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REQUIEM PARA MICHELLE DO GGB-ATRAS (Salvador, 1963-2005) Luiz Mott, fundador do GGB
Pessoa doce e delicada, trazia cicatrizes no rosto resultado da violência de um ex-marido ciumento. Vivia há anos com seu companheiro Emanuel, um igualmente doce e simpático jovem que está desconsolado, embora contando com todo apoio do GGB para que sejam reconhecidos seus direitos de parceria. Adorava animais e plantas. Viveu alguns meses na Itália, tendo viajado para a Suíça nos últimos anos, para levar para sua irmã um sobrinho que criava. Na juventude sofreu muita discriminação familiar, inclusive violência física, mas nos últimos anos convivia pacificamente com os pais e irmãs. Michelle embora tenha feito diversas palestras e falas em colégios, encontros e seminários, igualmente participado de vários Entlaids e encontros do MHB, seu forte era mais a parte humanitária e assistencial de apoio às travestis em situação aflitiva, seja enfrentando delegados e policiais para defender os direitos de cidadania das trans, seja intermediando conflitos com algumas cafetinas mais mafiosas, seja ainda orientando as bombadeiras em como evitar riscos na aplicação de silicone. Durante anos distribuiu semanalmente preservativos e folhetos nos “cinemas de pegação” de Salvador, visitando regularmente as trans soropositivas internadas nos Hospitais e na CAASA. Foi coordenadora da ATRAS desde sua fundação em 1995, dirigindo semanalmente as reuniões do grupo na sede do GGB. No livreto Violência doméstica entre casais homossexuais, publicado pela Editora GGB em 2003, consta um pequeno episódio de sua biografia: “As cicatrizes no rosto de Mary: Durante cinco anos a jovem e ruiva travesti Mary viveu com Pedrão, numa relação do tipo marido e mulher. Ciumento, Pedrão ficava invocado toda vez que Mary saía sozinha na rua, e ao voltar, cheirava sua calcinha, desconfiando que tivesse transado com outro homem. Algumas discussões terminavam em tapas e murros, Mary suportando as agressões por gostar muito do marido. Certa vez, bêbado, Pedrão lhe deu um tiro que atravessou sua perna de lado a lado. Embora tendo medo do amante, não conseguia viver sem ele. Num carnaval, ao encontrar na bolsa de Mary algumas camisinhas que ela tinha recebido na rua, Pedrão enfurecido, bateu com toda força a cabeça da travesti num espelho, cortando todo seu rosto: perdeu muito sangue, 20 pontos e cicatrizes horríveis que até hoje guarda como triste lembrança. Deu parte na delegacia e terminou o casamento. Passados mais de 8 anos desta tragédia, somente há dois anos Mary conseguiu esquecer de vez de Pedrão, o maior – e pior! - amor de sua vida.” Eis alguns destaques do ativismo de Michelle Marry registrados nos livros do GGB no tocante à “travestifobia”. TRAVESTI DISCRIMINADO
EM HOSPITAL, MORRE EM SALVADOR CLIENTE AMEAÇA
TRAVESTI EM SALVADOR DELEGADA É
ACUSADA DE AGREDIR TRAVESTIS EM SALVADOR PRESIDENTE DA ATRAS
É PRESA AO FAZER PREVENÇÃO DA AIDS
Com a palavra a Presidenta
da Atras, a veterana Michelle Marry “A que lugar vamos chegar com toda esta desordem em nosso país por parte dos nossos governantes? Muitas vezes, sem que percebamos, isto acaba nos atingindo. A sociedade nos chama de bichas, de ladras, de maconheiras. Somos vítimas mais freqüentes destes insultos, porque somos mais visíveis que heterossexuais e mesmo homossexuais. Nós somos obrigadas, por circunstância da nossa vida, a correr perigo na vida sexual e profissional, pois, quando uma profissional do sexo entra em um carro, sua vida está em jogo. Muitos clientes que saem para “dar uma” com as travestis não gostam de sexo seguro. Eles falam que o plástico atrapalha e que usar camisinha é como chupar bala com papel. Existem também aqueles que saem para se divertir, buscando diversão no sofrimento de quem está na noite . Depois de passar a noite, sentindo frio, ouvindo barbaridade e recebendo “confetes” de latas e garrafas. Uma coisa de que me recordo é de vários deles que passavam e diziam: “Vai ter baba hoje”. Eu logo respondia que a mãe dele era a goleira. Isto não é nada, o pior são os que nos tiram o que, com sofrimento, conseguimos juntar nesta noite. Não é
toda a noite que se ganha bem, o que é uma pena. “No escurinho do cinema” é o título de um trabalho que estarei apresentando em Maceió no mês de outubro, no IX Encontro de Gays, Lérbicas, Travestis e Transexuais. Venho desenvolvendo este trabalho de prevenção da AIDS nos cinemas Tupi e Astor em Salvador, onde somos muito bem recebidas pelos gerentes do estabelecimento. Para mim é preocupante que a cota de camisinha repassada para as ONG’s seja, às vezes, insuficiente, já que a população que faz cresceu ou se assumiu mais. A Associação de Travestis de Salvador (ATRAS) está atuando, com êxito, nos casos referentes a problemas em delegacias. Em agosto de 2001, estivemos em duas delegacias para libertar três travestis acusadas de pequenos delitos. Além disso, liberamos mais uma no juizado de menores. Fui também ouvida no Conselho Regional de Medicina da Bahia, acusando um médico que atendeu mal uma travesti no hospital e que no dia seguinte morreu do pulmão. Estou voltando também a atuar nos presídios, lutando e buscando mecanismos legais para aplicar técnicas de sexo seguro nas cadeias, onde infelizmente a população gay e transgênero aumentou. O sistema social cruel não nos dá oportunidade. Mesmo quando temos, em mão, diploma ou certificado, somos obrigadas a ser putas para sobreviver. Algumas caem no cárcere e lá o babado é forte, pois o sexo rola e não é pouco. A ATRAS vai atrás das meninas e meninos que estão na “casa da tia”. Esperamos que as autoridades cooperem, ajudando-nos a realizar mais este trabalho. Beijos e camisinhas, gayrotas. Michelle”
“O SÉCULO
XXI NA VISÃO TRAVESTI Além disso, não há dúvida que o crescimento das DST tem exigido um novo comportamento sexual e impõe novos desafios para a sociedade. A AIDS é um exemplo disso. Depois de sua descoberta, o mundo mudou completamente. Ainda devemos nos cuidar, porque afinal ela ainda não tem cura. No entanto, enquanto o mundo avança e a humanidade acelera os seus passos, muitas de nós, transgêneros, ficamos para trás e aceitamos agir como o retrocesso e a escória da sociedade. Renunciamos a nossa capacidade de pensar para viver o prazer do instinto. Muitas vezes, adotamos o discurso de "coitadinhas" ("a sociedade não deixa isso ou aquilo"), renunciando à luta por um lugar ao sol. Para a maioria, lutar por seus direitos significa viver disputando com as companheiras por um espaço nas ruas, morando nos porões da cidade e vivendo de uma das mais antigas profissões. Neste plano, existem até disputas internacionais. No entanto, acabamos sendo manipuladas e incapazes de perceber que somos competentes, pois proporcionamos, grandes sonhos da vida. Atuamos nos palcos das casas noturnas, que dependem de grandes espetáculos. Nas ruas, os homens nos procuram para libertar suas fantasias com homens e mulheres. Com tudo isso, somos alvo das mais vis formas de discriminação. Infelizmente, existem
algumas que não têm princípio e adotam comportamentos
que nada tem a ver como o perfil da verdadeira profissional do sexo, que
está na luta para buscar a subsistência para si e seus dependentes.
Um dos comportamentos deselegantes que se está referindo aqui é
o exibicionismo de algumas travestis nas pistas, que, além de desnecessário,
pode ser enquadrado na lei como atentado ao pudor. O pior é a famosa
portinha, o puxar a chave, seguido de roubo com parceria de outras colegas.
Acabamos desenvolvendo
de escória ou banda podre da sociedade. Isso não é
nada bom, nem bonito. Repito, só temos a perder se continuarmos
a desempenhar esse retrocesso nada ético ou profissional. Se buscamos
direitos que são para todos, temos também que assumir os
deveres. Gostaríamos de poder ouvir muito prazer em conhecê-la,
em vez de lamento muito ter desejado uma travesti.”
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