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"Sou imprescindível" - Parte I (Ou melhor, onde tem Mott tem fogo)

Tatiana Mendonça do Jornal A Tarde

Margarida Neide | Ag. A TARDE - 16.11.08 -

"Bichas baianas, rodem a baiana, tudo bem! Mas deixem de ser alienadas. Vamos fundar um grupo de discussão sobre homossexualidade. Me escrevam!". O anúncio, publicado no Jornal Lampião no final de 1979, tinha como endereço a casa de Luiz Roberto de Barros Mott, paulista de nascimento que desembarcou em Salvador com o firme propósito de se tornar hippie, mas permaneceu professor universitário. Um tapa na cara o levou a escrever para o jornal, fundado em 1978 e marco do início do movimento homossexual no Brasil, que comemora 30 anos. Estava com um namorado vendo o pôr-do-sol do Porto da Barra quando um homem o agrediu. "Foi a primeira vez que sofri uma violência como essa". No dia 29 de fevereiro de 1980, 17 pessoas participaram da primeira reunião do Grupo Gay da Bahia, que apesar de não ser pioneiro, é o mais antigo em atividade na América Latina. Ferrenho opositor da igreja, ninguém diz que até os 18 anos ele queria ser padre. Arraigado defensor de que os homossexuais saiam do armário, foi casado durante cinco anos com uma mulher, mãe de suas duas filhas. Aos 62 anos, Mott fala como quem discursa. É a sina de militante, que ele não pretende abandonar nem na hora da morte, amém. "No túmulo que já comprei no Campo Santo pretendo que seja escrito "Luiz Mott, humanista e uranista. Uranista é um termo do século 19 que é sinônimo de homossexual. Assim vou obrigar as pessoas a irem ao dicionário e evitar possíveis atos de vandalismo".  Confira a entrevista na íntegra

_Você participou do grupo "Somos", em São Paulo, e do "Jornal Lampião", que marcam o início do Movimento Homossexual Brasileiro?

Está gravando? Luiz Mott, 62 anos, paulistando de nascimento, cidadão de Salvador, da Bahia, de Piauí, do Sergipe, antropólogo, mestrado em etmologia pela Sorbonne, em Paris, e doutorado em antropologia pela Unicamp. Eu vim para a Bahia depois de ter vivido uma relação heterossexual durante cinco anos, em Campinas, com duas filhas, aí então em 1978 eu assumi a minha homossexualidade e resolvi mudar para Salvador, fascinado pela beleza da cidade barroca, pelos negros, pelo clima e pelas frutas tropicais. E vim com a intenção de largar a universidade e viver uma vida meio hippie. Vim como professor visitante, e me beneficiei de um decreto de enquadramento, tornando-me professor adjunto. Depois fiz um concurso para professor titular. Em menos de um ano de chegado à Bahia, eu já tinha um namorado baiano, com o qual convivi durante sete anos. Estávamos numa tarde vendo o pôr-do-sol no porto da Barra quando um machão, perceberndo que nós éramos gays - apesar de extremamente discretos -, me deu um tapa na cara, por pura homofobia. Foi a primeira vez na vida em que fui vítima de uma violência. Esse tapa na cara despertou a minha consciência da importância de defender os meus direitos como homossexual. Isso foi em 1979.

_Mas antes você já tinha colaborado com O Lampião, não?
Sim, se não me engano, recém-divorciado, escrevi um pequeno artigo para O Lampião, sobre a homossexualidade entre os índios do Brasil, mas não tinha ainda informação sobre a existência de grupos organizados. Aí a partir desse tapa na cara eu escrevi um anúncio para "O Lampião" que era assim: "Bichas baianas, rodem a baiana, vamos nos organizar. Vamos fundar um grupo homossexual". A partir daí, com a presença 17 pessoas, entre jornalistas, estudantes, professores, fundamos o GGB. Na época já existiam outros grupos, mas com o tempo os mais antigos desapareceram e o GGB se tornou o grupo mais antigo do Brasil e da América do Sul.

_Nesses 30 anos, quais foram as maiores conquistas do Movimento?
O Grupo Gay da Bahia foi pioneiro em muitas conquistas. Foi o primeiro a usar a expressão gay no seu próprio nome, enquanto os outros tinham nomes mais simbólicos, como "Somos", "Um outro olhar"... Nós quisemos incluir uma palavra curta e internacional, gay, como identificador do grupo. O GGB foi pioneiro em ser registrado como sociedade civil, isso causou grande polêmica, o próprio Jornal A TARDE deu grande destaque na época, e também foi pioneiro em ser reconhecido como utilidade pública municipal, e a primeira ONG a iniciar a prevenção da AIDS. A vitória mais importante foi que, em 1985, no mesmo ano em que se publicou na Bahia "Mantenha Salvador limpa, mate uma bicha todo dia", conseguimos mais de 16 mil assinaturas, inclusive de políticos de destaque, como Fernando Henrique Cardoso, para que o Conselho Federal de Medicina excluísse o homossexualismo da classificação internacional de doenças. Então a partir daí nenhuma entidade ou pessoa poderia classificar a homossexualidade como desvio, transtorno, patologia, garantindo os homossexuais ao menos à aspiração à cidadania plena.
Os homossexuais, que hoje preferem ser chamados de LGBT, lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais - colocando o "L" na frente para favorecer a visibilidade das homossexuais femininas -  estão cada vez mais sendo alvo de políticas afirmativas por parte do governo federal. Fernando Henrique Cardoso foi o primeiro presidente da República a incluir num documento oficial a palavra homossexual, em 1996, e em 2002 o primeiro presidente a falar publicamente a palavra homossexual, defendendo a união entre pessoas do mesmo sexo. De lá para cá, no governo Lula, foi aprovado o Programa Brasil sem Homofobia, incluindo 10 ministérios e mais de 100 ações afirmativas, garantindo aos gays não privilégios, mas direitos iguais. Nem menos, nem mais, como é o nosso slogan. Em junho deste ano, em 2008, o presidente Lula esteve presente na I Conferência Nacional do GLBT, em Brasília, onde ele falou contra a hipocrisia. E aí foram aprovadas mais de 300 ações afirmativas que ainda continuam no papel mas que, sendo colocadas em prática, com certeza representarão a Lei Áurea da libertação dos homossexuais. Mentalidade não se muda por decreto, mas havendo leis como a lei contra o racismo, mas a lei contra a homofobia com certeza vai garantir aos homossexuais o amparo legal para sua cidadania plena.

_E como o senhor acha que tem evoluído a representação dos homossexuais na mídia, especialmente na televisão? A Globo, que é a maior rede, ainda não mostra o beijo gay.
Nos últimos trinta anos, a homossexualidade deixou de ser considerada doença, foram aprovadas importantes leis municipais e estaduais garantindo a punição à discriminação, a primeira foi em Salvador, em 1990, iniciativa da então vereadora Beth Wagner. Há essas conquistas, sobretudo no Judiciário, particularmente no Rio Grande do Sul, em Minas Gerais e Salvador, que tem garantido aos casais homossexuais o reconhecimento do direito à herança, direito ao plano de saúde, e o prórprio INSS reconhece a união estável para efeito de benefícios do parceiro viúvo de um homossexual. O Executivo também tem feito certos progressos, na medida em que aprovou o Brasil Sem Homofobia, na Conferência Nacional, infelizmente o Legislativo é o poder que tem sido mais resistente a reconhecer a igualdade dos direitos dos homossexuais, tanto que o projeto de parceria civil da então deputada Marta Suplicy, do PT, é de 1995, e até hoje continua sendo empurrado à barriga pelos deputados, que têm medo que seu eleitorado deixe de votar neles. Temem que a homofobia ainda seja um elemento determinante na escolha de seus candidatos. Se apoiar gays e lésbicas, poderia tirar votos desses candidatos, o que não é comprovado. No geral, há progressos. No nível institucional, legal, da visibilidade. Cada vez mais os gays aparecem nos jornais. Na televisão, as novelas ainda censuram até o beijo gay, quando mostram cenas quase explícitas de sexo entre heterossexuais. As novelas, embora tenham mostrado com mais naturalidade casais gays ou casais de lésbicas, ainda existe muito puritanismo e muita censura no que se refere às relações homoeróticas. A televisão insiste em abusar de caricaturas e estereótipos negativos de homossexuais, principalmente nos programas cômicos, como o de Tom Cavalcanti... Essa imagem do gay ultraefeminado, caricato, palhacinho, explorado também em novelas... Nem os negros, nem os judeus, nem as mulheres são ainda mostrados com tanto preconceito nem tanta estereotipia como os homossexuais. Agora na mídia impressa houve um progresso, na medida em que não mais se usa termos pejorativos, como viado, fresco, boneca, sapatão, que até os anos 80, 90, apareciam em manchetes de jornais de menor expressão. Mas a imprensa ainda está mais interessada em noticiar escândalos ou exotismos... Por exemplo, nas imagens das paradas pelo Brasil a fora, as imagens quase sempre são de drag queens ou transformistas, e poucas vezes imagens de casais de lésbicas ou um casal de gays "normal". E a imprensa ainda privilegia muito episódios burlescos ou exóticos do exterior, como concursos de travestis na Tailândia, assuntos que não têm absolutamente nenhum interesse para a libertação e a cidadania homossexual, e deixa de noticiar muitas vezes reuniões importantes ou congressos do movimento homossexual, ou denúncias sobre assassinatos de homossexuais. No geral, considero que a imprensa melhorou, mas ainda persiste a intolerância no que se refere ao uso do feminino para as travestis e transsexuais. Há mais de uma década elas querem ser chamadas no feminino, já que socialmente o papel de gênero é de mulher. Mesmo que os dicionários da língua portuguesa, o Aurélio e o Houaiss, ainda tragam o artigo no masculino, é uma reivindicação dessa categoria que sejam tratadas no feminino, o que se tornou ainda mais problemático em Salvador com a eleição de uma transsexual vereadora, que quer ser chamada no feminino.

_Pelo que se acompanha do noticiário internacional, tem-se a impressão de que hoje a união estável, o casamento, é a principal bandeira dos gays. Essa percepção está de acordo com o que é a luta do movimento hoje?
De fato, embora o primeiro projeto apresentado no Congresso Nacional se refira à parceria civil entre pessoas do mesmo sexo, há uma dezena de projetos em andamento e pessoalmente considero que o mais importante e urgente é o projeto de Lei que criminaliza a homofobia, equiparando-a ao crime do racismo. É absolutamente inaceitável, injusto e cruel que insultar um negro na rua ou discriminá-lo implique em crime inafiançável e o mesmo insulto ou discriminação praticado contra uma lésbica, um gay ou um travesti não signifique nada. Nós queremos como prioridade que esse projeto, que já foi aprovado na Câmara dos Deputados e que aguarda a aprovação no Senado, e que conta com a oposição dos fundamentalistas captaneados pelo bispo Crivella, seja aprovado equiparando o Brasil aos países os direitos humanos são mais respeitados, como a Espanha, Holanda, Bélgica, inclusive o Equador e a África do Sul, que são países do terceiro mundo e tiveram um legislativo antenado com a modernidade e já aprovaram a inclusão da homofobia como crime. Ainda continuamos a insistir na aprovação da parceria civil, apesar de o porjeto original de 1995 ser reconhecido pela sua autora, Marta Suplicy, e pelo movimento como ultrapassado e desatualizado, na medida em que não considera a união homossexual como constituindo família nem prevê o direito à adoção, sendo que sobretudo o judiciário do Rio Grande do Sul já tem jurisprudência garantindo esses direitos. Ou seja, a união de dois homens e duas mulheres é um novo tipo de família e o Juizado da Infância e Juventude do Brasil a fora têm concedido a homossexuais gays ou lésbicas o direito a adotar, dando preferência, inclusive, a que sejam casais. Dois pais e duas mães oferecem maior garantia à criança adotada que terão seu futuro atendido. O grande preconceito dos legisladores em apoiar a adoção por parte de homossexuais se baseia num preconceito que já foi completamente descaracterizado por pesquisas científicas nos Estados Unidos e na Europa, que mostram que crianças e adolescentes criados por gays ou lésbicas não se tornarão necessariamente homossexuais, do mesmo modo que eu sou gay e minha mãe e meu pai eram heterossexuais. Eu não copiei o modelo deles.

_Há também um preconceito de que as relações homossexuais tendem a ser mais instáveis.
A idéia de que os homossexuais mantêm relações mais efêmeras também já foi descaracterizado por pesquisas, sobretudo na Holanda e na Suécia, onde é autorizado o casamento e o divórcio de pessoas do mesmo sexo, e se constatou que essas relações têm se mantido tão estáveis e "ordeiras" como as dos casais heterossexuais. E o curioso é que num mundo onde cada vez mais as pessoas não querem se casar e lutam pelo divórcio, os gays e lésbicas são a última tribo romântica que está lutando pelo sagrado direito de se enforcar com a gravata no dia do casamento ou de se prender aos doces laços do matrimônio. O argumento de que a aprovação do casamento homossexual ou da adoção vai destruir a família não resiste, porque esse mesmo argumento foi usado pela Igreja e pelos conservadores para ser contra o voto feminino, o trabalho das mulheres e o próprio divórcio. A experiência mostrou que a família tradiconal burguesa é muito mais resistente a qualquer revolução política ou de costumes, haja vista o exemplo da União Soviética, da Revolução Francesa e de outros países que a família burguesa persistiu apesar de grandes traumas sociais.

_De acordo com dados publicados no último relatório do Ministério da Saúde, jovens homossexuais correspondem ao grupo de maior incidência do HIV no Brasil, com um crescimento de 70% no número de casos nos últimos dez anos. Em que as campanhas falharam?  
O GGB foi precursor na prevenção da Aids na Bahia e a primeira ONG gay a produzir material e a fazer convênios com o Ministério da Saúde e outros órgãos, distribuindo até agora mais de 3 milhões de preservativos, não só para gays, mas com projetos voltados para terreiros de candomblé e jovens em geral. Nós somos do tempo em que Aids era chamada de peste gay. Quando o GGB começou a distribuir preservativos no centro da cidade, com folhetos explicativos, um vereador evangélico intolerante disse que era um escândalo, que era uma vergonha, que o GGB estava distribuindo em uma mão a camisinha e na outra mão uma lata de vaselina. Absolutamente ridículo, porque um dos ensinamentos é que preservativo não pode ser usado nenhum creme, nenhum óleo a não ser um gel a base de água. Hoje, felizmente, tem o GAPA, o Cria e de outras instituições e ONGs que trabalham com a Aids, existe uma consciência quando menos da informação. A maioria das pessoas sabe que a Aids se transmite através do sangue, do esperma e das secreções vaginais, sabe que não se transmite através do beijo, do abraço, de insetos. As novas gerações, sobretudo os gays adolescentes, não vivenciaram a tragédia que foi as mortes anunciadas de Cazuza, Sandra Brear e outros artistas famosos, o Freddy Mercury... Não vivenciaram o que significa de sofrimento. Mesmo que hoje em dia existam terapias e a qualidade de vida das pessoas com HIV-Aids tenha melhorado, ainda é uma doença mortal e incurável. E os gastos econômicos e o desgaste físico e emocional das pessoas com Aids não justifica o descuido. De modo que infelizmente esse aumento de Aids entre a população jovem gay reflete essa visão do adolescente de ser um super homem, de estar imune a qualquer tipo de ameaça e daí a importância de um trabalho que o GGB faz há mais de dez anos, o "Se Ligue", que reúne todas às quartas-feiras dezenas de jovens e adolescentes na sede do GGB – Rua Frei Vicente, 24, Pelourinho – em que se discute direitos humanos, homofobia e discussão da Aids com distribuição sistemática de camisinha e gel lubrificante. Considero que o Ministério da Saúde e as secretarias de Saúde do Estado e do Município têm uma certa responsabilidade nesse aumento da infecção de HIV entre a população homossexual – porque inclusive recentemente confirmando a proibição de doar sangue, com o argumento de que enquanto o índice de infecção pelo HIV na população em geral não chega a 1%, e entre a população homossexual é mais do que 5% - isso implicaria que a prevenção, o investimento público, acompanhasse esse maior índice de infecção. E a realidade não é essa. Muitos e muitos meses falta de preservativos distribuídos pela Secretaria da Bahia, estado e município, e falta de material de informação e prevenção voltado pra essa população. É importante que haja campanhas veiculadas na televisão, em horário nobre, falando sobre a importância de que todos se previnam, sem se referir à existência de grupos de riscos, porque segundo a epidemiologia falar em grupos de risco aumenta o preconceito e não leva necessariamente à prevenção por parte das populações mais expostas ao HIV e às demais DST.

_Desde 1980 o GGB realiza pesquisas sobre mortes de homossexuais. Há dois anos a Bahia lidera o ranking. A que o senhor atribui essa liderança?

O Brasil é um país contraditório no que se refere à sexualidade e a homossexualidade em particular. Atenção, eu sempre falei em homossexualidade e não homossexualismo, que foi abolido, já que o sufixo -ismo implicava em doença e desde 1985 o Conselho Federal de Medicina disse que nada distingue a hetero da homossexualidade ou da bissexualidade. A homossexualidade no Brasil se apresenta de uma forma contraditória. O lado cor de rosa e glamouroso é representado pelas paradas, pela presença de gays e travestis na televisão, de cantoras que há rumor constante de que são lésbicas, mas que poucas são assumidas, enfim. Comparativamente a outros países da América Latina, a homossexualidade no Brasil é muito mais visível e exuberante do que no Chile, no Peru, no Equador. São Paulo tem a maior parada do mundo, com quase três milhões de pessoas, no Rio são 1 milhão e em Salvador, meio milhão. Na Bahia, há mais de 15 paradas pelo interior. O lado vermelho sangue é o do dia-a-dia. Os homossexuais expulsos de casa, insultados, espancados na rua, discriminados pela polícia e sobretudo a violência física - que vai desde o golpe "Boa Noite, Cinderela", que embebeda ou que faz com que os homossexuais se tornem reféns de golpes de exploradores - e sobretudo a que leva ao assassinato. A violência letal contra os homossexuais no Brasil é uma calamidade pública. O Brasil não é o país mais homofóbico do mundo - aqui não há leis anti-homossexuais, como no Egito, no Sudão, no Iraque - mas é o país onde há mais assassinato de homossexuais. Isso está documentado pela própria Associação Gay e Lésbica internacional. No Brasil, todos os anos, mais de 100 homossexuais são assassinados. O segundo lugar é o México, com 35 assassinatos por ano, e em terceiro lugar os Estados Unidos, com 25 assassinatos por ano, sendo que nos Estados Unidos as estatísticas são muito mais rigorosas e tem 100 milhões a mais que o Brasil. De modo que o Brasil carrega esse triste e vergonhoso estigma de ser o campeão de assassinato de homossexuais. Os gays representam 75% dos mortos, os travestis por volta de 23% e as lésbicas, 2%.  Em 2008 foram 122 casos documentados pelo GGB, através da imprensa, internet, TV, ou mensagens de testemunhas. Por exemplo, esse ano houve já dois assassinatos na Bahia que não sairam na imprensa, em lugar nenhum. De modo que nós também recebemos cartas e denúncias de casos que não foram documentados. Esse ano já temos 130 casos até outubro, com certeza já passamos as cifras do ano passado. E, lastimavelmente a Bahia, que no ano passado teve 18 casos, esse ano já tem 20 assassinatos. Pernambuco era o campeão de assassinatos, mas  nos últimos dois anos a Bahia ultrapassou. O risco de um gay nordestino ser assassinado é 85 vezes maior do que um homossexual do sul ou sudeste. O que se explica através do machismo, da própria violência generalizada da nossa região e quem sabe à afoiteza, ao risco que os próprios gays e travestis correm mais do que no sul, onde talvez sejam mais cautelosos em selecionar seus parceiros. Essas estatísticas são subnotificadas. Com certeza em vez de um assassinato a cada dois dias, o correto seria, se tívessemos acesso a todas os crimes praticados no Brasil,  um assassinato por dia. Na Bahia, a média seria de um assassinato a cada 15 dias.

_Como saber quais desses crimes tiveram motivação homofóbica?

Nem todos os crimes têm uma conotação claramente ou explicitamente homofóbica, porém do mesmo modo como os negros apontam para o racismo institucional para explicar as mortes de negros e mestiços, assim também os homossexuais, quando são vítimas de um crime, mesmo que seja um michê, um garoto de programa que praticou latrocínio, com certeza ele foi inspirado pela homofobia cultural, na medida em que ele parte do pressuposto preconceituoso de que o gay é frágil, efeminado, socialmente mais vulnerável, que não vai ter nenhum vizinho que vai prestar socorro se ele gritar, testemunhas vão se recusar a depor, com medo de se envolver com um gay, um travesti, que são considerados marginais ou sub-categorias sociais. Desde a sua fundação o GGB produziu um texto: "Gay vivo não dorme com inimigo" em que ensinamos aos gays, travestis e lésbicas a se defenderem, para que não sejam a próxima vítima. Evitando levar desconhecidos pra casa, evitando demonstrações de desprezo ou de arrogância em relação aos seus parceiros, que muitas vezes são de classe social e econômica inferior e evitando também objetos dentro de casa que possam ser usados como armas, facas e etc.

_O senhor acha que a criação de delegacias específicas para esse público poderia coibir ou solucionar de maneira mais rápida esses crimes, ou a segregação só faz aumentar o preconceito?
Há uma demanda por parte sobretudo das travestis e transsexuais, que socialmente vivem como mulheres, de que sejam atendidas nas Delegacias Especiais para Mulheres, na medida em que são vítimas do mesmo preconceito, do machismo. Eu considero que é inviável a abertura de delegacias específicas para homossexuais porque implicaria em um grande investimento e, a não ser nas grandes capitais, a demanda não justificaria tal investimento. Sobretudo porque não existe uma consciência política por parte de grande parte das vítimas homossexuais de denunciarem, com medo de serem vítimas de novo preconceito e discriminação, que de vítimas se tornem réus, quando vão procurar fazer justiça. O que eu acho que é fundamental é que as delegacias da mulher ou as contra o racismo tenham pessoas especializadas em atender gays, travestis e lésbicas, para que possamos encaminhar nossas denúncias, evitando que a omissão e a impunidade reforçem a prática de novos crimes. (Continua no post abaixo)

15/11/2008 às 12:44 | ATUALIZADA EM: 16/11/2008 às 10:06

"Sou imprescindível" - Parte II


Tatiana Mendonça

Margarida Neide | Ag. A TARDE
_O que o senhor achou da campanha de Marta Suplicy ter insinuado que o Kassab era gay, como se isso fosse diminuir de alguma maneira a ação dele como político? A Marta que inclusive já ganhou um troféu do GGB, o Triângulo Rosa.
A polêmica da propaganda eleitoral de Marta Suplicy indagando sobre se o Kassab tem mulher e filhos repercutiu nacionalmente. Lideranças do movimento LGBT, inclusive do núcleo de petistas, protestaram. Alguns militantes históricos, como o próprio João Silvério Trevisan, criticaram gravemente Marta... Eu conhecendo Marta desde 1985, quando fui entrevistado pela TV Mulher, na TV Globo, e estando com ela várias vezes no Congresso Nacional, quando se tentava votar o projeto de parceria civil, conhecendo seus livros e suas declarações, eu jamais entenderia que houve conhecimento por parte dela dessa propaganda, feita por um marqueteiro, e que ela jamais teria autorizado ou inspirado uma propaganda homofóbica, porque estaria indo contra duas décadas de luta e contra seus princípios. De modo que eu fui, com outras lideranças do movimento, mais condescendentes, mais magnânimos, tivemos a alma grande, no sentido de exigir que ela pedisse perdão, reconhecesse que pisou na bola, mas isso não justifica tripudiar em cima de um currículo e méritos que são inegáveis. Aprendi com minha mãe a ser generoso e a perdoar.

_E o senhor já pensou em se eleger a algum cargo público?
No final dos anos 80, cheguei a cogitar a idéia de me candidatar para deputado estadual, mas logo desisti, porque eu não tenho o perfil de um candidato. Eu não gosto de muito contato popular. Atualmente ando na rua olhando para o chão, para que as pessoas não venham me cumprimentar. Prefiro cada vez mais o anonimato, quando menos a mídia. Embora no meu túmulo que já está comprado no Campo Santo - aliás numa quadra muito boa, em que eu tenho como vizinhos membros da família de Antonio Carlos Magalhães e outros da burguesia baiana - pretendo que seja escrito: Luiz Mott, humanista e uranista. Uranista é um termo do século 19 que é sinônimo de homossexual. Preferi esse termo porque vai obrigar as pessoas a irem ao dicionário e vai ilustrar a cultura delas. E eu com temor de que se colocasse humanista e homossexual ou gay o meu túmulo pudesse ser alvo de depredação ou vandalismo... De modo que o depoimento que eu dou como decano do movimento homossexual – não sou o primeiro, há outros que estiveram antes de mim, estão vivos, mas que largaram a militância; eu desde 1980 até hoje não tive férias nem trégua na luta pelos direitos de cidadania dos homossexuais, por isso é um título que se conquista, não se é eleito decano – eu como decano me considero imprescindível, que são aqueles que lutam a vida toda, como no célebre poema de Brecht. O depoimento que eu dou é que não me arrependo um só minuto de ter assumido a minha verdadeira essência existencial. Para mim, parafraseando Jean Jeanet, esse célebre escritor francês homossexual, a homossexualidade foi uma graça. Ele dizia "pra mim a homossexualidade foi uma bênção". Foi uma graça eu ter assumido. Pra mim foi fonte de alegria, felicidade e muita ajuda. Recebo cartas de centenas e centenas de gays e lésbicas que não se mataram e passaram a se aceitar e se tornaram cidadãos de bem a partir do meu depoimento e do meu testemunho como um gay assumido. E que está muito bem documentado no meu livro "Crônicas de um gay assumido", onde eu me torno um dos poucos homossexuais a escrever um livro na primeira pessoa narrando experiências pessoais, e utopias, e intimidades.

_Vocês se arrependem de não terem apoiado Leo Kret nas eleições para a Câmara Municipal?
A Leo Kret frequentou durante três anos o projeto "Se Ligue", do GGB, indo a mais de 100 reuniões. De modo que o que ela sabe hoje sobre direitos humanos, homossexualidade e AIDS, foi no GGB que aprendeu. As primeiras entrevistas, os primeiros vídeos, foram feitos na sede do GGB. O Marcelo Cerqueira chegou até a oferecer a ela uma roupa para que ela desfilasse certa vez e na parada de 2007 ela recebeu a faixa de fadinha e esteve no alto do trio principal. Porque nós sempre apoiamos e tentamos ensinar a Leo Kret a ser uma pessoa de respeito, com menos espalhafato e mais conteúdo. Mas jamais qualquer pessoa em sã consciência indicaria um jovem de 23 anos, com pouca escolaridade e sem nenhuma formação política, para representar a comunidade homossexual na Câmara de Vereadores. Leo Kret, objetivamente, não tem o perfil de uma liderança comunitária, embora tenha recebido os 12 mil votos, sobretudo de pagodeiros e pessoas que, segundo a interpretação de inúmeros cientistas sociais com quem conversei, representa um voto não de protesto, mas de esculhambação, como em São Paulo as velhinhas elegeram Clodovil, não pelo fato de ele ter um projeto político dos homossexuais, mas porque muitos heterossexuais gostam do gay efeminado, espalhafatoso, palhacinho, etc. Eu tenho certeza que Leo Kret vai fazer um ótimo mandato. Basta que seus assessores copiem as 300 e tantas ações afirmativas aprovadas na conferência LGBT e que essas propostas sejam apresentadas e aprovadas. Mas nem os próprios assessores gays ou representantes do movimento LGBT da Bahia votaram em Leo Kret. Não fui apenas eu ou o GGB a dizer que ela não representa o movimento, mas vamos para a realidade que, eleita, estamos apoiando. Mas os candidatos que ofereciam propostas e projetos e um histórico de militância, Marcelo Cerqueira e Valquírima, do grupo Palavra de Mulher Lésbica, eram os candidatos sintonizados com a militância baiana.

_Vocês fizeram a famosa lista dos 100 gays mais importantes para a história do Brasil, que tem nomes como Zumbi e Santos Dumont. Qual é a relevância de uma lista como essa, por que divulgar essa questão seria importante?
Os gays, lésbicas e travestis são vítimas de um complô do silêncio da historiografia oficial que nega a existência da homossexualidade entre VIPs ou que heterossexualiza VIPs homossexuais, como por exemplo a omissão da homossexualidade de Santos Dummont, o nosso grande herói nacional, ou a heterossexualização das cartas de Shakespeare. Isso mostra que sempre houve esse complô. E nós achamos que quanto mais homossexuais de destaque na sociedade se assumirem, estão fornecendo modelos para jovens homossexuais se inspirarem, e vai mostrar para a sociedade que é preconceito achar que gay é marginal, que é inferior, etc. É uma política de visibilidade para resgatar nossa história. Dai aos gays o que é dos gays. Estimulo que mais e mais pessoas saiam do armário, estimulo que mais e mais pesquisas históricas descubram quem pertence ao grupo daqueles que praticam o amor que não ousavam dizer o nome. Já que homossexualidade não é crime, não é doença e não é pecado, não é nenhum crime revelar a orientação sexual das pessoas. Perguntar não ofende, afirmar não ofende, sobretudo havendo pistas, rumores persistentes ou provas de que tais pessoas praticavam a homossexualidade.

_Estava lendo uma entrevista sua em que o senhor afirmou que os VIPs enrustidos acabam sendo cúmplices do sofrimento e até morte de jovens que não se assumem. Não há uma certa militância excessiva para as pessoas se assumirem? Isso não fere a liberdade de cada um decidir sair do armário ou não? É como se todos tivessem que levantar bandeiras...
Os negros querem até que a Cleópatra tenha sido negra. Uma pessoa que tenha 10% de fenótipo negro hoje em dia tem que se afirmar como afrodescendente. Eu quero trabalhar por uma sociedade futura em que a raça, o gênero, a orientação sexual sejam irrelevantes, que as pessoas valham pelo que são, pela sua honestidade, competência, simpatia. Mas nessa fase, considero que é muito importante que os negros que foram considerados feios digam que "Black is beautiful", que os gays que foram considerados inferiores digam que têm orgulho de ser gay, e as mulheres tratadas como o sexo frágil, tenham a afirmação da sua condição de mulher.  É uma estratégia temporária, provisória, assim como as cotas raciais. Eu inclusive defendo as cotas para homossexuais, porque se é para resgatar e para compensar injustiças históricas, ninguém mais que os homossexuais foram discriminados. Ser negro nunca foi crime, mas ser homossexual até o fim da Inquisição era considerado um crime de lesa-majestade. Até hoje nenhum negro ou deficiente físico é insultado em casa, ou expulso do lar devido à sua condição de minoria, mas os homossexuais vivem na clandestinidade e o preconceito e a violência começam em casa. Considero que é fundamental que mais e mais pessoas se assumam, e vou continuar nessa minha cruzada, resgatando a história dos homossexuais célebres e estimulando os vivos para que saiam do armário.

_As cotas que o senhor defende seriam implantadas nos mesmos moldes que as raciais? E seguiriam o padrão de 10%, que é a média de homossexuais na população?
Isso. Considero que nada justifica que as cotas sejam apenas para indíos e pobres e negros sendo que outras minorias sociais, como obesos e albinos e homossexuais, que sofrem igual discriminação, sejam discriminados em políticas afirmativas. Quanto à dificuldade de estabelecer quem é gay ou lésbica – travesti é fácil – é a mesma questão dos negros. Auto-identificação é suficiente para que a pessoa seja beneficiada.

_Você já quis ser padre e hoje combate a igreja e a discriminação que ela alimenta, tanto a igreja católica quanto à evangélica. Há avanços nesse segmento?
Eu até os 18 anos meu ideal de vida era ser padre. Fui seminarista, noviço, estudante de filosofia na ordem dominicana, a mais intelectual e moderna, que se opôs ao golpe militar e foi até perseguida por conta disso. Ao entrar na universidade, na Faculdade de Filosofia da USP, conheci o marxismo. Ao ler o livro "A ideologia Alemã", me tornei ateu, entendendo que o certo é que os homens criam os deuses à sua imagem e semelhança, e não o contrário, como nos era ensinado. E sobretudo quando me tornei um militante homossexual constatei que as igrejas, o judaísmo, o cristianismo, o islamismo e o protestantismo, sobretudo religiões fundamentalistas evangélicas, são a principal fonte de manutenção da homofobia. Nos púlpitos e nas televisões evangélicas é onde mais se divulga a intolerância e o preconceito contra os homossexuais. Sou incansável lutador contra o papa anterior e o Bento 16, que são os maiores inimigos dos homossexuais na modernidade, e contra os evangélicos que continuam associando homossexualidade ao diabolismo. Mesmo no candomblé – que embora seja uma religião muito aberta aos orixás hermafroditas, homossexuais, bissexuais – não tem um discurso explícito de defesa dos homossexuais, considerando que grande parte dos pais-de-santo, mães-de-santo e filhos-de-santo têm uma sexualidade aberta inclusive ao homoerotismo. Apesar de não ser anti-clerical sou fundador, em 1995, do grupo ateísta latino-americano. Meu manifesto ateísta foi o primeiro documento de militância de ateísmo no Brasil. Infelizmente, o grupo ateísta não cresceu tanto quanto o grupo gay. Ainda é um tema muito tabu, mas eu considero que é fundamental que as pessoas cresçam intelectualmente em relação ao ateísmo, porque eu vejo marxistas, doutores em filosofia e ciências humanas que são moderníssimos na questão da ciência e continuam infantis, acreditando em Deus, no diabo e na feitiçaria.

 

 


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