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Mário de Andrade e o Amor que não ousava dizer o seu nome
Luiz Mott


Não foi em seu aniversário comemorativo dos cem anos de nascimento (09.10.93) que Mário de Andrade se deu inteiro ao conhecimento do público - mas só em 1995, cinquenta anos após sua morte, quando suas cartas íntimas serão acessíveis à posteridade. Com toda a certeza, aí então será definitivamente confirmado o que desde quando era menino já se comentava, depois de adulto se reforçava e uma série de evidêcias pinçadas em suas obras, cartas avulsas e comentáriosde contemporâneos sugeriam: que Mário de Andrade fora praticamente do homoerotismo. De propósito evitei rotulá-lo de "homossexal", pois tudo leva a crer que estava sendo honesto ao rotular-se adepto do "pansexualismo", adequando-lhe mais a categoria freudiana de "perverso polimorfo" do que o "número 6" da célebre escala de Kinsey.

Ex-aluno dos maristas, congregado mariano por anos seguidos, cristão até morrer, Mário assemelha-se ao Apóstolo Paulo quando reclamava do incômodo "espinho na carne", ambos massacrados pela cruel homofobia dominante em nosso mundo judaico-cristão: "Há um indivíduo infame, diabólico, que carrego toda a vida comigo... Há um lado hediondo em meu caráter. Sou um vulcão de complicações!" E outra ocasião completava: "Há um elemento delicado de tratar mas que tem uma importânciadecisória em minha fromação: a minha assombrosa, quase absurda e monstruosa sexualidade. Descobri que podia ter relações com uma árvore e com seres humanos de ambos os sexos." (1)

Dizem que teve oito paixões platônicas por diferentes mulheres, permanecendo solteirão a vida inteira. Em carta a Sérgio Millet dizia: "Já sei de minha reputação de pederasta. Não me surpreende. Será a celebridade que se aproxima? Eis-me elevado à turva e apetitosa dúvida que doira a reputação de Rimbaud, Verlaine, Shakespeare, Miguel Angelo e Da Vinci" - todos reconhecidos pelos estudiosos como igualmente praticantes dos amores unissexuais.

Desde menino, Mário sentiu-se atraído pelo mesmo sexo: em seu conto "Frederico Paciência" descreve sua "amizade particular" com os adolescente carioca, paixão terna e duradoura, entremeada de cenas de ciúme, troca de carícias e beijos furtivos, motivo inclusive de comentários maliciosos pelos colegas do ginásio. (2)
Já adulto, o escritor assumia o esteréotipo do dandy-almofadinha, com seus ternos impecáveis de camisinha inglesa e linho branco, pó-de-arroz no rosto para atenuar o tom amulatado da pele, herança de seu lado materno. Como outros homossexuais da "Paulicéia Desvairada", além de "experimentar drogas com interesse apaixonado" - sobretudo éter e cocaína - era figura constante no gueto gay. Segundo um produtor musical da época, "Mário de Andrade frequentava pontos de prostituição masculina em São Paulo e um mictório público na Praça da República era conhecido como "marinho", em referência ao escritor" (3)

É sobretudo nalguns poemas e registros de seus contemporâneos - enquanto não temos sucesso à sua decantada correspondência particular - que nos baseamos para confirmar o homoerotismo do autor de Macunaíma. No poema "Cabo Machado", de 1922, o escritor não poupaelogios à beleza andrógina do atraente militar: "Cabo Machado é cor de jambo... é moço bonito... olha dengoso pros lados... delicado e gentil... doce como mel e polido que nem maga-rosa..." (4)

Como muitos homossexuais pelo mundo afora, Mário de Andrade parece ter desenvolvido certo fetichismo vis-a-vis os militares, tanto que, inquirido sobre música poe um amigo, teria respondido: Para mim, ñão existe música mais bonita do que o ruído do cinto de um fuzileiro naval batendo na cadeira de um quarto de hotel da praça Mauá!" (5) Opinião um tanto exagerada para um musicólogo...
Dois de seus poemas são particularmente prenhes de homosensualidade: um Soneto de dezembro de 1937, onde repete a mesma paixão pederástica de Sócrates por um Alcebíades adolescente: "Aceitarás o amor como eu o encaro? (...) Tudo o que há de melhor e de mais raro/ Vive em teu corpo nu de adolescente/ A perna assim jogada e o braço, o claro/ Olhar preso no meu, perdidamente (...) Que grandeza... A evasão total do pejo/ Que nasce das imperfeições. O encanto/ Que nasce das adorações serenas." (6)

O outro poema é de 1931: "Girassol da Madrugada", dedicado a um misterioso "R.G." a quem o editor Manuel Bandeira suprimiu o nome completo: o famigerado "complô do silêncio" contra a homossexualidade! "não abandonarei jamais de noite as tuas carícias... Teu dedo curioso me segue lento no rosto/ Os sulcos, as sombras machucadas por onde a vida passou... Tive quatro amores eternos/ O primeiro era a moça donzela/ O segundo... eclipse, boi que fala, cataclisma/ O terceiro era rica senhora/ O quarto és tu... E eu afinal repousei dos meus cuidados... Para nós é a sonolenta noite que nasce detrás das carícias esparsas/Flor!Flor!Graça dourada!Flor..." (7)

Coincidemente, no mesmo ano que Mário dedicava ao misterioso R.G. tão delicado poema, segredava noutra crônica: "É por causa de meu engraxate que ando agora em plena desolação, meu engraxate me deixou!" (8) Seriam uma só pessoa o "Girassol da Madrugada" e o tal engraxate?

Devemos a seu maior amigo, depois inimigo irreconciliável, Oswald de Andrade, algumas inconfidências sobre a homossexualidade de nosso grande intelectual: depois de brigados, certa feita assinou um artigo com o pseudônimo de "Cabo Machado", para ridicularizar a espontaneidade do poeta em cantar loas a seu ganimedes fardado; outra vez, declarou com maldade que "Mário de Andrade é muito parecido pelas costas com Oscar Wilde" - associando nosso poeta tupiniquim ao príncipe dos pederastas da época Vitoriana; e, finalmente, Oswald apelidou Mário de "Miss São Paulo em masculino", certamente ridicularizando o ex-amigo pelo seu dandismo e face embranquecida pelo pó-de-arroz. (9)

Ultimamente, alguns autores contemporâneos de Mário de Andrade voltaram a tratar desse assunto tabu - geralmente escamoteado ou omitido pela maior parte de seus estudiosos, inclusive por Têle P. A. Lopez. Em seu livro "Mário de Andrade - Exílio no Rio", Moacyr Werneck Castro conclui que "na raiz do drama existencial do escritor jaz a angústia da sexualidade reprimida e transformada em difusa pansexualidade." Antônio Cândido, por sua vez, que conviveu com os dois Andrades, tocou de forma indireta - e sutil - no tema: "O Mário de Andrade era um caso muito complicado, era um bissexual, provavelmente... Ele tinha uma sensibilidade homossexual, isto é fora de dúvida, ve-se pela obra dele." (10)
Mário de Andrade tinha 7 anos quando chegou ao Brasil a notícia que o polêmico Oscar Wilde - preso e condenado a trabalhos forçados pelo crime de ser homossexual - havia morrido.

Em São Pauloe no Rio de Janeiro, à época em que Mário viveu, embora já não fosse mais crime a prática do homossexualismo, os "pederastas" eram perseguidos pela polícia e discriminados com violência, daí o drama vivido por "Miss São Paulo em masculino", temeroso do opóbrio e execração popular, sempre camuflado este flanco com receio de chantagens, chacotas ou agressões. Alguns anos antes de morrer, este "vulcão de complicações" segredava numa carta a um amigo: "Ando bebendo muito para esquecer, que mal? Nãi sei.

Não sei o que é que eu tenho, ou que não tenho. É um grande mal vagarento, um grande desgosto escuro... (11) Com certeza, seu mal era a homofobia própria e a dos outros: "o amor que não ousava dizer o nome..."
1 - "Vida de Mário de Andrade foi um vulcão de complicações", José G. Couto e M.C. Carvalho, Folha de São Paulo, 26.09.93, "100 Anos de Mário de Andrade".
2 - Mário de Andrade: Contos Novos, S.Paulo, Martins Editora, 1947, "Frederico Paciência"
3 - "Homossexualismo e Macunaíma", O Globo, 14.03.1993, 2* Caderno, p. 1
4 - "Cabo Machado", in Losango Cáqui, Poesias, S.Paulo, Livraria Martins Editora, 1941:58
5 - Trevisan, J.S. Devassos no Paraíso, S.Paulo, Max Limonade, 1986:153
6 - "Soneto", in Grã Cão de Outubro, Poesias, 1941:246
7 - "Girassol da Madrugada", in Livro Azul, Poesias, 1941:267
8 - Trevisan, Op. Cit. p. 153
9 - "Entre os dois Andrades houve amor e desunião", Humberto Werneck, Folha de São Paulo, 26.09.93 p. 7
10 - "Cândido escreve a Mário", Antônio Cândido, Folha de São Paulo, 26.09.93, p. 2
11 - "Inojosa lembra o amigo Mário de Andrade", O Estado de São Paulo, 9.10.83

 


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