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Mulher de verdade!
Amélia Maraux fala de ativismo e políticas para lésbicas!

Amélia Maraux é palestrande do Seminário de Violência dias 22 e 23 na ma Faculdade Cairu.

Ela tem formação em Ciências Sociais, Mestrado em História Social. É Professora Assistente do Departamento de Educação – Uneb/Campus XIV – Conceição do Coité e membro do Núcleo de Gênero e Sexualidade – Nugsex Diadorim/Uneb; ex- Vice-Reitora da Uneb e atualmente superintendente de Educação Básica da Sec-Ba. Um papo com Amélia Maraux que participa nessa quinta e sexta-feira do Seminário para eliminação de todas as formas de violência contra as mulheres, lésbicas e transexuais. Confira a programação AQUI!

Salvador, 19 de março de 2012 , ás 22h – por MARCELO CERQUEIRA

MC – Professora, Amélia Maraux, tudo bem?  A senhora é parte do Núcleo de Gênero e Sexualidades/Diadorim da Uneb, como tem sido essa experiência?

AM – Eu sou uma “diadorina” desde a criação do Núcleo em 2003. Nesse espaço venho desenvolvendo projetos de enfrentamento à violência de gênero, contra as mulheres e pessoas LGBT e de enfrentamento ao racismo. A minha experiência no Diadorim tem sido produzida a partir das três macros ações que até então tem norteado as ações do Núcleo, isto é: Campanha de 16 dias de ativismo na Uneb pelo fim da violência contra as mulheres, Uneb Combatendo a Homofobia e o seminário Enlaçando Sexualidades. Fico feliz em observar o crescimento e fortalecimento do Diadorim, a sua consolidação é fundamental para a universidade e para as lutas pelos direitos humanos.

MC – Qual é a proposta do Núcleo?

AM – O Diadorim é um espaço de produção do conhecimento, de difusão, de formação e de militância acadêmica.  Através dele nós produzimos pesquisas importantes sobre crimes homofóbicos, lesbianidades, masculinidades, educação e diversidades, tendo como foco os currículos e a formação de professores. O nosso fazer reflete um posicionamento de questionamento ao saber instituído, aquele que invisibiliza as identidades construídas a partir das sexualidades, dos gêneros e da raça, dentre outros marcadores. Somos influenciadas/os por pesquisadoras/es educadoras/es que têm produzindo  nas últimas décadas um conhecimento relevante para as lutas pela equidade, sobretudo pelas teorias feministas e queer.  

MC – Então professora, mês de março, dia Internacional da Mulher, o que comemorar?

AM – Olha, se analisarmos os dados de representação política das mulheres nos legislativos e executivos, da participação e acesso aos cargos de gestão, das desigualdades em relação aos ganhos salariais, dos direitos reprodutivos negados e da crescente violência na qual as mulheres são vítimas, dá vontade de gritar que NÃO! Mas, não sou extremista e reconheço nossas conquistas, sou fruto delas. A Lei Maria da Penha é um exemplo importante, lutamos muito por isso. Como sinalizei acima, ainda temos muito a avançar, o pensamento heteronormativo precisa ser combatido diariamente por toda a sociedade. Tem sido ele que ao longo da história das sociedades, vem produzindo e transformando as diferenças em desigualdades.   

MC – E essas conquistas, elas inserem a questão da mulher lésbica no seu ponto de vista?

AM – Olha, no que se refere aos direitos das lésbicas muito, mais muito mesmo ainda precisa ser feito. Acho que o 8 de Março simboliza a luta das mulheres heterossexuais, muito embora, nós lésbicas historicamente estejamos presentes no interior dos diferentes movimentos feministas e de mulheres. Na década de 70/80, principalmente no período da redemocratização do país, estavam lá as lésbicas operárias, negras, professoras, trabalhadoras rurais, etc, lutando por direitos a igualdade salarial, de participação política, entre outros. O apagamento das lesbianidades nesse processo enfraquece o debate acerca das políticas públicas para as lésbicas.

MC – A senhora é debatedora no dia 23 do seminário lesbianidade em foco a senhora acredita que existe uma identidade lésbica?

AM – Penso a identidade no plural. Ser lésbica não é tudo que somos ou podemos ser. A identidade é construída a partir de marcadores sociais que são incorporados ao longo da nossa existência. Penso assim, em uma combinação de elementos que darão corpo a essa identidade lésbica, a exemplo do racial, do gênero, da atuação política: em partidos, nos movimentos de mulheres e feministas. Como canta Pity, sou/somos mais do que seus olhos podem ver.

MC – Como acontece esse processo de construção. É algo natural ou construído pela cultura?

AM – Tudo que pensamos, construímos, e, por conseguinte, damos significado, é resultado da cultura. Não nascemos homens ou mulheres, como diz Simone de Beauvior, nos tornamos. As identidades são construídas a partir de um complexo processo histórico, cultural e político. São esses processos que definirão as identidades.    

MC – Em sua opinião como se apresenta essa questão da representação lésbica nos espaços de poder e decisão política?

AM – Como as mulheres de forma em geral, a representação lésbica em espaços de decisão política é expressivamente inferior se comparado com a representação masculina. No caso das lésbicas, a invisibilidade é um dado que repercute na sub-representação, em função da lesbofobia institucional.

MC – Isso também seria uma forma de violência contra o gênero feminino?

AM -   Sem dúvida. A exclusão é uma forma de violência sim. Mas, no que se refere a Bahia, a nomeação da travesti, Paulete Furacão para a Secretaria de Justiça e Direitos Humanos, abre o importante espaço de atuação política na gestão pública. Sem dúvida, esse deslocamento do movimento para a gestão do estado, pode refletir na organização do estado no que se refere a implementação de políticas públicas LGBT. Também pode refletir no próprio processo de organização dos movimentos sociais. 

MC – E o que o cidadão comum pode fazer para ajudar na eliminação da violência contra o gênero feminino, incluindo lésbicas e mulheres transexuais?

AM – Há um caminho que vem sendo construído pelos movimentos que lutam pelos direitos humanos de mulheres e LGBT, no sentido de visibilizar os processos de exclusão e violência. Ao tempo em que denunciam e cobram do Estado brasileiro a inclusão de políticas públicas que garantam o pleno direito a cidadania. A (re) significação da cultura, a partir da produção de um discurso político acerca das diferenças tem colocado a sociedade em cheque e possibilitado a emergência de saberes, a exemplo daqueles produzidos no interior das universidades, que traduzem e problematizam os novos paradigmas culturais. Não tenho dúvidas quanto ao papel importante que a escola e a universidade, tem na construção de um conhecimento e de uma práxis anti-homofóbica, sexista e racista.

MC – No seu ponto de vista como à senhora tem visto essa construção do feminino pelas mulheres trans?

AM – Acho muito desafiadora, pois choca radicalmente com a visão essencialista, que naturaliza os corpos, sobretudo das mulheres. A transexualidade é um tema complexo que tem avançado a partir de estudos comprometidos com a produção de conhecimentos que levam em conta os direitos humanos. 

MC – Existem setores mais tradicionais que não reconhecem essa construção do feminino e negam acesso a espaços tradicionais de circulação do feminino as mulheres trans, por exemplo, uso comum de banheiros?

AM – Essa é uma luta por direito a visibilidade. O uso comum dos banheiros se inserem na questão mais ampla, aquela que diz respeito à garantia de políticas públicas voltadas para as mulheres e homens transexuais. Isso nos leva a refletir acerca dos direitos a educação, a saúde, a empregabilidade, a incorporação do nome social, entre outros. Acho que o Comitê LGBT, ligado a Secretaria de Justiça e Direitos Humanos do estado da Bahia, tem um importante papel a desenvolver, na busca da garantia desses direitos. Lá estarão reunidas além das representações dos movimentos sociais, representações de outras secretarias de estado, a exemplo da Secretaria de Educação e Saúde. Esse é um espaço para encaminhar ações que garantam a implementação das metas definidas pela II Conferência LGBT, as quais estão contidas no Programa Bahia sem Homofobia. Mas, se faz necessário incorporar outros segmentos da sociedade ao Comitê, a exemplo das universidades. Ela, como já sinalizada em questão anterior, tem uma importante contribuição a dar nesse processo. 

MC – Obrigado professora. O seminário Lesbianidade em foco vai abordar quais outros temas?

AM – Embora o seminário traga como problema a invisibilidade, nele teremos a oportunidade de visibilizar os discursos de lésbicas e mulheres trans. Particularmente, a mesa que problematiza o papel da educação nessa reflexão, será fundamental para o entendimento dos espaços de formação, a exemplo da escola e da universidade, para a cidadania e respeito ao outro e as suas diferenças. Acho inovadora a proposta desse encontro, vamos ao debate. 

 


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