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UMA LUZ NA NOITE CHUVOSA OU A LOUCA CHEGOU

Beto Heráclito

Cá pra nós, Salvador é uma chatice só nessa estação que chamamos de inverno. Chuva, desabamento de casas e encostas, intermináveis engarrafamentos e uma noite morta por que baiano tem medo de chuva e de frio. Quem está a fim de diversão nessa época do ano tem que ser criativo. Quem tem seu par pode fazer programinhas a dois em casa: comidinha, música, um bom DVD comprado a 5,00 reais na descida da Lapa, etc. Mas quando o Espírito Notívago nos pega, aquele que vem antes da quinta-feira, digamos numa quarta-feira debaixo de chuva, o que fazer? Somos muito criativos, mas a cidade não oferece território para a nossa criatividade... Mas, escarafunchando, não é que acabamos retirando leite de pedras.
Como não sou egoísta vou dar uma sugestão para aqueles que, como eu, são acometidos por essa Entidade Noturna quando em vez. A dica é: o show de Gina de Mascar,  (1,00 real, no Beco dos Artistas). O ambiente é agradabilíssimo, o público muito bonito e pintoso. Aliás muito diverso: gente do IAPI, Capelinha de São Caetano, bicudas da Pituba e até turistas de Cachoeira e Camaçari dão o ar da sua graça, além de gringos gays de variadas procedências. Enfim, a diversidade reina e eu amo a diversidade (a minha utopia de diversidade é mestiça, pansexual e transnacional. Sou guloso, não?).
Mas deixemos de prolegômenos e vamos à dica. O espetáculo de Gina de Mascar. Gente, é impagável. Ela combina o tipo transformista grotesco, montada no melhor estilo da moda transformista. O figurino, o adereço, a indumentária, a construção cênica e a caracterização do personagem é de uma elegância de retirar aplausos. Quem serão os artistas que constróem fisicamente a personagem de Gina. Ela está escondendo ouro... Mas, continuemos: a inteligência da artista é um outro dado peculiar: com um estilo de espetáculo com visitas a programas de entrevistas televisivos (uma Hebe Camargo mais brega e com mais inteligência do que a referência real) ela começa. O cenário é improvisadíssimo: tudo aparentemente tosco e banal. Digo aparentemente porque tudo é feito de caso pensado. Não se enganem as amigas, atrás de tudo esconde uma finesse de fazer inveja (no bom sentido). Pois sim: a construção da personagem-entrevistadora é espetacular. Gina junta inteligência, cultura, informação e uma presença de espírito que é de deixar todo mundo de olho ligado naquele corpo gordo e disforme sobre salto agulha altíssimo por duas, três horas. O espetáculo inclui uma interação com a platéia feita com muito cuidado. Eu odeio teatro interativo quando ele expõe pessoas a um proscênio que elas não querem ocupar.

Gina não cai nesse erro; ela tem tutano e feeling. Algumas pessoas são convocadas para subirem ao palco e aí começa a risadaria. Eu quase me mijei de rir nessa quarta-feira, dia 27 de junho, onde estava como espectador. Um rapaz que entrava para o mundo gay (dizia ele) recentemente foi o convidado da vez. O menino tinha todos aqueles estereótipos do “ativo”: novo na praça, não dá o cu, não chupa pica, namorou poucos homens e etc. Pra que foi! Gina pegou o mote da construção identitária do rapaz no ar. E aí não prestou. Acho que o momento serviu, inclusive como uma inteligente terapia para o dito cujo. Nem dá para reproduzir para vocês o “veneno” do bem que Gina soltou para o recém chegado à comunidade mais discriminada do planeta.

Mas não pára por aí a emoção do evento. Intercalando demências planejadas e espírito artístico ela convida outros transformistas para darem o ar da sua graça. Naquela noite foi a vez de Aghata Yman, chiquérrima com namorado italiano “passivo”, recém chegada de uma aventura para lá de homofóbica nas pistas da Itália. Meu Deus, quanto sofrimento... A polícia dá choque em travesti lá na terra de Nero e todos os clientes só querem pica. E das grandes! Ela nos contou que os travestis além de mal tratados não ganham o dinheiro que eles sonham ganhar quando partem para essa viagem inusitada. Apesar de tudo – porque tudo o seu lado Poliana -, ela aprendeu italiano e voltou com uma cara de quem viveu uma experiência que a engrandeceu humanamente. Depois foi um desfile só de tipos: Valerie O’Hara, Suzi d’Costa, Wanderléia e tantas outras que ciscavam como coadjuvantes da cena. Foi tudo de bom. Eu sai com o meu fígado limpo de todos os males, apesar do álcool todo consumido. Foi tão bom o evento que acordei cedinho para escrever esse panegírico ao mundo transformista baiano. Não sei por que os poderes públicos não reconhecem essa forma de arte, produzam políticas que a incentive. Não sei. Alguém me sabe responder?
P.S. Vi na internet que Gina anda em busca de um tesouro que ela encontrou e depois perdeu, quando, à bordo de uma catamarã que fazia o percurso Morro de São Paulo/Salvador sobreveio um naufrágio. A coitadinha perdeu de novo toda a sua fortuna. Quem a achar, por favor, devolva-lhe. Esse texto faz parte de uma ação artística intitulada “Arpejos: pronomes femininos e gramática de gênero”, de nossa autoria, em fase de elaboração. Salvador, 28 de junho de 2007.

 

 

 


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