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Mário de Andrade e o Amor que não
ousava dizer o seu nome
Ex-aluno dos maristas, congregado mariano por anos seguidos, cristão até morrer, Mário assemelha-se ao Apóstolo Paulo quando reclamava do incômodo "espinho na carne", ambos massacrados pela cruel homofobia dominante em nosso mundo judaico-cristão: "Há um indivíduo infame, diabólico, que carrego toda a vida comigo... Há um lado hediondo em meu caráter. Sou um vulcão de complicações!" E outra ocasião completava: "Há um elemento delicado de tratar mas que tem uma importânciadecisória em minha fromação: a minha assombrosa, quase absurda e monstruosa sexualidade. Descobri que podia ter relações com uma árvore e com seres humanos de ambos os sexos." (1) Dizem que teve oito paixões platônicas por diferentes mulheres, permanecendo solteirão a vida inteira. Em carta a Sérgio Millet dizia: "Já sei de minha reputação de pederasta. Não me surpreende. Será a celebridade que se aproxima? Eis-me elevado à turva e apetitosa dúvida que doira a reputação de Rimbaud, Verlaine, Shakespeare, Miguel Angelo e Da Vinci" - todos reconhecidos pelos estudiosos como igualmente praticantes dos amores unissexuais.
Desde menino, Mário sentiu-se atraído pelo mesmo sexo: em
seu conto "Frederico Paciência" descreve sua "amizade
particular" com os adolescente carioca, paixão terna e duradoura,
entremeada de cenas de ciúme, troca de carícias e beijos
furtivos, motivo inclusive de comentários maliciosos pelos colegas
do ginásio. (2) É sobretudo nalguns poemas e registros de seus contemporâneos - enquanto não temos sucesso à sua decantada correspondência particular - que nos baseamos para confirmar o homoerotismo do autor de Macunaíma. No poema "Cabo Machado", de 1922, o escritor não poupaelogios à beleza andrógina do atraente militar: "Cabo Machado é cor de jambo... é moço bonito... olha dengoso pros lados... delicado e gentil... doce como mel e polido que nem maga-rosa..." (4) Como
muitos homossexuais pelo mundo afora, Mário de Andrade parece ter
desenvolvido certo fetichismo vis-a-vis os militares, tanto que, inquirido
sobre música poe um amigo, teria respondido: Para mim, ñão
existe música mais bonita do que o ruído do cinto de um
fuzileiro naval batendo na cadeira de um quarto de hotel da praça
Mauá!" (5) Opinião um tanto exagerada para um musicólogo... O outro poema é de 1931: "Girassol da Madrugada", dedicado a um misterioso "R.G." a quem o editor Manuel Bandeira suprimiu o nome completo: o famigerado "complô do silêncio" contra a homossexualidade! "não abandonarei jamais de noite as tuas carícias... Teu dedo curioso me segue lento no rosto/ Os sulcos, as sombras machucadas por onde a vida passou... Tive quatro amores eternos/ O primeiro era a moça donzela/ O segundo... eclipse, boi que fala, cataclisma/ O terceiro era rica senhora/ O quarto és tu... E eu afinal repousei dos meus cuidados... Para nós é a sonolenta noite que nasce detrás das carícias esparsas/Flor!Flor!Graça dourada!Flor..." (7) Coincidemente, no mesmo ano que Mário dedicava ao misterioso R.G. tão delicado poema, segredava noutra crônica: "É por causa de meu engraxate que ando agora em plena desolação, meu engraxate me deixou!" (8) Seriam uma só pessoa o "Girassol da Madrugada" e o tal engraxate? Devemos a seu maior amigo, depois inimigo irreconciliável, Oswald de Andrade, algumas inconfidências sobre a homossexualidade de nosso grande intelectual: depois de brigados, certa feita assinou um artigo com o pseudônimo de "Cabo Machado", para ridicularizar a espontaneidade do poeta em cantar loas a seu ganimedes fardado; outra vez, declarou com maldade que "Mário de Andrade é muito parecido pelas costas com Oscar Wilde" - associando nosso poeta tupiniquim ao príncipe dos pederastas da época Vitoriana; e, finalmente, Oswald apelidou Mário de "Miss São Paulo em masculino", certamente ridicularizando o ex-amigo pelo seu dandismo e face embranquecida pelo pó-de-arroz. (9)
Ultimamente, alguns autores contemporâneos de Mário de Andrade
voltaram a tratar desse assunto tabu - geralmente escamoteado ou omitido
pela maior parte de seus estudiosos, inclusive por Têle P. A. Lopez.
Em seu livro "Mário de Andrade - Exílio no Rio",
Moacyr Werneck Castro conclui que "na raiz do drama existencial do
escritor jaz a angústia da sexualidade reprimida e transformada
em difusa pansexualidade." Antônio Cândido, por sua vez,
que conviveu com os dois Andrades, tocou de forma indireta - e sutil -
no tema: "O Mário de Andrade era um caso muito complicado,
era um bissexual, provavelmente... Ele tinha uma sensibilidade homossexual,
isto é fora de dúvida, ve-se pela obra dele." (10) Em São Pauloe no Rio de Janeiro, à época em que Mário viveu, embora já não fosse mais crime a prática do homossexualismo, os "pederastas" eram perseguidos pela polícia e discriminados com violência, daí o drama vivido por "Miss São Paulo em masculino", temeroso do opóbrio e execração popular, sempre camuflado este flanco com receio de chantagens, chacotas ou agressões. Alguns anos antes de morrer, este "vulcão de complicações" segredava numa carta a um amigo: "Ando bebendo muito para esquecer, que mal? Nãi sei. Não
sei o que é que eu tenho, ou que não tenho. É um
grande mal vagarento, um grande desgosto escuro... (11) Com certeza, seu
mal era a homofobia própria e a dos outros: "o amor que não
ousava dizer o nome..." |
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