Babado forte à
beira da praia: gueto ou estilo de vida?
por: Cyntia Nogueira
Imagens por: Ana Rosa Marques
Quem casa, quer casa - diz o ditado popular. E, para o presidente do
Grupo Gay da Bahia, Marcelo Cerqueira, já era hora de os casais
homossexuais ganharem empreendimentos imobiliários voltados para
o seu perfil. "A parceria civil entre pessoas do mesmo sexo tende
a ser uma realidade também no Brasil", observa. Marcelo
atuou como consultor do primeiro empreendimento gay da Bahia, o Aldeia
Saint Sebastien. Localizado a 23 km de Salvador, na Arembepe dos hippies
e de Janis Joplin, o condomínio tem suas peculiaridades. Nada
de campo de futebol ou parque infantil - em vez desses lazeres, sala
de cinema coletiva e espaço gourmet.
Mas o fato de direcionar um condomínio com 68 apartamentos o
público de Gays, Lésbicas e Simpatizantes (GLS) não
é incentivar a formação de um gueto? Parece que
não, segundo a opinião da maioria dos entrevistados. "Não
pensamos exclusivamente no público gay, mas
sim em pessoas intelectualizadas
que compartilham valores de liberdade e qualidade de vida", explica
Mário Piva, diretor da Plena Empreendimentos. Para deixar o produto
ao gosto dos futuros moradores, a construtora e incorporadora consultou
entendidos. "Tivemos várias reuniões com o Grupo
Gay da Bahia e com Grupo Guri, a Associação Gay de Minas
Gerais. Eles ajudaram a escolher o local e opinaram sobre como gostariam
de viver num condomínio de praia", explica o empreendedor.
O projeto do Aldeia - um
village para people nenhum botar defeito
Localizado
na Enseada do Piruí, faixa de praia cheia de recifes que formam
piscinas naturais, o condomínio Aldeia Saint Sebastien fica numa
das ruas mais reservadas e charmosas de Arembepe. Assinado pelo arquiteto
Firmo Azevedo, o programa do empreendimento de 9 mil m² leva em
conta os hábitos de consumo da comunidade GLS. "É
um público intelectualizado, de muito bom gosto, que costuma
freqüentar bons restaurantes e adora cozinhar para os amigos",
comenta a corretora Adriana Motta, da Josinha Pacheco Imobiliária,
que comercializa as 21 unidades ainda à venda.
No Aldeia, as áreas de lazer mostram a diferença. Em vez
de quadras de esportes, como campo de futebol ou quadra de tênis,
os moradores vão usufruir de sala de projeção de
filmes, uma espécie de home theater para o grupo. Churrasqueira?
Não, espaço gourmet para reuniões. A lavanderia,
que será coletiva, contará com área para leitura.
No lugar de um parque infantil para as crianças, sauna, ofurô
e academia de ginástica. E, na piscina, cantinhos discretos para
um bate-papo mais íntimo. Com metragens que vão de 39,21
m² a 78,55 m², os 68 apartamentos podem ser térreos
ou estar no primeiro piso. Os preços, atualmente já valem
entre R$ 80 mil e R$ 160 mil
39,21m²
63,80 m²
63,80 m²
Por
que Arembepe? Ou...em que outra praia da Bahia?
Nas décadas de 1960 e 70, época
de cabeludos, sexo, drogas e rock' n roll, Arembepe entrou no circuito
hippie internacional. Ícones do rock, como Janis Joplin e Mick
Jagger moraram um tempo em cabanas de palha e em comunidade naquelas
areias. As festas era animadíssimas apesar da falta de energia
elétrica e, na praia, os banhistas dispensavam roupa de banho.
Era um ponto de convergência daqueles que buscavam um estilo de
vida livre e em contato com natureza. Até hoje, a aldeia exibe
as choupanas de palha, ainda habitadas, nas dunas desse cenário
paradisíaco, às margens do Rio Capivara.
Diferentemente de outros locais do litoral norte baiano que tiveram
um forte desenvolvimento turístico, Arembepe atravessou os anos
como uma vila de pescadores e local de veraneio mais reservado, apreciado
por artistas e intelectuais. "Além de sua tradição
libertária, encontramos aqui uma área aprazível,
perto do mar e com natureza ao redor", conta Marcelo Cerqueira,
presidente do GGB, a mais antiga associação de defesa
dos direitos homossexuais do Brasil, que indicou o local para o empreendimento. Mais
que isso: a cidade conta com uma expressiva comunidade GLS. Embora não
existam dados estatísticos, muitos casais de gays e lésbicas
moram ou têm casa de veraneio por lá. "Hoje mesmo,
o GGB realizou uma cerimônia simbólica de união
de dois casais de mulheres que moram aqui, sendo que um deles está
junto há 35 anos", conta Cerqueira. Outra prova de que a
bandeira do arco-íris já foi fincada por essas bandas
é a Parada Gay de Arembepe. Realizada pela primeira vez em novembro
do ano passado. "Choveu e, ainda assim, havia mais de mil pessoas
quando São Pedro nos deu trégua", diz Manu, estilista
e artesão e idealizador do evento. "Acho que o pessoal daqui
não sabia direito de que se tratava". Mas, a partir desse
ano, o desfile entrou para o calendário oficial do município
de Camaçari. E Manu promete que eles vão arrasar desta
vez..
Quem
já comprou: sucesso de vendas entre estrangeiros
Cerca
de 75% das unidades foram vendidas para estrangeiros - principalmente
espanhóis e italianos. E no grupo, além do tão
esperado público GLS, gente que está de olho no retorno
do investimento. Simpatizantes? "Eu sou simpático a qualquer
aplicação que possa me render entre 30 e 60% nos próximos
36 meses", diz o jovem advogado Tiago Villas-Boas, um dos primeiros
a adquirir uma unidade. "Não separo os amigos entre héteros
e gays, são amigos simplesmente." Juntamente com sua mãe,
a turismóloga Rosário Limma, ele comprou o imóvel
de olho na valorização desse tipo de produto. Mas até
que os preços compensem a venda, mãe e filho esperam aproveitar
o lugar como casa de lazer, em companhia de um casal de amigos italianos,
seus vizinhos de porta. "Eles moram em Barcelona e sempre vêm
à Bahia", conta Rosário.
O sucesso entre os europeus pode ser atribuído a duas causas:
a divulgação do empreendimento no Salão Imobiliário
de Madrid, na Espanha e um tantinho de resistência do público
brasileiro. "Tivemos um grande número de consultas e, ao
que parece, muita gente tem vontade, mas ainda fica com um pouco de
receio", diz Piva. Mas a tendência é crescer essa
adesão. "É o primeiro empreendimento com esse perfil
no Estado e, por isso, tem como função quebrar paradigmas",
completa a corretora de imóveis Adriana Motta, da Josinha Pacheco
Imobiliária, que comercializa o empreendimento.
Para a corretora, que esteve à frente das vendas aos estrangeiros,
o cenário deve mudar por aqui, como aconteceu em outros países,
como os Estados Unidos ou Grécia. "Por lá, já
existe uma abertura maior nesse sentido, com cidades que têm não
apenas o mercado imobiliário mas também uma boa oferta
de turismo e cultura voltada para os gays, as lésbicas e os simpatizantes",
conta Adriana, citando Greenwich Village, em Nova York, o Le Marais,
em Paris, e a Ilha de Mikonos, na Grécia. Já corre o bochicho
de que investidores da Noruega e da Dinamarca colocaram Arembepe em
seu mapa de novos negócios com foco GLS.
Por isso, aqueles que ainda não se decidiram terão, com
certeza, novas oportunidades de realizar o sonho da casa de verão
própria. O empreendedor Mário Piva confirma: "Devemos
lançar um outro empreendimento com o mesmo perfil em breve".
Afinal,
é ou não um gueto?
Não há consenso, mesmo
entre os entendidos, se a construção de um condomínio
voltado para o público GLS é incentivar a formação
de um gueto. Se, por um lado, agrupar pessoas que, infelizmente, ainda
são alvos de preconceito possa parecer discriminatório,
por outro, esse pode ser um espaço de liberdade e qualidade de
vida, como propõe a campanha de marketing do empreendimento.
A palavra gueto designou originalmente os locais em que os judeus eram
obrigados a morar durante a perseguição nazista. Por extensão
de sentido, hoje significa qualquer bairro onde habitam grupos étnicos
ou minoritários, geralmente isolados por pressões econômicas
ou sociais. E, então, espaço de tolerância ou de
estigmatização?
O colunista do jornal Correio da Bahia, Osmar Martins, por exemplo,
aluga uma casa em Arembepe. Ele não é contra o empreendimento,
mas afirma que tampouco compraria um imóvel por dois motivos:
ele prefere a privacidade de uma casa em vez da vida em condomínio
e acha a situação (de morar num conjunto para gays) discriminatório
a héteros. "É delicado também em relação
aos familiares, talvez eles não se sentissem à vontade",
explica. Já o também jornalista Sandro Lobo conta que
só não comprou por questões financeiras. "Em
minha visão, é um espaço físico que consolida
um espaço simbólico de cidadania", diz o e editor
de Cidades do jornal A Tarde. "Além disso, o lugar é
lindo e achei o projeto maravilhoso."
Para Marcelo Cerqueira, presidente do Grupo Gay da Bahia, a discussão
sobre guetos costuma se dar de forma equivocada. "O gueto é
um espaço de afirmação política, uma forma
de demarcar território. Não necessariamente com o propósito
de isolamento", teoriza Marcelo. Ele relembra um bar soteropolitano,
famoso na década de 1980, o Zamzibar, que era freqüentado
exclusivamente por negros. Atualmente, pondera o representante dos homossexuais
baianos, um estabelecimento como esse não tem mais espaço.
"Hoje os negros ocupam espaços na sociedade inteira. Naquela
época era obrigatório usar cabelo black power, hoje já
dá pra usar chapinha numa boa", explica de maneira bem-humorada.
Ele vai um pouco além: "As pessoas não vivem sozinhas
e muitos heterossexuais se identificam culturalmente com o estilo de
vida do público GLS. O Saint Sebastien deve atrair pessoas esclarecidas,
livres, com bom poder aquisitivo e que gostam de aproveitar a vida de
forma prazerosa", afirma.