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Prevenção da transmissão do
HIV em práticas sadomasoquistas
Luiz Mott,
fundador do GGB
UFBa/GGB
Apresentação
Um assunto periférico tornou-se a maior sensação
e capa dos principais jornais e revistas do Brasil no último carnaval:
Tiazinha, uma jovem seminua, com sua máscara preta e chicotinho
de couro, pratica pequenas torturas em rapazes num programa de televisão.
Uma recente charge na Folha de S.Paulo mostrou o próprio Presidente
da República travestido como a sensual Tiazinha. A estética
e a postura sadomasoquista, tomaram conta do imaginário nacional.
A sugestão de pauta sobre “prevenção da transmissão
do HIV em práticas sadomasoquistas é bem anterior ao sucesso
dessa “estrela SM” e embora de antemão já atencipe
que o SM é uma área periférica dentro da cultura
sexual brasileira, não deixa de ser oportuno dedicar 30 minutos
de discussão sobre este tema – antes insólito e hoje
tornado corriqueiro devido à televisão.
Antropologia
da Sexualidade - Diferentemente do que ocorre entre os animais
irracionais, cuja sexualidade é determinada pelo instinto, entre
os humanos, a performance sexual é uma construção
cultural, variando de comunidade para comunidade e modificando-se ao longo
do tempo dentro de uma própria sociedade. Como ensinaram e comprovaram
as antropólogas Ruth Benedict e Margaret Mead, há povos
mais dionisíacos, com uma cultura sexual bastante exuberante, outros
mais apolíneos, sexualmente mais reprimidos. Cada povo e cada época
classifica alguns atos sexuais como aceitáveis ou virtuosos, relegando
outros para a categoria de pecado, crime, perversão, desvio. A
pederastia, conduta virtuosa defendida e praticada por Sócrates
e Platão, hoje leva seus praticantes à cadeia, com direito
a pena de morte por linchamento. O SM, até pouco só tratado
em rodas de “sacanagem” e “catecismos” ultra secretas,
hoje tem uma modelo em programas juvenis de tv e está à
disposição em centenas de páginas da Internet. Ainda
como introdução nunca é demais lembrar o caráter
“amoral” ou neutro da sexualidade humana, posto que cada religião
ou código moral determinará, em base absolutamente subjetivas
e às vezes cruéis, o que é lícito ou pecaminoso:
há deuses que permitem a poligamia, outros a poliandria, outros
que ordenam a mutilação sexual das donzelas, outros que
só aplacavam sua ira com o sacrifício de virgens. Portanto,
como muito bem sintetizou a sexóloga Marta Suplicy, “falar
de normal ou anormal em relação ao sexo é difícil.
Os estudos na área da sexualidade têm mostrado, cada vez
mais, que o comportamento sexual é relativo. Depende da cultura,
da época e do conceito de normalidade de quem o pratica. Dependendo
também do ângulo sob o qual o conceito seja analisado, o
social, o biológico, o mental ou o ético, o conceito de
normal difere.” (Martha Suplicy, Conversando sobre Sexo, l983, Ed.da
Autora, p.287)
E à guisa de ilustração, que tal lembrarmos de alguns
de nossos respeitáveis heróis nacionais que foram pouco
convencionais quanto a suas preferências sexuais: o carrancudo Duque
de Caxias é famoso por colocar um chumaço de pentelhos nas
cartas que enviava para sua amante; D.Pedro I, que teve filhos naturais
e muitas amantes do bas-fond carioca, dizia numa das cartas para a Marqueza
de Santos de sua pérola matinal – eufemismo relativo à
secreção provocado por uma gonorréia crônica;
o brigadeiro Couto de Magalhães, amigo pessoal do Imperador e herói
da Guerra do Paraguai, descreve em seu diário – em tupi-guarani,
picantes sonhos homoeróticos. O próprio Dr. Vicente Amato
contou-nos, no corredor, uma piada lembrando que o copo do cafezinho quente
é o pior inimigo dos velhos pois queima os principais órgãos
sexuais da terceira idade: o dedo e a língua...
Definição:
O Dicionário Aurélio é bastante conciso em sua definição
de sadomasoquismo:
Sadismo
[Do fr. sadisme.]
Perversão sexual em que a satisfação erótica
advém de atos de violência ou crueldade física ou
moral infligidos ao parceiro sexual; algolagnia ativa.
Masoquismo
[Do fr. masochisme < antr. Masoch, de Leopold Sacher Masoch, romancista
austríaco (1836-1895).]
Perversão sexual em que a pessoa só tem prazer ao ser maltratada
física ou moralmente; algolagnia passiva
Sadomasoquismo
[De sad(ismo) + -o- + masoquismo.]
Perversão sexual que consiste na conjugação do sadismo
e do masoquismo.
Define-se
portanto sadomasoquismo como a procura de provocar ou procurar a dor com
vistas a gratificação erótica. Também elementos
não físicos, como abuso verbal, a humilhação
muitas vezes satisfazem tais fantasias, incluindo o desempenho de uma
rede de relações de dominação e submissão.
SM difere da mera crueldade na medida em que de forma expressa ou implícita
implica numa decisão consensual: os parceiros definem os limites
que não podem ser transgredidos. Mesmo nas relações
amorosas ordinárias há componentes de SM, como as penetrações
mais violentas, os chupões que deixam leves hematomas no pescoço
e outras partes do corpo, as mordidas, os amassos, etc. Nas relações
SM contudo, se acrescentam a estes atos amorosos uma cadeia de atividades
específicas desta subcultura, que incluem um continuum de ternura
aos mais elaborados rituais de “tortura”.
Teorias:
O termo Sadismo tem origem no marquês de Sade (1740-1814), cujos
livros associam a provocação da dor a obtenção
do prazer por parte de parceiro ativo. Masoquismo deriva dos escritos
do alemão Sacher-Masoch (1836-1895), que descreveu os elementos
de humilhação experenciados pelo parceiro passivo, notadamente
na novela Vênus na Pele, na qual a personagem Wanda e Gregor são
parceiros ativos e passivos na flagelação. Foi o sexólogo
Krafft-Ebing que em seu célebre Psychopatia Sexualis (1886) criou
e analisou os conceitos sadismo e masoquismo como patologia. Estudos mostram
que existe muitas vezes uma troca de papeis, os S tornando-se M e os M
desempenhando fantasias de S.
Culturalmente
a prática SM surge como uma espécie de comentário
ao padrão de dominação-submissão imposto pelos
papéis de gênero nas sociedades industriais. A inversão
do papel da mulher na interação erótica, de socialmente
submissa a dominadora, é uma foram de reverter a ordem patriarcal
e conferir temporária e simbolicamente, o poder ao polo oprimido.
O uso de
correntes, algemas, objetos de couro, uniformes, botas, máscaras,
etc fazem parte do maior ou menor fetichismo dos participantes, incluindo
elementos de teatralização que sobretudo na subcultura gay,
podem extrapolar a alcova, assumindo o indivíduo um estilo de vestir-se
e agir SM ou “leather”. Como toda subcultura a SM implica
também em fases ou estágios, uma carreira que implica numa
iniciação e aprimoramento com o tempo.
Fazem parte
das práticas sadomasoquistas a flagelação, bondage,
abuso verbal, teatralização, tortura genital, cera quente,
piercing, esportes aquáticos, como banho de urina ou forçar
o M a engolir urina ou fezes. Dependendo da relacionamento, tais atos
podem ser vistos como um presente, uma humilhação ou degradação.
Fisting ou fistfucking tornou-se menos comum depois da divulgação
das técnicas de safe-sex, embora não seja um ato essencialmente
SM, dependendo das intenções e atitudes dos parceiros.
Como outras
subculturas, os SM também tem seus espaços de socialização
sobretudo nos USA e Europa do Norte, Leathers-Bars, com posters de motos
e motoqueiros, com gravuras do artista gráfico Tom da Finlandia.
Estudos sociológicos
mostram que os adeptos da SM nos USA provêm sobretudo de antepassados
da Europa do Norte, mais do que da área mediterrânea ou africana,
e diferentemente do imaginário popular que os associa ao universo
nazi, os SM demostram tendências políticas mais liberais,
de classe média e instrução mais elevada, atraindo
mais homens de meia idade do que jovens.
Existe certa
analogia das práticas SM com o costume de certas sociedades tribais
onde os guerreiros devem se submeter a diversas provas de dor antes de
ser admitidos a elite militar/social. Na Grécia antiga os rituais
de Afrodite incluíam flagelação erótica. Os
romanos se deliciavam ao assistir os gladiadores se golpearem ou os criminosos
serem devorados pelos leões na arena. O mártir São
Sebastião é pintado na Renascença como se estivesse
sentindo prazer das flechadas. No Cristianismo, a auto-flagelação
(disciplina) e os sacrifícios têm um componente masoquista.
A erotização da tortura – o espancamento de crianças
e estudantes ou nos porões da repressão podem conter igualmente
um caráter sádico/erótico. (Encyclopedia of Homosexuality,
Dynes, Wayne. NY, Garland, l990)
Práticas
SM e Prevenção de HIV/DST
Este levantamento
de práticas sadomasoquistas foram resumidas a partir do livreto
Safe Sex for Leather Men – a publicação do gênero
de maior circulação na Europa, publicado originalmente na
Holanda em 1995, pela National Comittee on Aids Control em associação
com Stuurgroep Aidspreventie Homo’s /COC , traduzido e publicado
na Suiça em l996 foi pela Aide Suisse contre le Sida e na França
pela Association Aides-Provence com o título Hard Safer Sex Gay.
A primeira
regra do SM é que os praticantes desta fantasias sexuais devem
ser responsáveis consigo próprios e com os parceiros, somente
praticando tais atos entre adultos com consentimento. “Se você
tem reservas em relação a certas práticas SM, evite
praticá-las”.
Além
dos tradicionais sexo anal e sexo oral, são relacionados as seguintes
práticas identificadas como parte da subcultura SM, apontando-se
o grau de risco de transmissão de DST/HIV:
1. SM: os parceiros devem estabelecer previamente os limites do jogo.
Esperma, secreção vaginal e sangue sobre pele danificada
e nas mucosas oferecem risco de transmissão do HIV. Jogos psicológicos
não apresentam risco, por exemplo relação mestre/escravo;
oficial/recruta; cavaleiro/cavalo; patroa/empregada; cenas de humilhação,
submissão,etc.
2. Amarrar o parceiro, (bondages) desde que não provoque escoriações,
não oferece risco;
3. Apertar e chupar o bico do peito não oferece risco desde que
não haja sangramento;
4. Chicotear: desde que não haja sangramento ou lesão da
pele não oferece risco;
5. Eletro: torturas leves com choques não oferecem risco desde
que as correntes elétricas não provoquem ferimentos ou queimaduras;
6. Cera: cera quente no peito, glande, ânus podem provocar dor/prazer
sem risco, desde que não causem queimaduras que danifiquem a pele;
7. Fist Fucking: (penetrar a mão/braço no ânus) exige
muita calma, tempo, toneladas de lubrificante e uma relação
de confiança real entre os parceiros. Não deve ser feito
em locais inseguros e com qualquer pessoa. Se a mão não
tem ferimentos, não há risco de transmissão do HIV.
A luva de látex protege contra este risco eventual e deve ser usada
apenas uma vez – nas sex shops há luvas maios apropriadas
que cobrem parte do braço. Não se deve fazer FF com mais
de uma pessoa ao mesmo tempo, mesmo lavando a mão, pois provoca
um enfraquecimento da proteção cutânea. Se usou um
lubrificante à base de óleo para o FF, deve-se evitar em
seguida o coito anal pois danificará o preservativo. As mucosas
anal e retal após o FF ficam extremamente irritada e receptivas
à eventual infecção pelo HIV. É aconselhável
usar o preservativo durante o FF ao manipular o pênis para evitar
contaminação entre o anus e o pênis;
8. Drogas: poppers, álcool: diminuem a consciência e a responsabilidade
do sexo seguro. Nunca compartilhar seringas e agulhas.
9. Urinar no parceiro: “chuva dourada” sobre a pele sã
não oferece risco; evitar urina na boca e no anus – sobretudo
se houve ejaculação pouco antes;
10. Fezes: (“scato”) – fezes não oferecem risco
de infecção pelo HIV em contato com a pele intacta, mas
há risco de hepatite e contaminação por outros microorganismos;
11. Muco, escarro: inofensivo desde que não haja sangue;
12. Duchas anais (lavagem): deve-se evitar o uso de produtos químicos;
verificar que os tubos e outros objetos destinados a penetrar na via retal
não causem ferimentos ou lesões; que estes objetos estejam
perfeitamente limpos e desinfetados quando usados por mais de uma pessoa.
As lavagens destroem numerosas bactérias úteis e necessárias
à digestão, podendo causar micro-lesões e funcionar
como portas de entrada para vírus. Fazer lavagem com produtos desinfetantes
após uma relação sem preservativo provoca irritação
da mucosa anal e aumenta o risco de infecção pelo HIV.
13. Anilíngua: beijo negro, cunete. Risco fraco de transmissão
de HIV. Deve-se evitar o contacto boca-ânus após a penetração,
fist fucking ou em caso de lesões anais (hemorroidas, irritações,
etc). Germes e parasitas podem ser transmitidos pelo contacto oro-anal
(hepatite);
14. Fetichismo com roupas de borracha não oferece nenhum risco
15. Catéter: jamais introduzir nas vias urinárias outros
objetos a não ser catéter esterilizado. Sempre utilizar
o preservativo para chupar um pênis após ter praticado penetração
uretral;
16. Alargamento do ânus: nas casas de ferramentas médicas
e sex shops são vendidos speculum para abrir o diâmetro anal.
Tais instrumentos devem ser cuidadosamente lavados e desinfetados ao serem
utilizados;
17. Piercing: furar o bico do peito, abaixo da glande, prepúcio,
umbigo, para colocar argolas ou pequenas barras de metal. Higiene rigorosa
das mãos e das partes a serem tratadas, utilizando-se metais adequados
para evitar irritação; preferir os serviços de um
médico especializado. Cuidado especial com a parte perfurada até
sua perfeita cicatrização, evitando-se o contacto do piercing
com esperma ou sangue;
18. Jogo de agulhas: usar agulhas esterilizadas e descartáveis,
cuidando que o esperma e o sangue não caia sobre as lesões
da pele;
19. Tatuagem: procurar um bom especialista, com material esterilizado
ou descartável.
20. Raspagem dos pentelhos e pelos do anus: se a raspagem faz parte de
um jogo sexual, cuidado com as lesões, evitando-se todo contacto
da superfície raspada com o esperma ou sangue, seja diretamente,
seja através das mãos. Para cada raspagem, usar gilete nova,
descartável e individual;
21. Consolos: utilizar bastante lubrificante, melhor cobrir com camisinha,
substituindo-a a cada nova utilização. Dar preferência
a falos que não ofereçam risco de penetrar no ânus
a dentro;
22. Acessórios de metal e couro: pinças paras apertar o
bico do peito e anel de pênis (cock ring) devem ser fervidos ou
limpos com álccol a 70º antes de cada nova utilização.
Objetos de couro e borracha (como chicotes, luvas, máscaras, etc)
se entraram em contacto come esperma ou sangue, devem ser limpados com
desinfetante. Após passar um pano úmido com desinfetante,
enxaguar e deixar secar ao menos 24 horas. Os acessórios aplicados
dentro de cavidades devem ser individuais, cada parceiro possuindo com
exclusividade sua própria coleção;
23. Regras de higiene: Processo a ser seguido com objetos usados pelos
SM: Lavar, desinfetar, enxaguar, secar. Todos os objetos devem ser cuidadosamente
lavados com água, sabão ou detergente após cada utilização.
Desinfeção: ferver ao menos 5 minutos tais objetos. Objetos
que não suportam fervura devem ser mergulhados em desinfetantes:
álcool a 70o por 5 minutos, em recipiente fechado; água
oxigenada a 10 volumes, 5 minutos; hipoclorito de sódio, 20minutos.
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