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Homofobia pura
Violência psicológica e fantasia homoerótica no discurso de Manno Góes baixista da banda Jammil
Por Redação do site do GGB

Macho, adulto, branco, rico e no comando: Manno Góes, (foto) músico da banda Jammil usou de texto homofóbico para discriminar homossexuais, justo quando em Salvador, acontecia a I Conferência Estadual dos Direitos dos homossexuais.

Gilmario Nogueira & Marcelo Cerqueira

SALVADOR, 27/04/08 - Mais uma polêmica envolve o integrante da Banda de Axé Jammil. Um texto de teor discriminatório e agressivo foi postado pelo próprio Manno no blog oficial da banda. Não é a primeira vez que o mesmo se envolve em polêmica, pois já criticou Saulo Fernandes, dizendo que as músicas do cantor “não são de homem”, mas agora ele foi além e fez várias críticas a fãs de Daniela, Ivete, Claudia Leite, entre outros.
Manno se defende dizendo que não foi homofóbico nas declarações e que o motivo do post tinha sido um incidente com alguns fãs, no entanto, se analisarmos o conteúdo dos comentários veremos que não é bem assim.

A homofobia é um problema para a sociedade. Este mês o Grupo Gay da Bahia (GGB) divulgou estatísticas que nos mostram o mapa da homofobia na Bahia e Brasil. Houve em 2007 um aumento de 30% em número de assassinatos de gays, travestis, lésbicas. A Bahia aparece em primeiro lugar com dezoito homicídios.


O problema parece ser o fato que a sociedade precisa ver a violência física para caracterizar homofobia, que necessita ser entendida também como violência psicológica, isto é rejeição, depreciação, indiferença, discriminação, desrespeito ao outro, por conta de sua sexualidade, no caso, do mesmo sexo biológico. A partir da análise minuciosa do post de Manno Góes verificam-se vários destes componentes da violência psicológica e sem nenhuma sutileza, o que parece ser um estilo do autor.

Para maior compreensão dos comentários do autor, Manno Góes, num texto longo, foi realizada uma divisão em categorias, sendo as falas diferenciadas em itálico, entre aspas. O objetivo é separar os fragmentos conforme temática. Espero que isso ajude o leitor a perceber o encadeamento e repetição das idéias, a saber:


1 – A quem se destina o texto:
Aos fãs que ficam na porta de camarim, sendo citados os de Daniela Mercury, Ivete Sangalo, Cláudia Leite, entre outros cantores. O texto é tão generalista com os fãs que chega a chamar de “tudo um bando
Se o texto fora feito para um grupo, por conta de um incidente, porque ser tão generalista? Por que citar nome de fãs de outros cantores?

2 – Caracterização dos fãs:

O texto caracteriza com riqueza de detalhes os fãs, que segundo Manno são:
 “bando de viadinho /se fosse heróis usariam calcinhas / São sangues-sugas feios e aviadados, atrevidos, atrás de ingressos cortesias e fotinhas fofinhas, com seus trejeitos esquisitos e gel fedidos sobre seus penteados ridículos / Esses pseudo-fãs carnívoros são bisonhos. Feios. Chatos. Pulgas. Insetos /São um bando de bosta mesmo, porra / Um super “vão-tomar-no-cu” pra vocês, seus boiolinhas de merda. E aprendam a tomar banho, porque vocês geralmente fedem.”

Há “quem diga que não há homofobia nestes termos, mas vamos imaginar que ele usasse o termo “negrinho” ou “criolinho”, será que não seria racismo?
Há excesso de termos pejorativos como: viadinho, aviadado, trejeitos, boiolinhas seguido de termos valorativos como: de merda, vocês fedem, ridículos, bosta...
Vejam que há referências a sexualidade [viadinhos] e seguem termos de valor negativo [merda, ridículos, bosta], tornando-se uma infeliz associação de ideais.

Valorar as pessoas por sua sexualidade é uma prática corrente desde o Séc. XIX quando se definiu que um grupo era normal, pois atendia aos interesses de um ideal de família burguesa e outro anormal. A caracterização deste grupo como anormal pela prática médica possibilitou a sociedade um ódio extremo dos gays, que nem mesmo o avanço científico, recategorizando os gays dentro da normalidade conseguiu destituir tamanho ódio.


Manno demonstra tanto etnocentrismo que critica os heróis quando estes não têm a masculinidade que ele julga ideal, como:
“...visao de raio-x e não fica na porta do banheiro feminino” 
Batman usa roupa meio gay mas é Pitbull, porradeiro.

Uma valoração a heterossexualidade, e desqualificação por aquilo que ele julga ser homossexualidade ou falta de virilidade.


3- Fantasias homoeróticas.

O que é mais curioso, no entanto é o excesso de referências ao sexo entre homens ou ao órgão sexual masculino, que permeiam sempre o imaginário de Manno. Por vezes ele cria fantasias sobre os personagens que traz aos textos, todas com um conteúdo erótico na maioria das vezes homoeróticas.
Como é que a Betty Banner sobreviveu à lua de mel? Imagina o tamanho do pinto do Hulk? Eu, hein?”
[1ª referência ao pênis, com uma imaginação de tamanho.]
E o tal do Capitão América, porra?? Aquele idiota só pode ser texano. Trocava o chicotinho com o doido super aloprado do Bush na infância, com certeza. Capitão América é um cuzão careta, chato, babaca e velhaco. Igualzinho ao Bush”      
[referência imaginária a penetração anal entre homens, numa situação de permuta/troca]
Casa Branca de cu é o meu pau. Se for pra eu ir tocar na Casa Branca que eu vá levando um Cohiba cubano gigante da melhor qualidade.”  

 [referência ao seu pênis associado a uma penetração anal, seguindo de uma referência a Casa Branca sendo que ele já falou que Bush “trocava” ]
“Hiper-atrofiado e vitaminado com super-mega-ultra doses de anfetaminas e anabolizantes, deve ter um micro-mini-poquete pênis.”
[crítica depreciativa por conta do tamanho do pênis, ou se invertermos uma valoração ao pênis grande.]
Adoraria que Thor enfiasse o seu Martelo fodão Mjolnir no meio daquele rabo Tio Sam fodido”
[demonstra com a palavra “adoraria” desejo, vontade que o personagem Tio Sam fosse penetrado por um martelo grande. Martelo grande no lugar de pênis grande, penetração anal...]
“Robin, além de ser estuprado pelo Batman, viu a família despencar de um trapézio no circo”
[Fantasia de estupro do Robin pelo Batman, sendo que o mesmo Manno já se comparou ao Batman]
“Eu, por exemplo, prefiro e adoro o Batman. Que também usa cueca, porém preta, sobre um colan cinza coladinho meio gay.”
O conteúdo sexual do texto pode ser categorizado em três perspectivas: a) idealização do tamanho do pênis; b) associação de coito/penetração e agressividade, seguidas por; c) latente conotação homoerótica.


4- Intencionalidade do texto

A intencionalidade dos comentários é confusa, sendo que por vezes se percebe uma tentativa de criar-se um personagem bad-boy que tem sido uma estratégia de alguns artistas para chamar atenção da mídia e atrair um público específico, notoriamente um nicho de mercado, mas também há por vezes uma pungente instabilidade emocional, talvez provocado por seqüelas ao longo da vida.
Ah!! O Homem de Ferro sou eu, cara! Já reparou que todo herói tem uma história fodida por detrás de sua origem?
Todo super-poder vem de uma super-foda sacanagem do destino
O Homem de Ferro surgiu por causa de um estilhaço no coração. Daí o filhinho de papai inventou uma armadura, virou herói e tocou o barco pra frente. Sou assim. Movido a estilhaços.”

Vejam que ao se comparar a um herói e traçar o percurso destes, Manno fala de si, sua história e aponta que é movido a estilhaços e bagaços.


5- Modo com a banda lida com esses fãs.

Apresentamos a partir da escrita do autor fragmentos que mostram como ele e segundo o mesmo, toda banda tratam esses fãs a quem ele chama de viadinhos, boiolas e aviadados.
“No Jammil tratamos devidamente como os nada que são”     
“Não os tratamos mal,  não os tratamos bem, é como baratas”

É um tratamento por indiferença segundo Manno, realizado por toda banda.

Escamoteando, Manno se defende dizendo que não quis generalizar, mas generalizou e recorre à democracia. Pois bem, na democracia é bem verdade que qualquer um pode falar o que quiser, mas há implicações existem limites do que pode ser dito. É muito fácil ridicularizar com mulheres, negros, índios, prostitutas e homossexuais, o que o músico faz com muita competência.

Podemos fazer de conta que num momento de insensatez o baixista falou o que não deveria, mas é bom lembrar que já não é a primeira vez que ele faz isso. É um reincidente na promoção da homofobia.

Podemos pensar que logo isto será esquecido, mas se verem os posts dos fãs, esses comentários são avaliados como atitude, coragem e são aplaudidos sob forma de heroísmo do autor. Agora, vamos imaginar alguém que se encaixe na caracterização de músico num show da banda. A que tipo de violência [em todas as dimensões] esta pessoa estará submetida? Como os fãs de Manno Góes que aplaudem e corroboram com suas palavras olharão para essas pessoas?

O Grupo Gay da Bahia (GGB) luta por direitos humanos, respeito às diferenças e é com esse entendimento que a nossa entidade vai oferecer essa denúncia ao Ministério Público exigindo reparação imediata desse dano. A falta de punição para esses casos tem estimulado o aumento da violência. Nós não podemos ficar calados diante dessa demonstração absurda de preconceito, especialmente vindo de formadores de opinião como ele.

 

 

 

 

 


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