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Entrevistrans
17/3/2009
Única trans a trabalhar no Congresso, Maria Eduarda fala de preconceito e Clodovil Hernandes
Por Hélio Filho - Mix Brasil www.mixbrasil.com.br -
Foto: Secom/Câmara Federal


Maria Eduarda Borges hoje é uma linda e loira transexual que trabalha na Câmara dos Deputados, lá no Congresso Nacional, em Brasília, como assessora do deputado federal paulista Celso Russomano. A única trans na Casa de Leis. Mas a moça já foi um assessor legislativo, “o melhor da Casa”, que decidiu ter aparência feminina depois de participar da Parada Gay de Salvador em 2007. Chegou para trabalhar de aplique e nunca mais foi o mesmo, agora, a mesma.

Tímida, ela educadamente recusou nosso primeiro convite para uma conversa no ano passado, mas com a atual delicada situação de saúde do deputado federal Clodovil Hernandes, 71, seu amigo, ela resolveu que era hora de falar com o Mix. A entrevista que você confere abaixo foi feita enquanto ela acompanhava os exames neurológicos de Clodovil. Nela, a fofa fala como foi passar pela transformação de aparência dentro do Congresso Nacional, acredita que as travestis podem ser inseridas na sociedade e desmistifica a imagem preconceituosa do deputado.

Há quanto tempo você trabalha na Câmara Federal? Sempre foi assumida?
Entrei há oito anos na assessoria da Câmara na parte legislativa, acompanhamento de projetos, leis. Já era homossexual assumido e fiz minha transformação lá dentro. Eu era considerado o melhor assessor legislativo da Casa.

Há quanto tempo decidiu começar o processo? Como essa mudança foi recebida dentro do Congresso?
Faz um ano e seis meses que eu faço a transformação. No meu caso, esse desejo de me transformar surgiu meio do nada. Fiz a Parada Gay de Salvador em setembro de 2007 e coloquei um aplique de cabelo para ir. Fui felicitar o Marcelo Cerqueira e o Luiz Mott. Quando voltei para Brasília tinha que trabalhar, como ia trabalhar de terno e aplique? Decidi não tirar e ver o que ia acontecer. Fui de tênis, calça jeans, camiseta, boné e cabelo amarrado para trás. Sempre gostei do corpo feminino, ele me caracterizava muito, não de ser mulher. Gosto da questão feminina da mulher. Comecei a harmonização com uma endocrinologista aí comecei a fazer cirurgias plásticas. Coloquei prótese no seio, fiz cirurgia nas cordas vocais e plástica no rosto para suavizar algumas expressões masculinas. Foi muito assustadora essa mudança porque eu era muito conhecido com minha aparência masculina. Foi preocupante porque eu era muito conhecido, eram muitos comentários. Era uma novidade. Contei muito com o apoio do Clodovil, ele me elogiava muito porque eu era muito feminina, bonita. Ele nunca me discriminou, nem as pessoas da Câmara, pelo menos não diretamente. Preconceito qualquer pessoa carrega, se é deficiente, se tem qualquer problema que a caracteriza como minoritária sofre preconceito. Pontualmente não sofri preconceito, ninguém nunca me barrou, neste sentido não sofri. Até porque passei por um período de adaptação bastante rigoroso. Eu mesmo me privei de muitas coisas, queria evitar falação.

Cerca de 95% das trans não têm outra opção e acabam fazendo programa para viver. Você acha que todas podem chegar a ter um emprego formal como o seu e deixar a condição de marginalizadas?
Todas têm chance de ter um emprego bom. Eu acredito que ninguém quer essa vida de programa. Elas se prostituem porque não têm opção. A família não aceita, a escola exclui. Como uma travesti de aparência feminina vai ser chamada de João, Roberto ou Isac na escola? Essa campanha de aceitação do nome social nas escolas vai ajudar muito. O meu curso de Direito eu tive que trancar por causa do nome. Como eu chegaria na sala com nome de homem? Eu conheço muitas que já trabalham fora das ruas, com outras profissões. Já está começando a relação delas com a sociedade. Mas muito ainda precisa ser feito. Já fui detida no aeroporto de Congonhas duas vezes porque acharam que a minha identidade era falsa. Tive que explicar que era trans.

Você já foi chefe de gabinete do Clodovil, contou com o apoio dele na sua readequação e fala sobre ele com muito carinho. Isso vai contra a ideia que a maioria dos gays tem de que ele é preconceituoso.
Eu não posso dizer nada do deputado porque dentro do gabinete dele o chefe de gabinete é homossexual assumido e os melhores amigos dele também são homossexuais, todos assumidos. Tem também mais dois assessores gays. Ele, quando assumiu, aderiu à Frente Parlamentar pela Livre Expressão Sexual, apresentou o projeto de lei que pretende regularizar a união homoafetiva, não casamento. Ele sempre foi a favor dos direitos dos homossexuais como pensão, divisão de herança, mas não concordava com a palavra casamento. Quando ele assumiu foi uma repercussão, ele disse que não tinha orgulho de ser gay, tinha orgulho de ser quem ele era, o que ele tinha feito. Ele quis dizer que temos que ter orgulho da nossa luta, da nossa pessoa, não só de ser gay. Ele nunca quis dizer que não queria ser gay. Ele nunca teve preconceito, ao contrário, se ele tivesse preconceito ele não assumiria a homossexualidade dele. Podem falar tudo do Clô, mas não podem falar da sinceridade, da inteligência e do talento dele.

Dá para dizer que o deputado foi sempre uma presença muito importante na sua vida.
Com certeza. Eu passei um período pós-operatório e ele me viu toda transformada, ficou impressionado com a mudança. Disse “meu Deus, como você ficou linda”. No meu caso, como qualquer um, ele não tinha preconceito, tinha admiração. Ele tinha uma imagem muito glamourosa da mulher, chamava atenção quando eu estava de decote porque achava que vulgarizava a figura feminina. Estamos agora esperando a recuperação dele, espero que o movimento militante tenha paciência com ele. Qualquer movimento tem divergências. Na minha opinião, ele sempre foi mal interpretado. Ele não falava mal de travesti, falava que tinha outras maneiras delas ficarem bonitas, viver. Qual homossexual não é sincero e crítico?

A pressão que ele sofreu com uma quase cassação pode ter contribuído para esse segundo AVC, você não acha? Você estava com ele no momento que ele foi absolvido, como foi?
Desde o primeiro momento ele ficou muito nervoso porque era tudo muito diferente para ele, ele sempre disse isso, sempre admitiu. Quinta (12) teve a mudança de partido e ele foi para o PR, os ministros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) o absolveram dizendo que ele era uma estrela, que os votos eram dele, que não houve infidelidade partidária. Ele sofreu muito com a ansiedade desse processo, e já teve AVC uma vez, depois de tudo isso o corpo dele sentiu. Imagina para uma pessoa acima de 70 anos como é esse estresse? Ele sempre caminhava muito, principalmente aqui no Congresso, que são caminhadas longas. Ele tinha uma alimentação muito boa, ele é muito forte.

Nota da redação do site - matéria publicada em 17.03.09 no site Mix Brasil .     

 

 

 


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