JERÔNIMO SOARES (1644)
Escravo, mulato, cozinheiro, natural de Lisboa, morador em Salvador e em Itapicuru
por/ Luiz Mott
Em 1632, adolescente, fugiu da casa de seu senhor, Manoel Pereira Castro, residente em Lisboa, à rua das Cavaleiras, quando este ameaçou-o castigar marcando seu rosto com ferro quente. Encontrou abrigo no sobrado do Padre Santos Almeida, no beco da rua do Saco, local de confraternização de numerosos sodomitas lisboetas, 5 dos quais, algum tempo mais tarde, tiveram a desventura de ser queimados em 1644, num Auto de Fé da Inquisição de Lisboa. Temeroso de perder o escravo gay, seu proprietário despacha-o secretamente para o Porto, onde é vendido e embarcado para a Bahia, tornando-se cozinheiro de Antônio de Brito Corrêa, destacado tabelião soteropolitano, descendente da pioneira família de João Ramalho e Catarina de Paraguassu. Ao chegar na América Portuguesa beirava então os trinta anos.
Na Bahia, desde 1644, o mulato Jerônimo persiste na fanchonice, “sendo infamado de alcovitar pessoas para pecarem no nefando e ser ele próprio infamado de sodomita”. Em 1646, ao realizar-se em Salvador a “grande Inquirição”, são denunciados dezoito sodomitas atuando na grande Salvador entre eles, “Jerônimo Soares, mulato escravo, acusado de manter amizade muito suspeita com o ourives Inácio Antunes.“ Um documento da época declara: “nesta Bahia há muitos homens que se comunicavam contra a natura e há sérios escândalos que necessitam castigo... Cresceram estes erros de em Lisboa o Santo Ofício proceder neste particular, por cujo respeito algumas pessoas se lançaram a esta província, como o mulato de Manoel Pereira [Castro], muito infamado no nefando, agora na casa do escrivão Antônio Brito, e outros mulatos mais”. Neste mesmo manuscrito denuncia-se que Jerônimo era muito íntimo do mulato Mateus Lopes , um dos homossexuais mais populares da Bahia seiscentista, e que “um chupava o outro”.
Nada informam os documentos sobre a vida de Jerônimo nas quatro décadas seguintes, até que em 1683, com medo da chegada do novo Bispo na frota, como já fora denunciado no Juízo Eclesiástico e poderia ter contas a prestar, o mulato fanchono é vendido para o sertão do Itapicuru, nos limites da Bahia com Sergipe, tendo agora como proprietário um tal de Manoel Morato. No sertão, já beirando setenta anos, Jerônimo continuará indômito na luxúria: “era voz pública que acometera alguns negros e moleques ao pecado, alguns estando dormindo; sua fama corria pelo sertão, de que era público no vício de sodomia”.
Apesar de presentear com dinheiro a certos de seus parceiros, alguns mais homofóbicos chegaram a ferir o velho sodomita: “o escravo de José da Silva ao ser acometido pela segunda vez deu uma facada na testa de Jerônimo ferindo-lhe um olho, e outros negros o tinham ferido e maltratado, dando-lhe uma bordoada com um pau em sua cabeça, fazendo-lhe uma grande ferida”. Sua fama era tão espalhada nos limites da Bahia com Sergipe, que “os moradores costumavam desempulhar-se com falar no Jerônimo e outros diziam: guarda-te do Jerônimo do Morato.”
(Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Inquisição de Lisboa, Processo 12257; Caderno do Promotor, nº 29; Pedro Calmon/Jaboatão, p.219; Mott, A Inquisição em Sergipe, p.36 e ss e Dicionário Biográfico dos Homossexuais da Bahia, 1999, p.73)
|