem-sacerdote, de certa forma fragilizado neste momento de inesperada provação espiritual. Momento de tormento e euforia que se torna particularmente embaraçoso na medida em que nosso irmão se revela meio ingênuo e inábil em lidar com a voracidade da mídia (parecendo meio aturdido em meio ao choque cultural que recebeu de uma hora para outra).

Daí o qüiproquó que tomou conta desta cidade exibida e curiosa. Confusionismo ao qual se acrescenta a tentativa de parte do establishment eclesiástico conservador de querer se livrar das inventivas experiências litúrgicas do Padre Pinto com o mínimo de custos “mercadológicos” possíveis. Até alguns dos seus colegas (de uma maneira impiedosa, pouco-cristã?) apontando-o como uma figura estranha, problemática, enlouquecida mesmo. O que complementa uma certa “operação abafa” que estaria sendo orquestrada (inclusive nos bastidores da mídia) por outros setores.

Ora, como em tantos outros casos, trata-se aí da velha tática dos superortodoxos Donos da Verdade Única em calar a voz dos dissidentes, em sufocar todo indício de alteridade heterodoxa. Vontade de total conformação que os leva a denunciar qualquer criação mais ousada como uma bisonha aberração; a rejeitar qualquer diversidade de pensamento, rotulando-a como uma perigosa heresia; a desqualificar o sujeito diferente, estigmatizando-o como um ser anormal (ainda que momentaneamente).

Um doente que deveria ser tratado, quer dizer normalizado, reenquadrado na linha dura do institucionalismo dirigente -- incluindo formalismo litúrgico, moral sexual dissimulatória etc. (a idéia de terapia não passando de um abuso do vocabulário laico da Psicologia, utilizada como instrumento do Poder, como nova forma de controle, como obrava a Santa Inquisição outrora).

Enfim, o caso (ou a causa) do Padre Pinto é o (a) de todos os baianos –- bradando pela liberdade das nossas formas de querer, de parecer e de cultuar todos os deuses. O resto é a velha Triste Bahia travestida de nova Terra da Alegria. E o triunfo da Moral-de-Jegue (nossa mais arraigada tradição) das sepulturas caiadas sempre?


Roberto Albergaria é professor do Depto. de Antropologia da UFBa

 


 


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