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Feminismo masculino
O machismo pós-moderno: lobo em pele de cordeiro
Por Luciano Freitas Filho direto de Recife, PE

 

Geysi Arruda, chora pela humilhação.

Como se não bastassem os atos de violência que a estudante da Universidade Bandeirante/Uniban de São Paulo, Geyse, sofreu no dia 22 do mês passado, nos deparamos, agora, com as cenas dos capítulos seguintes, em que a Universidade não satisfeita com a hostilidade geral em seus corredores, decide expulsar a estudante por atentar contra os “valores éticos” da referida Instituição.

 

Ora, a princípio é válido salientar que valores éticos não se medem ou julga-se pelo tamanho de uma saia, primeiramente porque, seja ela rodada, mini ou longa, os fios que a tecem de longe representam a essência de um caráter. Se fossemos considerar os atos atentatórios contra a moral e os bons costumes desta Universidade, teríamos de relevar o mau caráter dos que hostilizaram a estudante bem como daqueles que a expulsaram, já que machismo e discriminação são elementos antiéticos e imorais, senão antipedagógicos e ilegais numa Instituição autorizada e credenciada para “educar”.

Intencionada ou não a “chamar a atenção”, a estudante não pode ser julgada e culpada por um crime que não cometeu. Num país constitucionalmente democrático, as pessoas têm o direito de ir e vir sem quaisquer atos que alienem sua dignidade ou ameacem sua integridade física. Além disso, supondo um crime por parte da garota, não podemos respaldar quaisquer atos de violência para coibir ilegalidades, menos ainda para um país que, mesmo timidamente e sob muito sangue e lágrima, conquistou avanços para uma emancipação da mulher. Com essa situação lamentável , damos passos largos para trás e nos aproximamos de períodos nefastos da história humana,  em que mulheres em plena Inquisição eram queimadas e julgadas numa praça pública na condição de bruxas , por subverterem uma lógica e ordem masculina.

Se hoje o foco do debate, a meritocracia, toma por base a roupa que usamos, e não o caráter em nossas ações, avaliemos, pois, senhores de paletó e gravatá, bem compostos no seus trajes e decompostos de ética, caráter e vergonha na cara. Nesse caso, não estamos tratando mais de senhoras, e sim de senhores, e “para não dizer que não falei das flores”, das senhoras, posso afirmar que já vi muita saia composta até o joelho ou tornozelo, acompanhada de indumentárias sacras, “pintando , bordando e atentando” contra a dignidade do outro e o respeito à diferença .

Classificar mulheres de vulgar ou não vulgar, e, por conseguinte julgar a primeira, parte de um preceito cultural genuinamente machista, que é histórico e se pauta nas representações sociais de mulher sob ótica do recato e subserviência masculina. Logo, não me espanta que muitas mulheres, naquela Universidade, entoaram o coro do machismo, bem como muitas devem estar aplaudindo os desdobramentos do ato,muito menos me espanta que a única vítima da história, Geyse, considere que também errou. O machismo é (in) conscientemente elemento constitutivo do que somos enquanto sujeitos numa sociedade capitalista.

 O machismo contemporâneo, diferente do de outrora, é velado e se cobre com o manto da lei.  Não se hostiliza mulheres e se expulsa de Universidades sob alegação de serem mulheres “vulgares e fáceis”, hoje, é preciso ter cuidado no discurso, assim, a fim de não ser politicamente incorreto e antipedagógico, é necessário alegar violação da ética e da moral. O machismo contemporâneo não arrasta a mulher pelos cabelos e leva para a caverna, ele tira dela seu direito de ser enquanto sujeito de gênero e a relega a um único armário, o do padrão civilizatório, o recato e as pernas cruzadas. Ele é um lobo em pele de cordeiro, traveste-se de moderno, democrático e complacente, no intuito de mantê-las sob constante vigilância. A justiça, senhoras e senhores, ainda não é uma senhora de venda nos olhos e com uma espada na mão, ela é um homem desvendado.

Ponho em xeque quais são os parâmetros e diretrizes curriculares, bem como os documentos legais que basilam tal Universidade. Será que os seus gestores desconhecem o que é de fato uma prática pedagógica, o papel de cidadania e de preservação dos direitos humanos que toda e qualquer Instituição de Ensino deve defender e difundir? Quem se entende por educador não pode permitir que os direitos humanos sejam violados. Se a aluna não tivesse se trancado e em seguida não fosse escoltada pela polícia, quais seriam as retaliações? abusos e violações sexuais? linchamento ? sim, por que pelo modo como as coisas se deram, nada mais seria impossível. Como um estatuto pode estar acima da Constituição dessa nação ? O MEC referendará tal violação de direitos ? 

 Mulheres e homens, em marcha! Isso é caso para polícia, para Cortes Internacional de Direitos Humanos. Os corpos e discursos não devem se calar, desconstruamos ,(re) signifiquemos a nós mesmos e aos outros em respeito ao diferente. (Salvador, 9/11/09)

 

Luciano Freitas Filho

Professor do Departamento de Letras da UFPE -Membro da Gerência de Direitos Humanos da Secretaria de Educação de Pernambuco -Vice-presidente da ONG Movimento Gay Leões do Norte -Filiado ao PSB-Pernambuco

 

 

 


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