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O carnaval dos meus anos

Marcelo Cerqueira, folião

Mais, um carnaval. Antigamente no meu tempo de moleque era assim. Como quem vive na roça tem sempre a ilusão de morar na cidade, eu também tive essa ilusão. Na roça em Irará, melhor na Fazenda Saco do Capim, vizinho ao Quilombo do Moço do Bode na semana que antecedia o carnaval eu ficava quase que possuído imaginado aquela multidão, colava o ouvido no Rádio sintonizado na Rádio Sociedade e ficava ávido por noticias da festa. Aqueles sons me consumiam de felicidade e eu me imaginava pulando no meio da multidão. Minha falecida avó Domiciana, também gostava da folia e me trazia seguro na mão para não me perder na multidão.

Eu adorava chegar a Salvador e sentir o cheiro quente desta cidade, as vielas, os becos, as escadas.  Eu adorava passar o carnaval, vestir a mortalha de estampas coloridas, botar a mascara de bicho e cair na folia. Eu adorava sentir o cheio de acarajé fritando no azeite de dendê. Pense aí você como tudo isso era encantador para um menino do interior.  

Mas uma das coisas que mais me fascinava era ver Pepeu Gomes, lindo com aqueles cabelos pretos tocando em cima do Trio Elétrico, Pepeu Gomes durante muito tempo me tirou o sono. A rodo seguia também no imaginário da festa, lógico Moraes Moreira que não fazia o meu tipo mais que animava por demais os Carnavais da Bahia.

Como eu não entendia muito bem as coisas de sexualidade, eu estava aprendendo aos poucos,  depois de muito tempo foi que uma amiga me falou que Moraes Moreira era conhecido por ser o mais bem dotado dos machões elétricos da Bahia, a mulherada suspirava pensado nele e eu suspirava pensando no Pepeu Gomes.

Eu era proibido de sair sozinho, assim, ia sempre acompanhado com minhas primas, todas bem servidas e dentro de minúsculos shorts que aguçava a curiosidade de intrépidos varões que acabavam roubando-lhes beijos e caricias sensuais. É carnaval, as pessoas recebem sua Majestade o Folião.  

Eu me recordo que era muito andrógino quando jovem além de ser tímido demais, muitas vezes fui confundido com menina, uma moçoila moreninha. Quando eu usava cabelos ouriçados e tiara forrada de areia prateada no rosto, ficava mais andrógino ainda. Muitas vezes fui beijado na tora por outros homens atrás do trio elétrico.  Não somente isso, mas inúmeras passadas de mão, mão naquilo aquilo na mão. Era formidável aquela brincadeira “inocente” dos carnavais dos anos oitenta. 

Lógico que agente cresce. Cresce e aparece, aparece lindo e formoso ao frescor da juventude. Eu agora próximo dos dezoito anos, já era dono – em partes de minha vidinha – Agora crescidinho o carnaval começava e terminava na Praça Castro Alves.  As bichas começavam a tomar conta da Praça Castro Alves, os enrustidos, os outside, os bofes. Luana de Noialles que chegava de Paris com um enorme chapéu vermelho acompanhada de sua corte de artistas Roberto Barbosa, o maquiador Cari. Ela preta esguia as pessoas confundiam com as travestis. Ela não tinha nenhum problema com isso e adorava. Roberto Barbosa com cara de mau vestido de couro. William Sammer, gorda enorme, loira que vinha direto de Florianópolis com seu leque fenomenal. Era tanta gente indispensável para começar a festa. Marquezza, Saquarema Satanás, as travestis nuas desfilando no Concurso da Escadaria do Palácio dos Esportes, a vencedora muitas vezes quando tinha premio, ganhava uma grade de cerveja.

O sábado, o domingo, a segunda-feira, a terça a Castro Alves se transformava no território da liberdade onde era proibido proibir. Onde podia de um tudo. As pessoas passavam curiosas, todos iam para lá. Mesmo porque o carnaval da Bahia era restrito ao centro da cidade. Eu to mentindo?  Era muita pegação. Tinha gente que virava a noite na rua. Na Castro Alves aos pés do poeta a madeira deitava, linda. O amor reinava junto com Castro Alves e Momo.

O carnaval cresceu e junto com Daniela e os Camarotes foram para a Barra. O povo foi junto também e se encontra no Beco da Rua Dias D´avila, cerca do Oceania.  Hoje resta apenas uma vaga lembrança da Praça. Resta a nostalgia através dos registros de fotógrafos de lentes mais apuradas daqueles tamboretes coloridos pintados a óleo em exposições e coleções de museus.  Salvador, Ba, 13 de fevereiro de 2007.




 


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