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Os Gays são menos racistas sexuais que os heteros

OS GAYS SÃO MENOS RACISTAS QUE OS HETEROSSEXUAIS
Marcelo Cerqueira, presidente do GGB, texto para o I Encontro Nacional de Afro GLBT, Rio de Janeiro de 16 a 18 de Dezembro de 2006.

I. Raízes históricas do racismo anti-negro no Brasil

a) Manter a hegemonia dos brancos como donos do poder

b) Evitar a miscigenação com “raças impuras” (termo da inquisição)

c) Nem todo mulato é fruto de estupro: paixão recíproca inter-racial, cultura sexual africana mais liberal sem noção de pecado moral (ver cultura sexual dos orixás).


II. Relações raciais na comunidade gay

a) Todos os povos e etnias são racistas, xenófobos, mas há grupos que são mais ou menos racistas, homofóbicos, machistas, que outros e sem negar que existe racismo também na comunidade GLTB, pesquisas evidenciam que os homossexuais mantêm relações raciais mais simpáticas que os heterossexuais entre as raças.

b) Historicamente há registro de muitas uniões entre  “sodomitas” brancos e negros no Brasil colonial,  ativos e passivos, sedutores e seduzidos de ambas as cores, sem refletir necessariamente dominação do senhor. Muitas vezes senhores sentiam prazer de serem sodomizados por negros.

c) Estereotipo positivo do negro dentro do imaginário gay: valorização do negro ativo super dotado, raça pura,  ou  do negro passivo como mulata fogosa. A fama do negro atiça a curiosidade dos brancos e por isso os negros entram no mercado do sexo com muito mais poder.

d) Não há perigo de miscigenação nem risco de “sujar a raça dos descendentes” o que facilita a interação sexual entre gays brancos e negros. Os homossexuais tem muito mais inclinação para sexo inter-racial que os heteros brancos. Esse fator é potencializado pela clandestinidade em que muitas relações homossexuais acontecem. 

e) Relações homoeróticas são clandestinas, sem controle familiar dos parceiros de outras raças, o que conta é o tesão e a paixão, facilitando a inter-racialidade.

f) Cena Gay sempre foi mais democrática:  mistura idades, classes, cores, raças.

g) Fascinação dos gays pela cultura negra: candomblé, música negra, carnaval.

h) Solidariedade dos oprimidos: gays e negros são vítimas do macho branco dominador

i) Culturas  africanas sempre foram  mais liberais e tolerantes ao homoerotismo e travestismo

Conclusão do tema

Como homem homossexual negro, co-fundador do mais antigo grupo de negros homossexuais em funcionamento no Brasil, o Quimbanda-Dudu, fundado quando das celebrações do Tricentenário da morte de Zumbi dos Palmares (1995) tenho procurado nessa minha vida de luta por inclusão social para a população de gays, lésbicas e transgêneros, construir um diálogo com os movimentos de afirmação racial pontuando a questão da homossexualidade e as suas implicações com a raça. Tenho buscado conhecer quem é esse homossexual negro, o que é que pensa, como vive, como se relaciona com a suposta democracia racial, como se relaciona dentro do grupo da comunidade homossexual.

Conhecer as interdições de liberdade relacionadas à homossexualidade e a raça constitui desafio para todos nós, considerando que falar de homo-afetividade nunca é fácil e os sujeitos sofrem duplamente, por serem negros e por experimentarem uma orientação sexual minoritária circundada por muitas e diversificadas interdições. Para início de um diálogo franco, torna-se importante entender alguns conceitos.

A homossexualidade não pode ser entendida como um vício branco, opressão do macho colonialista. Mesmo antes da chegada do elemento europeu na África a sua prática já existia, seja de forma ritualística ou com a finalidade de atingir o gozo erótico. Colocando a parte o sexo sem permissão, o estupro e a violência sexual, que certamente existiu como acontece até os dias atuais. Negros e brancos sempre se relacionaram sexualmente, seja por amor ou por interesse, a prova é a quantidade de sodomitas brancos e pardos que foram denunciados a Inquisição Portuguesa pela prática do crime de sodomia nos engenhos do recôncavo  da Bahia,  no Rio de Janeiro e pelo Brasil a fora. Diferente de outros povos europeus, os portugueses não tinham tabu em relação ao corpo negro, ao contrário. “Traição da raça” é uma condenação/interdição muito comum imposta aos homossexuais afros. Temos de desconstruir este arquétipo negativo porque é fruto da opressão racista representado na fala do macho negro na construção da ideologia de afirmação e aceitação social. Esta prerrogativa reforça que a homossexualidade é coisa de branco, inconcebível ao negro, inaceitável aos afro-descendentes.

Nessa luta os Terreiros de candomblé e umbanda deverão ser importantes parceiros como espaços democráticos de afirmação da diversidade sexual contra as interdições baseadas na intolerância judaico-cristã. As religiões de matriz africana rejeitam a o tabu do sexo a partir da tradição, dos mitos e lendas dos orixás. É perfeitamente possível resgatar os arquétipos e a mitologia dos orixás na tradição afro-brasileira, demonstrando que as barreiras e interdições sexuais são muito tênues, embora não chegue a afirmar que nos terreiros vive-se uma sexualidade livre, sem regras.

Consideramos crucial resgatar os ícones negros da homossexualidade, como João do Rio, Mario de Andrade, Joãozinho da Goméia, Mário Gusmão e mesmo Madame Satã, negros entre tantos outros que pularam enormes barreiras e não se curvaram frente às interdições da liberdade, deixando para as novas gerações um exemplo a ser seguido na luta por igualdade e democracia sexual e racial.


Que tenham voz e vez os sujeitos homossexuais negros na construção desse diálogo entre a homossexualidade e raça negra! Temos de erradicar o racismo que ainda persiste na comunidade GLTB e a homofobia dentro da comunidade afro-brasileira. É fundamental estimular as lideranças homossexuais negras abrindo espaços de palavras para que possam se expressar como elementos dessa nova construção social. 100% Negro e Homossexual!

Salvador, Bahia, 15 de dezembro de 2006.

 

 

 


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