O GGB    ::    SEJA MAIS UM FILIADO    ::    FAÇA SUA DOAÇÃO    ::    ggb@ggb.org.br
 

Home
Saúde
Movimento GLBT
Grupos GLT
Editorial
Legislação
Direitos Humanos
Orientações
Caderno Cultural
Educação
Agenda 2004
Notícias
Artigos-Opinião
Acontece
Nossas publicações
Turismo
Sociedade
Destaques
Marcelo Cerqueira
Sites
Projetos
Roteiros e serviços

 

  

Crime de ódio

O preconceito que matou Wilson Bueno
Editoria local Salvador, Ba, 9/06/2010 - 22hs - Por Allan Johan direto do Paraná


Escritor Wilson Bueno, assassinado em casa na cidade de Curitiba, PR.

 

Não foi a facada no pescoço dada pelo assassino confesso, um jovem de 19 anos, que ceifou a vida do escritor paranaense e colunista Wilson Bueno, morto em sua casa no último dia 31, em Curitiba. Um dos mais talentosos escritores brasileiros, referência regional, com livros publicados no Chile, Cuba, México, Argentina e EUA, foi morto aos 61 anos de idade pelo preconceito, por viver na marginalidade com medo de perder o seu prestígio, de ter o seu talento confundido com sua intimidade, de ser tachado de homossexual e sofrer o preconceito na carne.

Mas nem sempre foi assim. Bueno, para o desconhecimento da maioria de seus fãs, e pelo jeito da maioria dos jornalistas, já foi um ativista dos direitos dos homossexuais. Antes de Nicolau, premiada publicação dos anos 80, ele participou de projetos igualmente revolucionários, escreveu para o Lampião da Esquina, primeiro jornal gay brasileiro e para a revista Rose, a primeira revista gay, publicada pela Grafipar em Curitiba, no final dos anos 70. Tanta criatividade e genialidade não fugiram do clichê, foi mais um homossexual morto por um garoto de programa.

Há um ano entrei em contato com o escritor para falar sobre a revista Rose, para matéria da Lado A. Foi preciso insistir para que Bueno falasse sobre o passado. “Eu não posso”, dizia ele repetidamente, seu reconhecimento como grande escritor estava em ascensão, ele foi categórico e disse: “Não falo sobre o passado”. Elogiei o seu trabalho, sobretudo o livro “Mar Paraguayo”, genialmente escrito, elogiei também o trabalho pioneiro que sempre o acompanha. Por algum motivo, ele me confiou suas palavras e falamos sobre a revistinha gay de 30 anos atrás que começou como uma revista para mulheres mas acabou fazendo história. Ele não negou ser homossexual, mas mostrou que não queria saber de militância, de coisas gays. Marcamos de sentar para conversar um dia, mera formalidade jamais concluída.

Homossexuais que se anulam, que fogem do rótulo, que evitam se assumir, acabam precisando exercer a sua sexualidade em momentos de latência, e muitas vezes se envolvem em situações de risco, são vítimas de chantagem, vivem com o medo de serem descobertos. Esse estresse gerado pela sociedade, que não aceita o casamento gay, que apóia a discriminação, que faz piadas com gays na tevê, tem um papel devastador na psique do homossexual. Há casos de homossexuais que chegam a negar a própria sexualidade para se sentirem aceitos ou parte da maioria, casam com mulheres, muitos chegam a agredir outros homossexuais para combater o desejo interno. Ser homossexual não é doença, não é opção sexual, opção é como você enfrentará o preconceito e como vai se assumir. E essa escolha tem consequências, muitos sabem e fogem. O discurso contrário a isso, inverso à cidadania plena dos homossexuais, coloca os gays como seres inferiores e isso é devastador, abate a auto estima, o sentimento de autopreservação e muitos chegam a se matar.

Bueno morreu por sustar um cheque a um michê de rua. A princípio foi noticiado que o rapaz fazia um serviço de demolição na casa do escritor. Depois, o próprio rapaz assumiu que o pagamento de R$130 incluía também um programa sexual com o falecido. Seja lá o motivo que levou Bueno a cancelar o pagamento, que acabou gerando seu assassinato, é preciso ver a razão que levou um escritor bem sucedido apelar para o sexo pago, com um marginal, em sua casa. Não tenho dúvidas. Ele não queria criar alardes, não queria ser identificado em uma sauna gay, ou em um motel, ele queria poder se saciar anonimamente e, por instantes, se sentir completo, sem prejudicar a sua carreira.

No Brasil, 200 homossexuais são assassinados por ano, segundo o Grupo Gay da Bahia. Uma morte a cada dois dias, todas com registro na imprensa, com seus devidos requintes de crueldade anotados. Assassinatos estes que incluem os cometidos por falsos garotos de programa que cometem latrocínio. Muitos deles pobres coitados que também tem dificuldade para se aceitarem como homossexuais ou bissexuais e justificam o sexo com outros homens apenas pelo dinheiro. O número real destas mortes deve ser bem maior, nunca saberemos.

Enquanto a sociedade jogar os homossexuais para a margem, os gays precisarão lidar com a marginalidade. Tenho certeza de que se o homossexual tivesse igualdade de direitos e não sofressem com o preconceito dentro de casa, na escola, no trabalho e em outros locais, a vida toda, que as estatísticas seriam menores. Muitos gays se orgulham de não fazer parte do mundo gay, do submundo, mas cedo ou tarde eles entrarão em contato com ele, mesmo que contra a própria vontade, pois a sociedade empurra o gay à margem, ao desespero. Isso sem falar que o assassino julgou Bueno como um ser inferior por ser homossexual, e o matou, a sangue frio, pois seu machismo dizia que ele possuía este direito.

Penso em quantos homossexuais precisarão morrer, geniais ou não, para que a sociedade entenda o mal que o preconceito faz e o prejuízo humano que ele traz. Estamos falando de pessoas, de seres humanos, e isso não deveria ser um tabu.

 

 


Voltar

  __________________________________________________________________________________________________________
  Grupo Gay da Bahia - GGB
Rua Frei Vicente, 24 - Pelourinho - Caixa Postal 2552
CEP 40.022-260. Salvador / Bahia / Brasil 
Tel.: (71) 321-1848 / 322-2552 / 322-2176
Fax: 322-3782
 
__________________________________________________________________________________________________________

         © 2003, Todos os direitos reservados, Grupo Gay da Bahia