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Museu virtual do sexo
São Paulo, 540 anos
Inquisição flagrou primeiro gay de SP, diz pesquisador
“Magro,
alto de corpo, gentil-homem de rosto, tira a mulato, cabelo crespo e pouco
barba”.Tinha 32 anos e "alguns princípios de gramática".
Era assim, segundo descrição dos inquisidores feita em 1646,
o primeiro gay de São Paulo a ter a sua documentação
encontrada em Portugal. A descoberta foi feita pelo antropólogo
Luiz Mott, 57, professor aposentado da Universidade Federal
da Bahia, na Torre do Tombo, em Lisboa. Lá, estão arquivadas
cerca de 50 mil páginas manuscritas sobre as 4.419 denúncias
contra homossexuais feitas pela Inquisição, dos quais 30
foram condenados à fogueira.
Chamava-se Luís Gomes Godinho o ex-soldado e ex-criado que embarcou
para o Brasil em 1642 para escapar da Inquisição em Lisboa.
Não deu certo o plano de viver em paz nos trópicos. Quatro
anos depois, no dia 14 de junho de 1646, ele seria preso na então
vila de São Paulo sob a acusação de ser um "sodomita
devasso". Ficou em prisão domiciliar em São Paulo (porque
a cadeia não oferecia "segurança"), teve de pagar
11 índios para levar seus bens até o Rio e de lá
foi enviado para Lisboa, numa viagem de 112 dias.
O número de índios contratados e seus bens sugerem que ele
não era um fugitivo miserável, segundo Mott. "Pela
quantidade de pano, acho que ele era mascate ou iria abrir uma venda",
arrisca.
A cama com que foi conduzido de São Paulo para o Rio, não
citada em sua lista de bens, é outro sinal de riqueza. No final
do século 16, havia só duas camas em São Paulo, segundo
o historiador Afonso D'Escragnolle Taunay --a maioria dormia em redes.
A vila era tão reles à época que não tinha
mais que 5.000 moradores. A vida sexual de Godinho em São Paulo
é um mistério. O único fato registrado pela Inquisição
é que viajou ao Rio com Vicente de Gouvêa, "um camarada
seu". Camarada, como registram o Aurélio e um dicionário
mais antigo, como o de Antonio de Morais Silva (1789), quer dizer "muito
amigo", "companheiro", "amásio". Já
as peripécias dele em Portugal são extremamente detalhadas
na confissão feita ao Santo Ofício por uma razão
religiosa, segundo o historiador Ronaldo Vainfas, professor da Universidade
Federal Fluminense. Nos casos de homossexualismo masculino, interessava
à Inquisição provar se houve o que se chamava "sodomia
perfeita" -a combinação de penetração
anal com ejaculação. Para que fosse aplicada a pena de morte,
de acordo com Mott, a Inquisição teria que provar que o
sodomita participou de duas relações (seja como ativo ou
passivo) com ejaculação anal. Sob pressão dos inquisidores,
Godinho confessou mais de duasdezenas de atos homoeróticos, como
"agente e paciente". Contou que foi possuído de "ilharga"
("de ladinho") pelo seu patrão, que participou de um
ato de "sodomia completa" com um sacristão e de outro
incompleto com um preso. Relatou que fizera parte de uma "suruba"
com seis sodomitas, entre os quais um padre e um militar, e que já
participara de vários "molícies". O termo, diz
Mott, designa os atos sem ejaculação, como "punheta"
e "coxeta" (relação restrita às coxas),
citados aos montes nos processos da Inquisição.
O antropólogo acredita que o Santo Ofício acabou estimulando
esse tipo de carinho entre os homossexuais e vê paralelos com o
que ocorreu nas últimas duas décadas, depois da ameaça
do vírus da Aids: "Na Inquisição, os gays mudaram
o comportamento e evitavam a ejaculação para fugir da fogueira.
Com a Aids, aconteceu algo muito parecido: ninguém quer morrer,
é claro". Após passar um ano nos cárceres do
Rossio, Godinho recebeu sua sentença no auto-de-fé realizado
em 15 de dezembro de 1647. Não foi enviado à fogueira, como
outro sodomita que estava preso com ele, mas foi açoitado até
sangrar e condenado a remar para sempre nas galés do rei.
Após três anos de pena, Godinho fez um pedido ao "senhor
inquisidor": queria que o degredo nas galés fosse comutado
para outro degredo qualquer "já que está tolhido de
frialdades e não se levante nem pode andar". O Santo Ofício
aceitou o pedido, Godinho foi enviado para Angola e nunca mais se ouviu
falar dele.
A história de Godinho é a jóia da coroa de um livro
que Mott prepara para os 450 anos de São Paulo, batizado "A
Paulicéia Desvairada Fora do Armário: a Homossexualidade
em São Paulo. 1554-2004". Ele diz saber, obviamente, que antes
de Godinho devem ter existido outros homossexuais em São Paulo,
"mas não sabemos nada porque a Inquisição não
havia visitado a vila".
Em Olinda, por exemplo, há documentação sobre um
gay em 1547. Na Bahia e em Pernambuco, mais de 30 "fanchonos"
(gays de comportamento efeminado) são denunciados em 1591 e 1592.
No século 20, porém, São Paulo abriga uma constelação
gay sem igual, segundo Mott. Entre os famosos que estão no armário,
pretende incluir no livro o escritor Mário de Andrade (a quem Oswald
de Andrade chamava maldosamente de "miss São Paulo" depois
que brigaram), o inventor Santos Dumont, o paisagista Burle Marx e até
Mazzaroppi. Do cômico de estilo caipira, Mott diz ter um relato
do ator David Cardoso, segundo o qual o diretor convidou-lhe para dançar
e meteu a mão onde ele não imaginava. (Mario Cesar Carvalho
da Folha de S.Paulo)
Mott, Fry e Trevisan em noite de Notáveis
Foi
um sucesso de público o Café com Notáveis promovido
na última segunda-feira pelo Grupo Gay da Bahia e o Núcleo
Diadorim/UNEB no Teatro Zélia Gattai da Fundação
Casa de Jorge Amado. O escritor e advogado Marcos Vinicius foi quem moderou
a mesa. Mott, Peter Fry e João Silvério Trevisan estavam
iluminados e muitos acharam que foi um debate histórico. Eles tiveram
trinta minutos para falar sobre movimento gay, homossexualidade e academia
e a relação bicha bofe. Trevisan foi aplaudido diversas
vezes, sobretudo quando criticou duramente o Partido dos Trabalhadores
e a prefeita de São Paulo Marta Suplicy pela omissão nas
questões cruciais dos direitos civis de gays, lésbias e
travestis. Já Luiz Mott, disse que a universidade oferece espaço
para a militância homossexual, mas que os homossexuais não
reivindicam esse espaço, o que Fry, de certo modo concordou com
o antropólogo baiano de coração e paulista de nascimento.
Ao invés de café, foi servido menta, gelo e soda limonada.
Um luxo! Esta atividade faz parte das comemorações de 24
anos do GGB.
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