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CRÍTICA BIBLIOGRÁFICA
FRESCOS TRÓPICOS:
Fontes sobre a Homossexualidade Masculina no Brasil (1870-1980). James
N. Green e Ronald Polito. RJ, Editora José Olympio, 2006, 192 p.
por: Luiz Mott, Fundador do Grupo Gay da Bahia e Antropólogo
da UFBa
FRESCOS
TRÓPICOS é um livro com altos e baixos. O título
é uma pérola preciosa, sobretudo para pessoas mais familiarizadas
com a literatura antropológica e que de cara perceberam a alusão
ao antológico Tristes Trópicos, do velho estruturalista
Levi Strauss, cujas referências à homossexualidade entre
os índios brasileiros é esquecida no presente livro. Aliás,
além de raras referências a alguns “pederastas”
afro-descendentes, o livro trata quase exclusivamente de homossexuais
masculinos brancos, como se o Brasil se limitasse à cama dos cariocas
e paulistanos.
A capa do livro é um desastre: onde já se viu estampar uma
mulher do Taiti semi-nua, a Rainha de Areois, célebre pintura de
Gauguin, num livro que tem como sub-título “Fontes sobre
a homossexualidade masculina no Brasil” ?! Embora os biógrafos
aventem uma neurótica relação homoerótica
entre Gauguin e Van Gogh ,nenhum estudo sugere que a tal rainha com belo
peitoral fosse uma travesti ou berdache, nem mesmo lesbiana, daí
esse non-sense: a única imagem divulgada no livro não tem
nada a ver, nem temática, nem geograficamente, com seu conteúdo.
Porque não ter usado a foto de algum “pederasta” ou
“missexual” de nossa belle-epoque imperfeita? No pioneiro
Devassos do Parais (1986), de João Silvério Trevisan, há
tantas e tão preciosas fotos! Outra nebulosidade: porque no site
do MixBrasil aparece o livro com linda capa homoerótica, colagem
de fotos de homossexuais? Quem heterossexualizou a capa impressa?
Frescos Trópicos dá a impressão de ter sido publicado
às pressas, acreditando que a riqueza e curiosidade das fontes
seriam suficientes para impressionar um público sem maiores exigências
intelectuais. Tão distante e diverso, quanto à abrangência,
tratamento temático e acuro bibliográfico, do antológico
Gay American History, de J.Katz (1976, 1063 páginas). Onde já
se viu um livro que pretende divulgar “fontes” e que não
cita as páginas onde tais “fontes” foram extraídas,
contentando-se em encaminhar o leitor para a bibliografia final de onde
tais textos foram retirados?! Seria tal enrustimento das fontes artifício
para obrigar a outros pesquisadores terem de citar sempre “apud”
Frescos Trópicos? Não deixa de ser patético que na
ultima página do livro, o leitor seja aconselhado, a consultar
a bibliografia da obra magna de um dos autores, J.Green, Além do
Carnaval, fazendo de Frescos Trópicos uma espécie de apêndice,
obra “casadinha” dos restolhos que sobraram da pesquisa anterior.
Frescos Trópicos mais parece com uma colcha de retalhos tropical,
onde as “fontes” são agrupadas sem qualquer cuidado
cronológico, saltando de repente de um século para o outro,
de um tema para outro, com comentários que nem sempre primam pela
objetividade. Colcha de retalhos com limitadas cores regionais já
que praticamente restringe-se ao Sul Maravilha, Rio de Janeiro em primeiro
lugar, São Paulo em segundo, e só alguns poucos episódios
dedicados a Minas Gerais. A homossexualidade no Norte e Nordeste, como
se não existissem.
Falta um bom índice remissivo - pecado mortal inaceitável
em qualquer publicação norteamerica. Falta quando menos
duas linhas de biografia sobre os principais autores tupiniquins citados.
Falta dizer quem é quem e quem fez o quê nesta coletânea
assinada por James Green, 55 anos, Professor de Historia Latino Americana
na Califórnia State University e por Ronald Polito, 45 anos, Professor
de História da Universidade Federal de Ouro Preto.
Apesar de tantos pesares, trata-se de um livro imperdível, de leitura
obrigatória por todas as tribos GLTB e simpatizantes, na medida
em que transcreve citações originais do que pensavam os
experts e outsiders e como viviam nossos “ancestrais”. Relendo
tais textos, tive reforçada minhas convicções teóricas
e políticas de ”homossexólogo essencialista”,
na medida em que mostra as enormes similaridades e recorrências
entre a cena gay na última centúria, aliás como demonstrei
para a “subcultura gay" nos tempos da Inquisição.
Lastimo porém que ao divulgar esses textos tão saborosos
e cruciais, os autores de Frescos Trópicos tenham-no feito de forma
incompleta e atabalhoada. Para gozar dos louros do pioneirismo, frustraram
a publicização futura de pesquisas mais amplas, que por
navegarem nas mesmas fontes, correrão o risco de serem tratadas
como “dejá vu”.
As “fontes” da homossexualidade no Brasil deveriam ter sido
retiradas da gaveta com mais cuidado e carinho!
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