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Beto Heráclito Cá pra nós, Salvador é uma chatice só nessa estação que chamamos de inverno. Chuva, desabamento de casas e encostas, intermináveis engarrafamentos e uma noite morta por que baiano tem medo de chuva e de frio. Quem está a fim de diversão nessa época do ano tem que ser criativo. Quem tem seu par pode fazer programinhas a dois em casa: comidinha, música, um bom DVD comprado a 5,00 reais na descida da Lapa, etc. Mas quando o Espírito Notívago nos pega, aquele que vem antes da quinta-feira, digamos numa quarta-feira debaixo de chuva, o que fazer? Somos muito criativos, mas a cidade não oferece território para a nossa criatividade... Mas, escarafunchando, não é que acabamos retirando leite de pedras. Gina não cai nesse erro; ela tem tutano e feeling. Algumas pessoas são convocadas para subirem ao palco e aí começa a risadaria. Eu quase me mijei de rir nessa quarta-feira, dia 27 de junho, onde estava como espectador. Um rapaz que entrava para o mundo gay (dizia ele) recentemente foi o convidado da vez. O menino tinha todos aqueles estereótipos do “ativo”: novo na praça, não dá o cu, não chupa pica, namorou poucos homens e etc. Pra que foi! Gina pegou o mote da construção identitária do rapaz no ar. E aí não prestou. Acho que o momento serviu, inclusive como uma inteligente terapia para o dito cujo. Nem dá para reproduzir para vocês o “veneno” do bem que Gina soltou para o recém chegado à comunidade mais discriminada do planeta. Mas não pára por aí a emoção do evento. Intercalando demências planejadas e espírito artístico ela convida outros transformistas para darem o ar da sua graça. Naquela noite foi a vez de Aghata Yman, chiquérrima com namorado italiano “passivo”, recém chegada de uma aventura para lá de homofóbica nas pistas da Itália. Meu Deus, quanto sofrimento... A polícia dá choque em travesti lá na terra de Nero e todos os clientes só querem pica. E das grandes! Ela nos contou que os travestis além de mal tratados não ganham o dinheiro que eles sonham ganhar quando partem para essa viagem inusitada. Apesar de tudo – porque tudo o seu lado Poliana -, ela aprendeu italiano e voltou com uma cara de quem viveu uma experiência que a engrandeceu humanamente. Depois foi um desfile só de tipos: Valerie O’Hara, Suzi d’Costa, Wanderléia e tantas outras que ciscavam como coadjuvantes da cena. Foi tudo de bom. Eu sai com o meu fígado limpo de todos os males, apesar do álcool todo consumido. Foi tão bom o evento que acordei cedinho para escrever esse panegírico ao mundo transformista baiano. Não sei por que os poderes públicos não reconhecem essa forma de arte, produzam políticas que a incentive. Não sei. Alguém me sabe responder?
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