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Clubes de sexo
Uma experiência de ‘desrepressão’ levada ao extremo

SALVADOR,BA, 9 de agosto de 2011 - Por Marcelo Cerqueira

Os clubes de orgias e de sexo são uma moda surgida nos Estados Unidos e na Europa em meados dos anos 80. Seguem, até hoje, como espaços de sociabilidade erótica de um determinado grupo de homossexuais, que sentem grande prazer físico e visual em se permitir vivências extremadas da sexualidade gay masculina do mundo moderno contemporâneo, especialmente nos grandes centros urbanos onde pode experimentar essas praticas muitas vezes na clandestinidade, sem que com isso seja o individuo obrigado a se identificar com essa ou aquela orientação sexual, sexo como desrepressão.

Essa moda se espalhou por quase todo o mundo ocidental e, no Brasil, encontrou terra fértil nas grandes cidades, como Rio de Janeiro e São Paulo. Tornou-se uma das diversas características da prática da sexualidade nas megalópoles, acrescida da brutalidade associada à vida individualista, cruel, do tudo ou não nada, do bateu-levou, da carne contra a carne.

Com a comunicação mais ágil, via internet, os apreciadores desse movimento erótico-sexual podem ter acesso aos mais diferentes clubes, nos mais diversos lugares. Os clubes orientam as regras de convivência, informam a seus clientes como devem proceder nos diversificados ambientes, direcionados às diversas expressões sexuais. Inclusive oferecem preservativos, embora seja de bom tom que cada um leve o seu. O preservativo continua sendo a melhor barreira física de se evitar infecção por vírus e bactérias através do ato sexual com uma pessoa infectada ou portadora. Esse é um outro ponto talvez polêmico uma vez que em muitas dessas situações existem alguns que são adoradores de esperma, isso ta relacionado a uma forma de sentir prazer sexual.

Várias maneiras de amar

O sexo acontece em camas coletivas, em gangorras onde se pode deitar com as pernas abertas na posição de parto. Quem voluntariamente se coloca nessa posição, tem o desejo explícito de ser possuído por vários homens, sucessivamente, indiscriminadamente. Isso pode ser uma forma de desrepressão selvagem, acrescida ao desejo compulsivo e insaciável do prazer.
Essa prática de revezamento tem nome é conhecida como Gang Bang, que, traduzido, quer dizer bando de homens. Alguns usam camisinha, mas o uso do preservativo, que deveria ser compulsório, não é necessariamente uma regra geral seguida por todos. Uma forma de sentir prazer especialmente ta nesse risco onde se coloca a vida como parte do premio e do gozo. O corpo penetrado até a desfiguração das moléculas.

Para se por nessa posição, é necessário ter atitude forte. Os psicólogos poderiam dizer que este ato, inconscientemente, poderia levar à destruição tácita do desejo, com a conseqüente a aniquilação da persona sexual peversa, que existe dentro de cada um. Esta cena é uma das mais fortes e também as das mais excitantes dos Clubes. Ela desperta enorme fascínio nos expectadores, que se aglutinam para ver o show de sexo, ao tempo que se masturbam. Uma forma pagã de consagração e veneração do sexo em ritualístico; perigosa, porque brinca com a morte, quando se considera o componente considerado mortal que se acaba no sêmen, o HIV. 

À meia luz

Nestes ambientes, regularmente à meia luz, às vezes em completa escuridão, acontecem muitas práticas sexuais. As pessoas vivenciam, ao extremo, suas fantasias eróticas, ao limite da exaustão do corpo: voierismo, sadismo, bondagge, battuagge...
Na bondagge, uma ou mais pessoas são amarradas, em cruzes ou em camas. Na battuagge, acontece a troca de casais, onde um parceiro vê o outro sendo penetrado por um ou mais homens, ou casais.
Nos clubes, ainda existem os “touros”, aqueles bem dotados, que penetram muitos outros na mesma noite. Em algumas festas, os homens bem dotados não pagam o ingresso de admissão.

Persona moral

Nos clubes mais seletos só se admite a entrada de novos “sócios” por apresentação, convite direto ou por algum meio eletrônico. Na maioria, basta comprar o ingresso, para ter acesso aos departamentos do clube e fazer sexo livremente. Regra geral, nesses ambientes, só se pode andar nu ou com o tapa sexo, apenas. Todas as casas oferecem sandálias, mas a maioria prefere os próprios calcados, por serem mais práticos e servirem para guardar camisinhas e outros acessórios sexuais na proteção da meia.

Os clubes oferecem um ambiente propício para o exercício pleno da transgressão sexual, violação consentida e, pari passu, a vivência de experiências-limite de prazer e exaustão corporal, na quais o sujeito, que eventualmente viva num mundo tranqüilo, abre as portas e as pernas para o desconhecido do seu hedonismo, buscado através de viver o grande prazer imediato e o absoluto fim da vida moral. 

O sexo, nesse ambiente admirável de orgia, tem a função de infração — expressada por atos de um teatro de transgressão de desejos, volúpia, olhares, penetrações múltiplas e orgasmos estrondosos. O sujeito, quando entra num desses espaços, é destituído, não diria do caráter, mas da qualidade de pessoa que determina a condição do humano.

Aquele é o ambiente encantado. É o jardim das delícias, onde o sujeito destituído, por sua própria vontade, da persona moral, busca viver uma outra experiência vital, agora instituído de uma nova e destrutiva persona sexual, Thanatos, deus da morte. Na posse de Thanatos, com Eros vencido, o ser é tomado pela idéia de viver uma realidade, que, ao mesmo tempo, é concreta, abstrata e virtual. Não existe, de fato, naquele momento nem depois, mas existe na estrutura mental, em formato de vídeo-game.

Libertar-se!

Essa luta contra a força destrutiva da natureza é a busca por experiências intensas e situações para viver a liberdade. A idéia principal disso tudo é a realização da fantasia, da alucinação, de viver e, ao mesmo tempo, sucumbir e destruir a persona selvagem. Para os homens homossexuais, tudo isso é muito precioso como processo, ao tempo que é muito tentador, além de ter um valor excessivamente elevado quando se busca liberdade: liberta-nos das amarras morais, que existem dentro de nós.
O sentido de “liberta-se”, além do poder econômico, relaciona-se com o exercício da sexualidade e das práticas sexuais. Não são raros os homens gays, que, pelo sexo, buscam libertar-se para a vida e, ao fim de tudo, por uma forte dose de homofobia interna, da sensação de perda, de abandono.

Através dessa válvula de escape, pode vir algo que pode ser muito trágico. Alguns podem pensar que aqueles homens gays, que vão a esses clubes, vivem felizes o dia-a-dia? Ou talvez, haja quem possa perguntar se esse desejo excessivo de prazer não reflete incapacidade de amar e ser amado? Eu não posso responder isso.

Dois lados

Tudo isso é uma parte do sonho do teatro, muito vivido por imperadores romanos, de Calígula a Adriano. Na mente, é fascinante: os excessos de olhares duros, as bocas, o grande amontoado de gente de corpos nus lampejados e tesos de tesão. Nisso tudo, existe um intensivo flerte com a morte, no limite da vida. O sexo tem um poder muito mais sombrio do que se pode imaginar o lado bom é o romântico. O lado mau do sexo é o da natureza, que eleva a potência extrema da perversidade até onde o corpo pode suportar. O corpo é submetido, seja pelo flagelo, seja pelas sucessivas penetrações, seja pelo uso de substâncias químicas, drogas licitas ou ilícitas, que levam o corpo a um extremo psicológico glorioso de prazer, excitação, volúpia e dor sem querer intercessões.

É como viver dois lados. Um, é o lado doloroso da excitação levada ao extremo. O outro, é o lado perigoso de colocar a vida no altar do prazer, uma faceta hedonista da auto-destruição: destruindo o corpo, destrói o desejo, que só encontra limite na própria morte. Deste modo, prazer e dor se relacionam e se misturam. Essa busca de liberdade homossexual, entendida como superação de status, tem, no cerne, a ver com a condição marginal vivida pelos homossexuais masculinos, que é levada ao extremo. Na medida em que os gays são marginalizados e interiorizam a marginalização, uma das conseqüências é a desrepressão selvagem extrema, é o big, uma explosão que sai pelo sexo e pode ter conseqüências impactantes na vida de cada um deles.

O processo de desrepressão se dá de forma imediata. É como se o individuo ficasse debaixo da água sem respirar, ao menos por um suspiro, e emerge ofegante, ávido por ar. Também é como ele se deparasse diante de um buraco ou um precipício, onde um passo para trás é a mesma coisa que se jogar nele. Neste caso, jogar-se do precipício é infinitivamente mais instigante. Na desrepressão, a experiência de levar o desejo ao extremo, está embutida a concepção inconsciente de destruir o próprio desejo, buscando se livrar do demônio do desejo, que, no fundo, nunca se consegue — porque ele é indestrutível e a tentativa de destruir é a busca por superá-lo, submetendo-se a outros caprichos limites, a exemplo do Gang Bang e do Barebaking.
Dentro da sociabilidade gay, um grupo pequeno de indivíduos fazem isso. Existe uma curiosidade da maioria nesse específico, bastando-se fazer a abordagem, mas os adeptos não são grande contingente. Se não são, todos os homens gays que fazem isso são, por conseguinte, de uma mentalidade burguesa. Esse tipo de atitude constitui comportamento de uma minoria, dentro da minoria gay — aqueles indivíduos que têm medo da luz do dia, em especial. A luz do sol marca a sua cara; a meia-luz, ou mesmo a escuridão da noite, despersonaliza-lhes.

Sem julgamento

Clubes de sexo sempre existiram na história da humanidade. Não se pode buscar uma interpretação bizarra para tudo isso, ou mesmo uma gloriosa explicação psicológica. Os gays são gays, porque são homens. Nós, homens gays, temos necessidades orgásticas de experiências mais profundas, ou mais ortodoxas; talvez, descer ao mais baixo nível para satisfazer o desejo do prazer, papel que não somente gays, mas homens heteros se submetem. Essa prática masculina difere da forma que as mulheres lésbicas buscam encontrar suas eventuais parceiras sexuais. Não existe esse tipo de espaço para mulheres, talvez porque elas não sentem tesão em freqüentarem ambientes sexuais.

Não quero fazer um julgamento sobre se as práticas sexuais dos outros são equivocadas, ou não. São desejos, aspectos peculiares de cada identidade, de cada mentalidade existencial. Antes, não havia clubes, eram cinemas de reprodução de filmes eróticos, que perduram até hoje. Antes do advento da aids, muitos iam aos cinemas e postavam-se de costas, com as calcas baixas, e todos que assim quisessem podiam penetrar o quanto tivesse vontade, sem camisinha. Hoje, em tese, isso não pode ocorrer. Convivemos com uma grande contradição: a aids uma doença tratável, mas que ainda acomete muita gente no Brasil e no mundo. Cada um tem a suas idiossincrasias, maneiras peculiares de ver e sentir cada coisa. Contudo, preservativo e gel lubrificante devem ser a bola da vez. Sexo não faz mal a ninguém, desde que feito com cuidados necessários.

Julgo os fatos, não os comportamentos das pessoas em relação a ele. O que devemos julgar são comportamentos considerados burgueses, seguidos de agressividade e alienação. Imagino, dessa forma, que não são homossexuais, os pervertidos. Se os gays masculinos são mais violentos no processo de desrepressão selvagem, é porque a homofobia exige isso. Talvez, à culpa pela falta de modelos e informações coerentes a cerca da homossexualidade, acabam escapulindo pelo sexo. Os heterossexuais. Em sua maioria, não canalizam essa busca de liberdade pelo sexo, mas para outras atividades com as quais podem flertar com a morte, colocando a própria vida no altar do desejo: os esportes radicais, os pegas, o machismo exacerbado. Isso porque não vivem situações de marginalidade interiorizada em virtude se sua orientação sexual, que é socialmente aceita.

Marcelo Cerqueira.

 

 

 

 


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