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Homofobia na Escola
Meninos
agridem mais outros alunos gays e são muitas vezes estimulados
pelos professores
André Ribeiro
Nikky
(ela prefere usar o apelido) se orgulhava de ser aluna de uma escola particular
tida como ‘liberal’ em Campinas. Não precisava usar
uniforme completo, podia usar piercings e ela até já foi
pra escola de moicano, um penteado punk com pontas de um palmo de altura.
Casais de namorados podiam se beijar à vontade, ao contrário
de outras escolas, e ela não pensou duas vezes antes de beijar
sua namorada no pátio do colégio. A reação
foi devastadora. “Um amigo meu veio me dizer que achava que eu quis
aparecer, que se eu queria ser lésbica, que fosse entre quatro
paredes. Que as pessoas não eram obrigadas a ver isso”.
Essa intolerância é enfrentada por milhares de alunos e alunas
homossexuais da rede de ensino de Campinas todos os dias. Parte dessa
intolerância acaba resultando em violência escolar. “Eu
sofri agressões físicas, verbais e ‘tecnológicas’,”
desabafa Augusto Kobayashi, aluno do ensino médio e assumidamente
homossexual. “Levava socos, chutes, cotovelatas, joelhadas e empurrões.”
Augusto ainda diz que o grupo de meninos que o importunava, não
satisfeito com as agressões físicas e verbais, espalhavam
pelos computadores da escola imagens dele caracterizado como travesti
e com as unhas pintadas de rosa.
Fenômeno
masculino
Segundo pesquisa da UNESCO divulgada este ano, sobre violência,
Aids e drogas nas escolas, 28% dos alunos do ensino fundamental e médio
do estado de São Paulo não gostariam de ter homossexuais
como colegas de classe. Essa proporção aumenta se enfocarmos
apenas os alunos do sexo masculino: cêrca de 41% dos meninos não
toleram colegas gays ou lésbicas.
Mary
Garcia Castro, coordenadora da pesquisa da UNESCO, acredita que a discriminação
contra homossexuais (também chamada de homofobia), ao contrário
das de outros tipos, é não apenas mais abertamente assumida,
pelos meninos, como é valorizada por eles, o que sugere um padrão
de afirmação de masculinidade. “A homofobia pode expressar-se
numa espécie de terror de não ser mais considerado como
um homem de verdade”, diz a pesquisadora.
Segundo
a mesma pesquisa, “Bater em homossexuais” foi classificada
pelas meninas como a terceira forma de violência mais grave, atrás
apenas de “Atirar em alguém” e “Estuprar”,
enquanto para os meninos ela ocupa apenas a sexta posição,
atrás de “Usar drogas” ou simplesmente “Andar
armado”.
Essa
conclusão encontra eco entre outros pesquisadores e profissionais
que lidam com jovens, dentro e fora do Brasil. O holandês Theo van
der Meer, que entrevistou mais de 300 agressores de homossexuais condenados,
concluiu que todos são homens e sofrem de uma auto-estima baixa
ou exageradamente alta. Para esses jovens, bater em homossexuais –
que eles consideram fracos e afeminados – seria como um ritual de
passagem, uma afirmação de força. Murilo Moura Sarno,
médico do programa da Saúde da Família de São
Paulo e que conversa com alunos da rede pública sobre sexualidade,
já presenciou esse potencial de agressão. “Um aluno
da oitava série afirmou categoricamente que se encontrasse um casal
gay num shopping, iria esperar na garagem com um bastão de ferro
para quebrar a cabeça dos dois até matar o casal,”
afirmou o médico. “E foi apoiado pelos outros amigos”.
Professores
preconceituosos
João Augusto, aluno homossexual de um cursinho pré-vestibular
em Campinas, se sente extremamente ofendido com as diversas piadinhas
feitas pelos professores – quase todas tendo gays como alvo. “Como
fazer com que essas piadinhas acabem, sem me expôr?”, questiona
ele. “O que fazer quando as pessoas que deveriam nos proteger em
sala são as que mais agridem?”
Segundo
a pesquisadora da UNESCO Mary Castro, isso é normal. “Muitas
vezes os professores não apenas silenciam, mas colaboram ativamente
na reprodução de tal violência” Os dados da
pesquisa mostram que apenas 2,3% dos professores do estado não
gostariam de ter alunos homossexuais. “Mas alguns consideram que
as brincadeiras não são manifestações de agressão,”
ressalta a pesquisadora, “naturalizando e banalizando expressões
de preconceito.”
Todos
os especialistas consultados concordam que o silêncio é a
pior forma de se lidar com o assunto. “Precisamos de intervenções
mais sérias nas escolas,” sugere o médico Murilo Sarno,
“Primeiro sobre cidadania, depois sobre sexualidades, todas elas.”
A conclusão da UNESCO vai além e pede por investimentos
em uma “cultura de convivência com a diversidade” que
até pode se valer da informação, mas que deve se
utilizar, principalmente, do “debate e o questionamento das irracionalidades
que sustentam discriminações.”
Os
alunos fazem coro. “Falta diálogo,” diz Nikky. “Na
minha classe um certo professor se referia às lesbicas como 'sapatonas
machos e etc'. Um dia cheguei pra ele em particular e disse que aquilo
me ofendia. Nunca mais ele falou.” Augusto acha que a escola simplesmente
não enfoca o assunto. “Assim como temos aulas de biologia
e história, deveriam reservar algumas aulas para tratar de cidadania,
direitos e deveres, promover um debate entre os alunos, levar palestrantes,
mostrar que os homossexuais não têm nada de diferente. As
pessoas tendem a ter preconceito daquilo que nunca tiveram contato e esse
debate ajudaria e muito no combate à discriminação
contra os homossexuais e contra todos os outros tipos de minorias.”
Indicação
de fotos e gráficos: ·
Fotos de silhueta de alunas de mãos dadas num colégio, fotos
de um dos especialistas entrevistados e/ou um dos alunos
· Gráfico da UNESCO mostrando as cinco ações
consideradas mais violentas por alunos e alunas (“Bater em homossexuais”
aparece em 3º. para as meninas e nem aparece (é apenas 6º.)
para os meninos)
· Foto da sacanagem cibernética que fizeram com o aluno
Augusto (modificada para preservar sua identidade), http://www.e-jovem.com/
e-mail: <decows@uol.com.br>
Por que excluir os gays nas escolas?
Vicente Martins *
Estamos, do ponto de vista tecnológico, na era da
Informática, mas em se tratando de educação de valores, ainda estamos
na Idade Média.
Reproduzindo a cosmovisão dos nossos ancestrais, continuamos a não respeitar
as diferenças de sexo, cor e até de ideologia. Proponho, aqui, uma reflexão
sobre o papel dos educadores na reversão do preconceito sexual na escola.
Em se tratando de civilização brasileira, avançamos muito pouco com relação
às idéias sobre corpo, alma e sexualidade inculcadas no século XVI. A
situação é ainda mais acentuada quando fazemos referência às questões
de ordem sexual no âmbito da educação escolar.
Este tema é, em geral, visto com olhar enviesado, estreito, apesar da
sociedade democrática ter escolhido, a partir do século XVIII, as instituições
de ensino, em todos os níveis, para acolher as grandes questões que inquietam
o meio social.
A homossexualidade é tema que educadores, sejam diretores, coordenadores
ou professores, com ou sem pós-graduação, fazem questão de silenciar.
Nós evitamos comentar o assunto. Ignoramos as crianças e adolescentes
com tendências homossexuais e ficamos torcendo, de forma iníqua, que no
futuro, isto é, na fase adulta, os homossexuais mudem de opção sexual.
Na mídia, quando o tema é levantado, a intenção é gerar polêmica. Em um
programa televisivo, em rede nacional, o carismático Marcelo Rossi (o
padre pop) ao ser indagado sobre o que pensava sobre homossexualidade,
simplificou em dizer se tratar de doença, o que acabou por provocar ação
judicial impetrada por entidades gays do País.
Não há de ser oportuno, no âmbito da educação escolar, uma reflexão sobre
o assunto? Por que a escola não é lugar para respeitar as diferenças sexistas?
Poderíamos continuar indiferente à problemática da sexualidade. Diriam,
assim, alguns educadores: `` Se não sou homossexual, o que tenho a ver
com os que o são?. Exatamente, por termos nossa opção sexual resolvida,
devemos ter uma preocupação com aqueles que, sendo crianças ou adolescentes,
estão se definindo sexualmente para a vida.
Ao fazer referência às escolas públicas, essa questão da homossexualidade
sofre com um preconceito muito acentuado. Ao fazer referência às escolas
privadas, pouco se discute, pouco se fala, pouco se reflete, gerando,
não poucas vezes, comportamentos sutilmente agressivos de professores
com relação aos alunos homossexuais, sejam meninos ou meninas. Nas escolas
privadas, aceita-se o matriculado, mas não se tolera o educando com tendência
homossexual. A diferença entre escola pública e privada, nesse particular,
é que, naquela, não há o princípio de tolerância. Para algumas escolas
conservadoras, não há diferença entre o aidético e o homossexual: todos
sofrem com o preconceito social.
Começo por lançar algumas propostas de reversão desse preconceito: primeiramente,
aponto quem considero responsável pelo preconceito contra os homossexuais
no século XX: o Estado. Explico: o Estado tem contribuído nos avanços
culturais com relação à questão da sexualidade e às reivindicações das
massas, mas esses avanços foram mais em termos de discurso jurídico e
esvaziado de práxis. O Estado promoveu iniciativas judiciais em favor
das minorias de cor, de sexo ou de raça, todavia chegamos ao final do
século XX, com muita cerimônia na discussão sobre sexualidade, sobretudo
sobre sua faceta homossexual.
Neste século XXI, creio que o Estado, através de uma Constituinte Planetária,
deverá revelar e consolidar os valores éticos e morais da nova sociedade
informática, a começar pela própria América Latina. Revisando, assim,
através de uma democracia direta (via Internet), a longa tradição secular
e jurídica de dissimular a diversidade de comportamento sexual, de modo
a fazer, abertamente, a judicialização da sexualidade humana. Espero que
nos próximos dez anos, o Estado nacional venha a determinar, juridicamente,
que a homossexualidade não é uma inversão ou doença, como julgam alguns
párocos e educadores mais duros, mas uma opção sexual. Em substância,
no século XXI em construção, a homossexualidade não será tabu.
Sem fundamento jurídico que condene o comportamento sexual, não haverá
proibição ou perseguição à homossexualidade. Nisso, talvez desapareça
a noção de gênero, isto é, de diferença biológica de masculino e feminino,
em que todos nós, homens ou mulheres, seremos apenas andróginos.
Estaremos, enfim, numa época em que corpo, alma, ecologia e sexualidade
constituirão novo ramo bioético. Isso não é futurologia, mas revolução
ecossexual, em que o respeito às diferenças de gênero e opção sexual será
a base para o desenvolvimento humano e da sustentabilidade.
Reconheço que o tema merecerá maior reflexão, razão pela qual ei-lo como
proposta de fórum permanente, tema recorrente, para apreciação e julgamento
dos inquisidores da moral e dos bons costumes.
* Professor do Centro de Letras
e Artes da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), em Sobral, Estado
do Ceará (Brasil).
E-mail: vicente.martins@uol.com.br
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