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CULTURAL
- Entrevista: Luiz Mott
por
Maria José Braga, (jornal O Popular).
O
antropólogo e militante da causa gay Luiz Mott,
há mais de 30 anos, defende os direitos dos homossexuais e a liberdade
de orientação sexual de cada indivíduo. Baseado no
relatório Kinsey (o pesquisador norte-americano que mais se dedicou
ao estudo da sexualidade humana), ele afirma que 60% dos homens e mulheres
são heterossexuais, 30% são bissexuais e 10% homossexuais.
Mas o fato de a maioria ser heterossexual, segundo ele, não significa
que somos heterossexuais por natureza, porque a sexualidade humana é
também uma construção sócio-cultural. Mott
afirma que as religiões estão cada vez mais fundamentalistas
e intolerantes o que justifica a violência e a discriminação
que ainda vitima homossexuais. Erudito quando precisa ser (ele se define
como o intelectual orgânico da concepção gramsciniana),
Mott é popular e extremamente bem-humorado. Conheça o que
pensa o antropólogo.
HomoSapiens - A Igreja Católica
e as igrejas evangélicas têm condenado publicamente a homossexualidade.
O que isso representa para a sociedade?
Luiz Mott - A Igreja Católica tem uma dívida
histórica milenar em relação aos homossexuais. No
passado, ela mandou homossexuais para a fogueira e hoje os condena à
exclusão, à marginalidade. A Igreja tem de reconhecer que
Jesus nunca falou nada contra os homossexuais e tem de pedir perdão,
de joelhos, aos homossexuais. Ainda hoje, ela forma opinião e faz
a condenação dessa minoria, que representa 10% da população.
HS - As igrejas utilizam o argumento de
que a natureza (Deus) fez os homens e mulheres como seres heterossexuais.
LM - A Igreja Católica, bem como outras igrejas,
em vez de se atualizar e incorporar elementos da ciência que diz
não existir uma sexualidade natural, que a sexualidade é
também uma construção cultural , prende-se a dogmas
do passado. Mas ela quer justificar seus dogmas utilizando termos que
são próprios da ciência. A antropologia diz que nada
é natural no humano; tudo é cultural, tudo é construído
social e historicamente. Não existe, portanto, uma moral natural
universal. É mais ou menos a mesma coisa de a Igreja ter defendido,
no passado, que a Terra era o centro do universo, sendo que, desde o tempo
de Galileu (que foi condenado pela Inquisição), já
se sabia que o sol era o centro do universo.
HS - Então a ciência afirma
que homens e mulheres não são naturalmente heterossexuais?
LM - Correto. Nós nascemos machos e fêmeas
e a sociedade nos faz homens e mulheres. Hoje em dia, já existe
a possibilidade de indivíduos que nasceram com a fisiologia masculina
ou feminina, mas que sua psicologia é totalmente ligada ao sexo
oposto, fazerem a adaptação do seu corpo à sua personalidade.
A transexualidade é considerada uma síndrome, são
pessoas que sofrem e somente a cirurgia transexual permite a reversão
desse estado de sofrimento, permite às pessoas exercerem a sua
essência existencial.
HS - Como os grupos de defesa dos homossexuais
estão trabalhando pela aprovação da união
civil entre pessoas do mesmo sexo?
LM - Atualmente, existem 120 grupos de gays, lésbicas
e transgêneros organizados no Brasil, do Amazonas ao Rio Grande
do Sul. Temos o projeto da Marta Suplicy, que, desde 1995, tramita no
Congresso Nacional e, por covardia, falta de vontade política dos
nossos deputados, não foi aprovado. Os parlamentares, muito influenciados
pela cultura machista, se opõem ao projeto, que a própria
Marta Suplicy (hoje prefeita de São Paulo) reconhece que está
defasado.
HS - Por quê está defasado?
LM - Porque não permite a constituição
de uma família por um casal homossexual nem a adoção
de crianças. Nós esperamos que o projeto seja reformulado
para atender ao que o próprio Poder Judiciário, sobretudo
do Rio Grande do Sul, já tem concedido aos homossexuais. Existe
jurisprudência de reconhecimento de direito dos parceiros homossexuais,
em caso de morte de um dos cônjuges, e também do direito
de mudança de nome em caso de mudança de sexo.
HS - Ainda no campo do direito civil,
o senhor tem defendido a redução da idade para o consentimento
sexual. O que significa isso?
LM - A maioridade sexual aos 18 anos é uma convenção
recente na história da humanidade. O direito romano, o direito
canônico, o direito filipino e as constituições católicas
do Brasil durante o período colonial reconheciam que as moças
podiam se casar a partir dos 12 anos e os rapazes, a partir dos 14. Dezoito
anos é uma hipocrisia como idade mínima para a maioridade
sexual, na medida em que pesquisas comprovam que a idade de iniciação
sexual da maioria dos brasileiros é 15 anos. Se houver educação
sexual nas escolas, ensinando como evitar gravidez indesejada e doenças
sexualmente transmissíveis, ensinando como reagir ao assédio
sexual e também como respeitar a livre orientação
sexual dos indivíduos, certamente aos 15 anos os nossos jovens
estarão suficientemente esclarecidos para exercer sua sexualidade
com responsabilidade.
HS - Ainda temos uma sociedade homofóbica.
O que os movimentos de homossexuais propõem para a reversão
desse quadro?
LM - O movimento homossexual brasileiro, apesar de ser
muito pequeno e pobre, tem contado com o apoio do Ministério da
Saúde, e um pouquinho com o Ministério da Justiça,
para elaborar projetos de educação sexual nas escolas, nos
quais são os próprios homossexuais que falam da orientação
homossexual, no trabalho de oficinas de sexo seguro para prevenção
das DSTs/aids. Também estamos trabalhando atualmente para interferir
no Plano Plurianual (PPA), a fim de alocar verbas para áreas específicas,
como a edição de livros didáticos que tratam da diversidade
sexual, a questão do ensino com a inclusão de personalidades
da história brasileira que foram homossexuais, mas que até
hoje existe um complô do silêncio que omite, exclui essas
personagens. Nós não queremos privilégios; queremos
igualdade. Queremos ser tratados como iguais aos demais cidadãos.
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