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Joãozinho da Goméia Salvador,Bahia, 27/07/06 - João Alves de Torres Filho ou Joãozinho
da Goméia - nasceu em 27 de Março de 1914, na cidade de
Inhambupe, a 153 quilômetros de Salvador, Bahia e morreu em 19 de
Março de 1971 em São Paulo durante uma cirurgia de um tumor
cerebral. Filho de pais católicos,chegou a ser coroinha. Ainda
menino João Alves Torres Filho veio para o mundo do candomblé.
Em 1924 aos 10 anos, o garoto já havia dado mostras de sua personalidade
forte. Contra a vontade dos pais, deixou a casa da família para
tentar a sorte na capital Salvador. Teve que se virar para sobreviver
e foi trabalhar num armazém de secos e molhados, onde conheceu
e foi apadrinhado por uma senhora que morava na Liberdade, e que ele considerava
sua madrinha. Foi essa senhora quem teve a idéia de levá-lo
ao terreiro de Severiano Manuel de Abreu, conhecido como Jubiabá.
Joãozinho sofria de fortes dores de cabeça, que não
eram explicadas, nem curadas pelos médicos.Também tinha
sonhos com "um homem cheio de penas", que não o deixava
dormir. Para os adeptos do Camdomblé, é facil interpretar
esse "homem de penas" como Pedra Preta, seu caboclo. Bastou
que ele fosse iniciado, no dia 21 de dezembro de 1931, para que as dores
fossem embora. Elas seriam somente um aviso dos orixás, que cobravam
a iniciação do menino. A polêmica começa aqui.
Para alguns estudiosos, o Jubiabá que o “fez” não
é o mesmo da obra de Jorge Amado; para outros, João sequer
foi “feito’. Porém, há filhos de Joãozinho
que contam detalhes de sua feitura, como a Ialorixá Maria José
dos Santos, de 92 anos, que declarou ao Correio da Bahia: "Eu duvido
que, se ele fosse vivo, alguém tivesse coragem de questionar isso
na frente dele. Em direção totalmente oposta vai a pesquisadora
norte-americana Ruth Landes em seu livro A Cidade das Mulheres: "Há
um simpático e jovem pai Congo, chamado João, que quase
nada sabe e que ninguém leva a sério, nem mesmo as suas
filhas-de-santo (...); mas é um excelente dançarino e tem
certo encanto. Todos sabem que é homossexual, pois espicha os cabelos
compridos e duros e isso é blasfemo. – Qual! Como se pode
deixar que um ferro quente toque a cabeça onde habita um santo!
" Outra polêmica levantada por Landes é que João
“recebia” um “caboclo”. Os caboclos não
são Orixás, mas espíritos, encantados originários
das religiões indígenas, sem relação com a
África. Esses candomblés de caboclo eram alvo do desprezo
do povo-de-keto, zelosos de sua “pureza” africana porque,
nessa época, havia um empenho por parte de influentes intelectuais
comandados por Arthur Ramos e Edison Carneiro em firmar a idéia
de que havia nos terreiros keto uma “pureza” com relação
às raízes africanas. O certo é que João foi
um homem não só adiante de seu tempo como também
dono de um projeto particular de ascensão social e religiosa, buscando
a diferença como dado de divulgação de si mesmo e
sua "roça": negro que alisava os cabelos por vaidade,
sem se preocupar com a polêmica de poder ou não colocar ferro
quente na cabeça de um iniciado; homem que não se envergonhava
de ser homossexual na homofóbica Bahia do início do século
XX; pai-de-santo que afrontava os princípios de que homens não
podiam “receber” o Orixá em público, tornando-se
famoso pela sua dança; incorporava ao Candomblé a entidade
indígena do Caboclo Pedra Preta; adepto de Angola, numa cidade
dominada pela cultura jeje-nagô; babalorixá jovem, numa cultura
dominada por ialorixás mais velhas o que, segundo seus filhos-de-santo,
ativou o despeito das mães-de-santo tradicionais da Bahia. Também
sua ascensão precoce era mal-vista no mundo do candomblé,
onde a idade avançada é considerada um atributo importante
para a escolha dos sacerdotes – e a própria Menininha do
Gantois sofreu resistências por causa disso, quando assumiu a chefia
do seu terreiro aos 26 anos de idade. Lendas à parte, o caso é
que as ialorixás mais tradicionais não sabiam como encarar
as novidades trazidas por Joãozinho. Também não é
verdade a afirmação de Landes de que Joãozinho não
era respeitado pelos seus "filhos", a quem na verdade tratava
com mão de ferro: era muito autoritário e enérgico
Seu primeiro terreiro foi num bairro chamado Ladeira de Pedra, mas logo
foi para o local que o tornou famoso, a ponto de incorporar o endereço
ao próprio nome: Rua da Goméia. Lá, tocava indiferentemente
angola e keto, o que contribuía – e muito – para aumentar
o escândalo em torno de seu nome. Em 1948, despediu-se de Salvador
com uma festa no Teatro Jandaia, apresentando ao público pagante
danças típicas do Candomblé, escândalo final
para adeptos baianos, e mudou-se para o Rio de Janeiro, onde abriu casa
na Rua General Rondon, nº 360, em Duque de Caxias, Baixada Fluminense.
Nesse endereço a lenda em torno de Joãozinho da Goméia
só fez aumentar, atendia políticos, embaixadores, cônsules,
o próprio Getulio Vargas e a sogra de Juscelino Kubitschek, além
de artistas como Ângela Maria, na época a “Rainha do
Rádio”; tudo isso fez com que passasse a freqüentar
a imprensa. O próprio João nunca revelou os nomes de seus
filhos ou clientes; seus filhos-de-santo que espalharam essas notícias,
orgulhosos do status da casa de seu pai. Costas quentes ou não,
o caso é que Joãozinho nunca teve seu terreiro invadido
pela polícia, nem jamais foi preso, ao contrário de Mãe
Menininha, que tem registradas duas passagens pela polícia, acusada
de “tocar candomblé”. Diz a lenda que Joãozinho
até mesmo chegou a fazer despacho para Exu em plena Praça
XV. O caso é que tornou-se o primeiro pai-de-santo realmente conhecido
no Brasil. Sabia do poder da imprensa e manteve relações
com publicações importantes como a revista O Cruzeiro, deixando-se
fotografar com os trajes dos Orixás. Em 1956, João participou
do carnaval vestido de mulher. O assunto rendeu uma polêmica terrível
com outros babalorixás e chefes de terreiros da Umbanda. João
defendeu-se através d’O Cruzeiro, reivindicando seu direito
ao livre-arbítrio e declarando que jamais permitiria que qualquer
outro pai ou mãe-de-santo se intrometesse em sua vida. Participou
de shows no Cassino da Urca, apresentando as danças dos Orixás,
sempre unanimemente considerado um bailarino de raras qualidades. Chegou
a participar do filme "Copacabana moun amour", de Rogério
Sganzerla, no papel de um pai-de-santo que faz um ebó na atriz
Helena Ignez. Teve numerosos filhos-de-santo: chegou a fazer um barco
com 19 iaôs, façanha lembrada por todos, dada sua extrema
dificuldade de realização. Apesar das brigas com as alas
mais conservadoras da religião, eis porque Joãozinho da
Goméia é considerado um dos maiores divulgadores da religião
dos Orixás no Brasil. Em 1966, outro momento repleto de contradições:
João voltou à Bahia e deu “obrigação”
com Mãe Menininha do Gantois. Segundo a Ialorixá Mãe
Tolokê de Logunedé, "foi fazer a obrigação
dele; tirar a mão de vumbi e fazer bodas de prata. (...) Depois,
ele fez a festa no Rio de Janeiro, para os filhos que não puderam
ir à Bahia." Ainda segundo seus filhos, Joãozinho da
Goméia não apenas fez sua obrigação com Mãe
Menininha como foi o primeiro homem que ela permitiu que vestisse o Orixá
e dançasse em público “virado” no santo. Para
entender a importância desse ato (mesmo que apenas mais um aspecto
da lenda) é preciso ler em Ruth Landes as restrições
que Mãe Menininha fazia quanto à apresentação
pública de homens em transe. Porém, é fato que, embora
o próprio Joãozinho até o fim da vida continuasse
tocando tanto angola quanto keto, a partir desse momento passou a insistir
com seus filhos-de-santo para que seguissem uma orientação
única, optando entre keto e angola. Joãozinho da Goméia
morreu em São Paulo, dia 19 de março de 1971, no Hospital
São Paulo (Vila Clementino), durante uma cirurgia para retirada
de um tumor cerebral, e após uma parada cardíaca. Foi sepultado
no cemitério de Duque de Caxias, num dia em que uma chuva de proporções
míticas caiu sobre o Rio de Janeiro, exatamente na hora em que
seu ataúde baixava à sepultura. Para os adeptos, uma manifestação
de Iansã recebendo seu filho, que culminou com muita gente “virando
no santo” em pleno cemitério, a passagem foi relatada nO
Cruzeiro. A Goméia do Rio foi vendida para uma incorporadora, que
no local construiu um prédio. Os assentamentos de Joãozinho
da Goméia foram transferidos para uma nova Goméia, em Franco
da Rocha, São Paulo, onde os ibás de seu Oxossi e de sua
Iansã estão sendo devidamente cuidados e “alimentados”,
e podem ser visitados pelos adeptos que fazem parte da familia-de-santo. |
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