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Eleições municipais

A nova vereadora da cidade
por LEANDRO COLLING *


Leo Kret frente a Câmara Municipal de Salvador

 

O que significa a eleição de Leo Kret do Brasil para a Câmara de Vereadores de Salvador, com 12.861 votos, o quarto maior número entre todos os candidatos? Por que Leo Kret se elegeu e outros 69 candidatos do Brasil que se assumiram como gays, lésbicas, travestis ou transgêneros não conseguiram o mesmo? Leo Kret é travesti, transexual, transformista ou transgênero? Devemos dizer "o vereador" para se referir a Leo Kret? Essas são algumas das perguntas que ouvi depois das eleições do último domingo. Tenho algumas respostas, mas esse fenômeno é bem mais complexo e seria necessário mais espaço e tempo para escrever sobre.

Vou começar pela última pergunta. Leo Kret prefere ser chamada no feminino. E não se considera travesti ou transformista. Em entrevista ao site Terra Magazine, ela disse: "Mas, na realidade, nós somos transgêneros. Temos identidade feminina. E se a gente vai pegar as definições coletadas pelo coletivo de travestis transexuais, vai perceber que a definição de "travesti" é se transformar em alguns momentos. E a minha identidade feminina é diária. Eu durmo e acordo uma mulher. Ainda não operada, ainda não transgenitalizada. Mas eu acordo uma mulher. Se formos usar uma definição mais específica, eu seria uma transexual?"

Por essa fala, uma coisa é certa: Leo Kret deseja ser chamada de vereadora. E ela tem o direito de escolher a sua identidade. O que está confuso são os conceitos de identidade sexual que ela utiliza. O travesti, ao contrário do que diz Leo Kret, não se transforma em apenas alguns momentos. A maioria deles usa ou usou hormônios e silicone para transformar o corpo em definitivo. As transformações eventuais são as realizadas por transformistas, drag queens e drag kings. Já o termo transexual, no caso de Leo Kret, também não é o mais ideal. Em geral, o transexual é aquele que deseja ou já realizou a cirurgia de mudança de sexo. Não parece ser exatamente esse o caso de Leo Kret. Ela parece ter resolvido muito bem a sua identidade de gênero sem a necessidade de realizar cirurgia de mudança de sexo ou mesmo de aplicar silicone no peito.

Nesta sopa de palavras, talvez a mais apropriada, que mais se aproxime da dançarina que deseja ser prefeita e presidenta, seja a definição de transgênero. A rigor, o que Leo Kret faz é uma mistura de gêneros, mantendo o seu sexo biológico. Ela não fez grandes mudanças no seu corpo de menino, mas se veste como uma menina "cretina". "Cretina porque a gente incorpora o personagem no palco, daquela personagem de irreverência, pra gente quebrar os tabus", disse ela, também na entrevista ao site Terra Maganize. Mas essas, é claro, são as minhas leituras. Quem deve dizer, no final das contas, qual é a sua identidade é a própria Leo Kret. Por enquanto, tenho uma única conclusão: é um desrespeito chamarem Leo Kret de vereador.

E o que explica a eleição de Leo Kret? Por que outros candidatos da comunidade LGBTT, com ampla experiência nos movimentos da Bahia e do Rio Grande do Sul, como Marcelo Cerqueira (2.656 votos) e Célio Golin (1.805 votos), não se elegeram? Por que outras candidatas, também bem fechativas, para usar uma gíria da comunidade LGBTT, todas de São Paulo, como Léo Áquilla (6.515 votos), Salete Campari (2.821 votos) e Lacraia (495) não se elegeram? Muitos dizem que o voto em Leo Kret é um protesto contra a política, uma forma de esculhambação. Isso até pode ser parcialmente verdadeiro, mas é só isso? Outras razões, talvez bem menos aceitas ou pensadas, poderiam ser investigadas.

Não estaria no voto em Leo Kret um sinal de como as pessoas gostam dos gays e dos transgêneros fechativos que têm coragem de assumir publicamente os seus desejos? Um sinal de que muitas pessoas gostam da fechação, combinada com humor, irreverência, uma mistura de queer (no sentido de estranho, indefinido) e camp (a fechação) com kitsch muito visível em nossas paradas LGBTT, especialmente as de Salvador?

No início de setembro deste ano, o fundador do GGB, Luiz Mott, disse, no Congresso da Associação Brasileira de Estudos da Homocultura, em São Paulo, que as paradas não promoveram a eleição de candidatos comprometidos com a comunidade LGBTT. Não seria Leo Kret exatamente um fruto das paradas? Negar isso não esconde, na verdade, que tal fruto não era o que desejávamos? Considero as paradas a maior manifestação política do Brasil depois do movimento das Diretas Já. Elas impulsionam uma outra forma de fazer política, festiva, via celebração, lúdica, que rejeita os discursos tradicionais, a disputa pelo melhor argumento. A rigor, Marcelo Cerqueira, apesar de ser um dos organizadores das paradas da cidade, nunca incorporou essa dimensão da política em suas campanhas eleitorais. Não estou dizendo que ele deveria se transformar em uma Leo Kret, mas usar algo dessa outra política em suas estratégias. Na verdade, neste ano, ele fez o contrário. A campanha de Marcelo apagou, ou pelo menos minimizou, a sua relação com a festa, com a fechação e com o próprio movimento gay. As placas de Marcelo espalhadas pela cidade, por exemplo, não informavam sobre sua ação política no GGB. Ou seja, a campanha de Marcelo se rendeu às forças da heteronormatividade, tentou parecer igual aos heterossexuais para conquistar mais votos. Não deu certo. A de Leo Kret fez o contrário. Ela usa e abusa do seu corpo estranho, do seu trânsito entre os gêneros, ela quebra as noções binárias de sexo e gênero.

O problema, dizem alguns críticos, é que ela não tem postura, discurso e estratégia política capaz de se tornar respeitada e de combater a homofobia. Vai manter a representação caricata dos homossexuais, dizem outros. Será? E por que os gays caricatos, afeminados e fechativos não podem estar na Câmara de Vereadores? Que normas acionamos quando queremos criticar ou condenar os gays afeminados e caricatos? Concordo em parte com as preocupações, mas o mandato de Leo Kret, assim como a sua eleição, poderá surpreender muitas pessoas. Ela não é igual ao Clodovil, que disse ter vergonha de ser homossexual. O que menos Leo Kret tem é vergonha.

Por fim, mais uma pergunta: outros estados brasileiros, a exemplo do Rio Grande do Sul, elegeriam Leo Kret? Duvido muito. E isso diz muita coisa. Será que os soteropolitanos, ao elegerem Leo Kret, não mostram mais uma vez que lidam de uma forma diferente com a  sexualidade (a própria e a dos outros)? Essas respostas dariam argumentos mais consistentes e menos óbvios para as perguntas do início do texto.

* professor adjunto da UFRB e coordenador do grupo de pesquisa em Cultura e Sexualidade (CUS), do Centro de Estudos Multidisciplinares em Cultura (CULT), da Facom/UFBA. Professor do Programa Multidisciplinar de Pós-graduação em Cultura e Sociedade. SALVADOR,BA, 8 de outubro de 2008 8h30min.

 

 


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