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Requiem ao professor João Lamarck

Só nestes cinco meses de 2007, seis homossexuais baianos terminaram a vida como este gentil professor, numa poça de sangue.

Dos articulistas

Foto: Divulgação/

LUIZ MOTT

Professor Titular de Antropologia da UFBa
e Fundador do Grupo Gay da Bahia

Há muitos anos conhecia o doutor em geologia e professor da Ufba, João Lamarck Argolo, carinhosamente chamado de “Pam” pelos mais íntimos. Franzino, tímido, sempre alegre, um “sergipano cordial”, poucos dias antes de ser assassinado, provavelmente por um ou dois rapazes de programa, dizia num email enviado a um amigo comum, que precisa  deixar de ser “Alice”, gíria utilizada no meio gay para se referir a pessoas ingênuas e bondosas,  que agem como se vivessem no país das maravilhas. Lastimavelmente, não teve tempo de se tornar mais malicioso e prevenido. Confiou na bondade de bestas humanas e terminou sua vida de forma trágica e imerecida: foi encontrado em seu apartamento, já em avançado estado de decomposição, com uma toalha enfiada na boca, no meio de uma poça de sangue.

Imaginemos sua angústia, desespero e sofrimento quando se deu conta que o sedutor rapaz que inocentemente levara para seu apartamento na Piedade, em vez de lhe dar e receber prazer, estava prestes a matá-lo por sufocação! Que pensamentos e temores teriam passado por sua mente, naqueles últimos instantes de lucidez,  completamente indefeso, sem poder sequer gritar, mais uma vítima de um crime homofóbico!

Só nestes cinco meses de 2007, seis homossexuais baianos terminaram a vida como este gentil professor, numa poça de sangue.  13 homicídios em 2006. Todo mês um gay ou travesti é barbaramente assassinado na Boa Terra, vítima da homofobia. Mais de 100 homicídios por ano no Brasil, quase três mil vítimas documentadas nos arquivos do Grupo Gay da Bahia. O Brasil é o campeão mundial de crimes contra homossexuais!

O que levaria um jovem que, após ser paquerado, aceitou livremente o convite de um gay para ir a seu apartamento, e de repente, antes ou depois do prazer, mata seu anfitrião? Latrocínio – matar para roubar, é o motivo mais freqüente, confiando o assassino na fragilidade física e social da “bicha”, incapaz de reagir e de despertar a solidariedade dos vizinhos, no caso de gritar por socorro. Muitos destes assassinatos foram motivados pela homofobia, este ódio anti-homossexual capitaneado pelo Papa e por pastores fundamentalistas, ao proclamarem nos púlpitos e televisões que “o homossexualismo é intrinsecamente mau”.

Também culpada é a polícia, que trata os gays como réus e não investiga rigorosamente tais homicídios; igualmente responsáveis são os advogados de porta de delegacia e  juízes machistas, que absolvem os matadores de gays sob o vil argumento de legitima defesa da honra. Culpados são todos nós que não pressionamos os parlamentares e o Presidente Lula a equiparar a homofobia ao crime do racismo, e que ao impedir a legalização da união estável homossexual, empurram tantos professores lamarcks a perigosas relações instáveis e clandestinas, como esta infeliz paquera que redundou na execução de um brilhante pesquisador, assim saudado em nota oficial da reitoria da UFBa: “Se, nos anais da universidade, estará perenemente registrada a relevante participação acadêmica do Prof.Lamarck em projetos importantes e de várias comissões, destacando-se na criação da Universidade Federal do Recôncavo Baiano  e do Instituto de Ciências Ambientais e Desenvolvimento Sustentável na cidade de Barreiras, na memória de todos que tiveram o privilégio de conhecê-lo estará sempre presente não só a imagem de uma pessoa integrada ao seu contexto de trabalho, cuja participação se pautava por límpidos princípios éticos, mas, sobretudo, o exemplo de um amigo raro, solidário, generoso, íntegro e humano, no sentido mais radical e pleno em que o humanismo pode se materializar no percurso de uma vida. Hoje, a UFBA enlutada  e mais pobre,  despede-se de seu eminente professor João Lamarck Argolo.”

Descanse em paz, “Pam”, saudoso Prof. Lamarck. Estamos lutando para que seus algozes sejam punidos com todo o rigor da lei! E que o Brasil deixe de ser o campeão mundial de assassinatos de homossexuais!

 

 

 


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