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Crônica de um casamento: Eu os declaro marido e marido
Por Marcelo Cerqueira Salvador, BA, sábado 15 de outubro de 2011 Meu amado Luiz Mott sempre me disse que os gays representam à última tribo romântica da modernidade. Ele fala isso porque observa e promove a luta dos gays ao longo dos anos pelo direito legal de constituir família através do casamento com todo aparato e misancene que se espera em ocasiões como estas. Mott tem toda razão em sua afirmação e ele também é um romântico e não é enrustido. Se antes não podia, agora já pode e o GGB tem cerimonial especifico para a celebração. Essa conquista foi fruto de muita espera e luta para ter uma declaração de convivência reconhecida em Cartório, o que muita gente em Salvador vem fazendo para garantir seus direitos, após a decisão do Supremo Tribunal Federal que considera as uniões homoafetivas como núcleo familiar, não é o casamento como agente esperava, mas já é um bom começo para quem quer garantir a proteção ao seu parceiro. Eu celebrei um casamento nessa última sexta-feira, 14 de outubro.Foi muito lindo o sonho de casar foi realizado por dois homens que juraram na presença de amigos e familiares votos de aliança e matrimonio. Eddmilson e Sandervan entraram às 21h de mãos dadas no espaço Meson de eventos na Ribeira, uma linda casa de estilo colonial que foi minuciosamente decorada com flores, tapete vermelho para recebê-los. Antes da entrada do casal um cortejo de padrinhos e madrinhas, crianças jogando pétalas de rosas e fundo musical adequado entoado por um cantor negro que vestia um lindo terno de cetim dourado. Após a passagem de todos e as poses para os fotógrafos, orientação da mestra de cerimônia para andar devagar, eis, que por fim surge o casal a minha presença para celebrar o matrimônio. Ambos vestiam ternos e como é de se esperar estavam nervosos diante da emoção tamanha. Eu pedi que as pessoas tomassem seus acentos para darmos inicio a cerimônia, ao todo foram três casas de padrinhos muito bem vestidos e calcados para o ato meio civil e meio religioso. Comecei a celebração também um tanto nervoso, falando da coragem dos dois em romper barreiras, preconceitos e externarem a sociedade esse amor de um pelo outro, nesses tempos que o amor não conta muito, mas como esperança é sempre a última, mesmo que tudo se acabe esperança ta lá, assim como o amor, ele aparece, e história de amor não tem lugar e nem coração para acontecer, felizmente acontece e é sempre renovação. Nossa! Como eu falei sobre o amor! Eu estava preocupado e estava fazendo umas leituras para a cerimônia, Josane minha acompanhante, companheira de meu primo Pablo me disse “ não se preocupe, olhe para a beleza desse lugar, na hora desce” e de fato desceu o Espírito Santo sob a minha cabeça, ela tinha razão, falei línguas. Continuei falando do amor. Amor de do Rei Davi por Jonatas, amor dos Cânticos de Salomão. E citei esse amor “Ah! Beija-me com os beijos da tua boca! Porque os teus amores são mais deliciosos que o vinho e suave é a fragrância de teus perfumes; o teu nome é como perfume derramado” Falei do amor companheiro, amigo, apaixonado e cotidiano e eterno enquanto dure. Após a celebração do amor conjugal, surge andando com passos lentos sobre o tapete, um menino vestido de homem trazia em suas mãos uma almofada ornada com flores brancas e fresca e nela um par de alianças em ouro. Parece que ele já sabia o que fazer. Se dirigiu até a mim e me entregou com toda beleza da inocência das crianças, eu peguei com cuidado e continuei nas minhas mãos. Ele seguiu correndo e pulando, felicidade! Em seguida levantei as alianças acima de minha cabeça para que para que todos pudessem vê-las como era tudo tão lindo e essa beleza estava sendo negada para 10% da população por puro preconceito. Eu direcionei as alianças a um deles e primeiro pegou lentamente como se estivesse em um sonho o segundo do mesmo modo. Cada um a sua vez juraram amor, companhia, afeto e cumplicidade para enfrentar o cotidiano dos relacionamentos na certeza de que de agora em diante eles de forma voluntária se dão e se recebem nessa singular união em um corpo só, são dois em um e assim irão viver a vida na fé e na certeza de fazer desse amor. Depois do sim, da troca de alianças, finalmente o beijo e o abraço emocionado do casal. Eles assinaram papéis em seguida as seis testemunhas. Havia sob a mesa um lindo bouket feito usando cravos e rosas. Delicadamente peguei o bouket e entreguei nas mãos dos dois simultaneamente pegaram e saíram de braços dados desfilando sob o tapete vermelho casados. Jogaram o boutek, gesto simbólico que desejando a mesma sorte a quem o pegar. Finalmente, marido e marido com a minha fé e a de todos os presentes. Comida, bebida, bolo de três andares e bem casado na saída para quem quiser levar pra casa, eu levei três. Eu já fiz várias vezes esse ato, mas esse foi muito especial. Na mesa com o meu primo Pablo e sua companheira Josane me sentei e comecei a pensar sobre a perseguição a essa forma de viver o amor. Diante de tudo o que estamos vivendo é uma evolução sem armas só com amor. Foi tudo tão natural, tão bonito o que teria de anormal nesses relacionamentos, nada! Onde existe amor, Deus está presente. Eu tive a certeza disso naquela noite. O GGB já realiza casamentos há muitos anos. Geralmente é apenas assinatura do contrato, mas algumas vezes acontece cerimônia especifica realizada por mim ou por Mott, é sempre uma emoção muito gratificante sabermos que estamos vivendo um momento desse, casar dois homens ou duas mulheres na presença de amigos e familiares e fazer parte dessa união, dessa alegria dessa nova família é um presente do céu trazido por um carrossel de anjos tocando trombetas. (publicado 16 de outubro de 2011 ás 0h) |
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