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“Aqui tem lésbica, tem sapatão”
Entrevista com ativista lésbica Virgínia Nunes fundadora da ONG Lilás em Lauro de Freitas!

Virgínia Nunes, ativista da Ong Lilás, foto/div 2012.

Ela fala para agente que é fã da teórica lésbica Monique Wittig e que desde cedo aprendeu que ser lésbica pode ser bom, melhor muito bom. Ela se assume como mulher, feminista, acadêmica e lésbica e lastima que muitas mulheres sofram por não poder trilhar o mesmo caminho que ela. Junto com outras lésbicas e feministas nossa acadêmica baiana Virginia Nunes abre a “Roda de Conversa” no dia 22 próxima quinta-feira no Seminário promovido pelo GGB/Diadorin que tem como finalidade debater sobre a eliminação de todas as formas de violências contra mulheres lésbicas e transexuais. Iniciativa é apoiada pela Secretaria de Políticas para as Mulheres da Bahia (SPM). Confira a entrevista.

 

SALVADOR, BA, Domingo, 18 de março de 2012 – por MARCELO CERQUEIRA

Marcelo Cerqueira  - Oi Virginia, tudo bem? Ao que parece você é muito nova, mas já tem um longo currículo no ativismo LGBT, correto?

Virginia Nunes – Sim, rs, verdade...

MC – Como foi que tudo isso começou. O que serviu de motivação para você dedicar a sua juventude a uma bandeira leve, mas difícil de carregar?

VN – Tudo começou em 2008, quando entrei no Fórum de Mulheres de Lauro de Freitas, depois que recebi um convite para uma reunião de lésbicas dentro deste espaço... Foi lá que fundamos a LILÁS- liga de lésbicas de Lauro de Freitas, com dez companheiras lésbicas e bi. Três meses depois já estava na LBL -liga brasileira de lésbicas. Ainda neste período fizemos o primeiro encontro da LILAS..foi lindo, a companheira Valdeci mediando, levamos 30 mulheres para este seminário! Agora também estou militando na Academia – estudo Ciências Sociais na UFRB - onde fundamos um coletivo de lésbicas universitárias, o Lès Guerriléres – em homenagem a Monique Wittig, teórica lésbica francesa.
A minha maior motivação para esta luta foi a minha vivência lésbica...gostaria de contribuir com as companheiras que não tinham abertura para dialogar, para falar sobre si, tive a minha mãe como parceira e a minha família como suporte. Antes de buscar políticas públicas tínhamos que nos conhecer e nos reconhecer como lésbicas, mulheres – ou não – mas que amavam outras mulheres, sentiam tesão por outras mulheres, se relacionavam afetivo sexual com as pessoas que eram do seu mesmo sexo.

MC – Então você se assume como mulher lésbica! Isso é uma decisão política, correto?

VN – Com toda certeza! Ser lésbica é de fato uma decisão política. É romper as nossas barreiras. Muitas mulheres se relacionam com outras mulheres, mas possuem relações nos padrões heteros – macho e fêmea, sabe? - são machistas e até homofóbicas! Ser lésbica é utilizar uma sigla que nos proporcione políticas públicas para sermos vistas no Estado. Penso que sapatão, entendida, lady, butch, bofe, etc, existem um bocado,rs, mas lésbicas ainda não. Penso que precisamos formar mais essa galera para entrarem na luta por visibilidade e direitos, é se assumir, levantar a bandeira e dizer: Oh Estado..Religião, aqui tem lésbica, tem sapatão”

MC – Então, partindo daí a idéia de quem se assume vive melhor é correta?

VN – Vive melhor, mas não só por isso Marcelo, vive melhor porque conhece o valor da liberdade. Fico pensando quantas sapatas se suicidaram, se isolaram, casaram, tiveram filhos sem querer tê-los. E a saúde mental destas mulheres? Se assumir também é saúde!

MC – Como você observa essa moçada super jovem já se relacionado, namorado entre si, por outro lado não tem muito interesse pela militância, como explicar?

VN - Fico um tanto triste quando vejo a falta de interesse dessa juventude em não levantar a bandeira do movimento. Quando acham que isso que fazemos não tem importância e é perda de tempo. Coisa de sapatão, RS. No que se refere aos namoros, penso que as redes sociais ajudaram para essa desenvoltura de relacionamentos, criação de redes, como Leskut socializam @s jovens neste meio GLS. Mas penso que essa acessibilidade tem classe e cor, não são para todas as “gobys”. Penso também em certos individualismos, o pensar só em si, como acabou de falar a minha mãe - que está aqui do lado, RS. Desde antes da década de 70 o movimento vem trazendo conquistas para a sociedade homossexual. Eu desfrutei de algumas coisas..essa moçada também...em relação a participação delas, as vezes penso que ,enquanto não romper com a autocrácia (forma de governo que apenas uma única pessoa detém o poder) dentro do movimento, não nos oxigenarmos, não teremos novas participações...a roda não gira, ela engessa.

MC – Você é uma acadêmica de Ciências Sociais. Como você percebe a vivência LGBT na academia?

VN – Penso que essa vivência foi fundamental para as conquistas do movimento. Ver a Academia produzindo na teoria o que a militância LGBT realizava na prática. Esses escritos ajudaram nas implementações de políticas públicas, embasando teoricamente o nosso discurso. Falar de conjugalidade, de ser queer, relações homoafetivas, entre outros conceitos, nos fortalece. Temos grandes núcleos, na UNEB o NUGSEX/ DIADORIM; o Núcleo de Gênero, Sexualidade e Educação da UFRB, o NEIM na UFBA, O NIGS na UFSC. São núcleos parceiros do movimento, que dialogam conosco. Através de um convite do NIGS, por exemplo, enviamos um vídeo para França, para um evento acadêmico, http://vimeo.com/36385500) que falava sobre o movimento lésbico aqui no Brasil.

MC – A Universidade pode ser um espaço onde as pessoas podem ter a liberdade de assumir diante dos outros?

VN – Nossa! Penso ser lá o locus privilegiado para estes acontecimentos. Lá na UFRB, no Centro de Artes, Humanidade e Letras, em Cachoeira, temos diversos grupos identitários envoltos nas questões de sexualidade, tais como Damas de Paus, Aquenda, Lés Guerriléres e até um MOH- Movimento Hetero do CAHL. Temos que refletir sobre isso, os novos movimentos.

MC – Essa é uma proposta de debate da roda de conversa que você coordena no dia 22 com outras companheiras?

VN – Sim. É sim. Dialogar sobre as nossas produções, perspectivas quanto ao movimento e a teoria sobre esta relação dialógica, refletir e colocar na roda!

 MC – O tema de combate a homofobia e lesbofobia são muito tímidas nos programas de pesquisa das Universidades, porque seria essa falta de interesse da academia?

VN – Na verdade, penso que não há uma falta de interesse nas Academias, ao contrário, penso que existem grandes produções e pesquisas – muitas em parcerias com o movimento LGBT e instituições feministas – entretanto estas pesquisas exigem recursos e os órgãos que financiam os projetos da Academia são mais envoltos em pesquisas de Ciência e Tecnologia Hard, deixando um pequeno percentual de Editais para as pesquisas que envolvem nossa temática. Penso que a militância acadêmica deva buscar alterar este quadro, mas perceba que ainda estamos falando de Estado, ou melhor, de Governo.

MC – Como fazer pressão para esses temas fazerem parte dos programas?

VN – Primeiramente união entre docentes, discentes e técnicos, fortalecimento dos Núcleos de pesquisa. Recursos específicos para este tipo de pesquisa é fundamental! Se o governo não investe em financiamento dificulta, se também não cobramos não sai. É um movimento de cobranças e conquistas.

MC – A violência contra o gênero feminino é algo histórico em nossa sociedade. Você acredita que o movimento de gênero das mulheres lésbicas e transexuais tem avançado?

VN – Tem avançado muito. Veja, hoje somos categorias de análise, sairmos um pouco das letrinhas sendo vistas como sujeitos de direito de uma forma específica, temos a Lei Maria da Penha que contempla as relações entre lésbicas. A campanha dos 16 dias de ativismo. A criação de novas redes lésbicas e trans e o fortalecimento de outras. Todos estes fatores fortalecem os movimentos.

MC – E esses avanços como são traduzidos no cotidiano das lésbicas e mulheres transexuais?

VN São sim. Um dos casos mais exemplares para mim ainda é o de Cássia Eller, onde a sua companheira -depois muita luta - teve o direito de cuidar de Chicão. Temos direito a pensão no INSS, os planos de saúde coorporativos de nossas companheiras, entretanto não são todas as lésbicas que conhecem seus direitos, muitas nem sabem que existem movimentos, temos muita luta pela frente companheiro.

MC – Mulher, jovem e lésbica assumida como você percebe as demandas das mulheres transexuais pelo uso dos espaços tradicionais considerados femininos?

VN – Te confesso que ainda me falta maiores conhecimentos sobre este movimento. O movimento Trans vem rompendo com diversos conceitos intercalados em nós, lésbicas e gays, para mim é sempre um reformulação, mas percebo sim estas demandas, que para mim são legítimas, e merece maior participação da sociedade em geral, união na luta da visibilidade trans, novas pesquisas, espaços nas falas e cadeiras em Conselhos...

MC – O movimento LGBT não vai resolver os problemas individuais das pessoas em relação à homofobia, que requer uma ação individual de cada um. O que você acredita que as pessoas podem fazer para viver melhor com sua sexualidade?

VN – Primeiramente, se assumir - não necessariamente para a sociedade, mas para si. Se reconhecer como alguém que se relaciona ou que tem desejo de se relacionar com outra pessoa do mesmo sexo ou transmutar entre os gêneros. Só vencemos as barreiras do preconceito da sociedade - machista, androcêntrica, homofobica, classista, racista e as diversas formas opressoras e discriminadoras – quando nos libertamos das amarras da opressão.

O que é
Seminário eliminação de todas as formas de violência contra as mulheres lésbicas e trans
Data – 22/03  das 15h ás 21h30 e 23 de março das 14h ás 16h.
Onde – Fundação Faculdade Visconde de Cairu  - Rua do Salete s/n, Barris

PROGRAMAÇAO, clique AQUI!

Mais informações. (71) 9989 4748 – ggb@ggb.org.br
 


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