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A vida de Paulo Coelho sem cortes

De homossexualidade a drogas, Fernando Morais conta tudo em ‘O mago’
Fonte Local Jornal Correio da Bahia 31/05/08



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FICHA
Livro: O mago
Autor: Fernando Morais
Editora: Planeta do Brasil
Preço: R$60, 632 páginas

 

 

 

 

São Paulo – Paulo Coelho nunca pretendia ser músico, apesar da parceria de sucesso com Raul Seixas, tampouco ser dramaturgo, embora tenha conhecido um razoável sucesso nos palcos. “Ele sempre sonhou em ser um escritor lido em todo o mundo – não bastava apenas o sucesso, mas com leitores em todos os pontos do planeta”, conta Fernando Morais que, no baú secreto do autor, descobriu desde a asa do primeiro passarinho que matou (um tiziu, em Araruama) até um encontro com o diabo registrado em 25 de maio de 1974, no auge da relação de Coelho com a bruxaria.

“Não sei explicar como aconteceu, mas estou convencido de que alguma coisa aconteceu, pois há episódios que ele descreve minuto a minuto”, conta o biógrafo, em entrevista especial para Ubiratan Brasil, da Agência Estado.   

PERGUNTA - O rumo da biografia foi outro depois da descoberta do conteúdo do baú?

FERNANDO MORAIS - Sim, totalmente. Eu já estava com o livro escrito, pois tinha feito mais de 200 horas de entrevista com ele, além de ter conversado com 80 pessoas, aproximadamente. Também realizei três viagens à Europa, uma ao Oriente Médio e outra à Europa Oriental, além de ter morado oito meses no Rio. Foi quando abri o baú e me deparei com 170 cadernos grossos e cerca de cem fitas. Isso  rendeu 90 CDs de áudio, o que mudou toda a minha pesquisa. Precisei até fazer  mais uma viagem à Europa.   

P - O que mais o surpreendeu?  

FM - É difícil dizer, pois era um choque atrás do outro. Uma sucessão de tragédias, desde a infância até a idade adulta: a perda da fé; a enorme confusão sexual em que ele viveu até os 30 anos; a relação com os pais, que o internaram três vezes no hospício. O que me chamou atenção era a obstinação de ser um escritor lido no mundo todo. Quanto mais o tempo passava, mais ele se remoía em depressões, crises de angústia, por não ser alguém conhecido mundialmente. Ele escrevia: “Na minha idade, os Beatles já eram conhecidos no planeta e eu ainda não sou ninguém. Não passo de um merda”. Acho que ele foi um roqueiro  brilhante, suas letras com Raul Seixas, dizem os críticos, têm mais qualidade que sua produção literária e lhe trouxeram um conforto: em um ano de trabalho, já tinha seis apartamentos no Rio. Poderia ter sido um dramaturgo de sucesso, certamente seria um executivo da indústria fonográfica, mas não era isso que queria. Sua obstinação era ser o que é hoje.

P - Qual foi a importância da fase roqueira?  

FM- Foi boa para ele sentir o sabor da fama, ainda que o famoso da dupla fosse o Raul Seixas. Mas a fase musical ocupa apenas 10% de sua vida, que é também a importância que hoje ele dá a esse momento, apenas um fato passado. Não é que não goste, até já o vi cantando algumas de suas canções – o que realmente interessa é a carreira literária. Há uma frase que se repete ao longo de sua obra, que é a busca de um sonho. Creio que isso resume sua vida, sua obsessão.   
P - A obstinação explicaria as confusões religiosas e o pacto com o demônio, que marcam sua vida?
 
FM - Em parte, sim. Ele recebeu uma educação jesuíta dura, transformou-se em um cristão absoluto até romper com tudo e se meter com satanismo, seitas, sacrifício de animal. A volta aconteceu em 1982, quando teve o que chamou de epifania no campo de concentração da cidade alemã de Dachau, onde disse ter visto um vulto. Não importa o que realmente aconteceu – aquilo provocou uma mudança profunda: ele largou as drogas e se tornou escritor, pois dali saiu para fazer o caminho de Santiago e publicar seu primeiro romance. O início da carreira se dá exatamente depois desse fenômeno em Dachau, que marca também sua volta ao cristianismo. Sobre o pacto com o diabo, foi uma combinação de fatos: ele foi preso pelo  Dops, seqüestrado pelo DOI-Codi (que ele vai descobrir agora, lendo o livro) e tem o encontro com o demônio, na chamada Noite Negra. Isso o faz romper com Raul Seixas, pois ele acreditava que faziam invocações para o mal.

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Sem concessão ou piedade

São Paulo - Fernando Morais pretendia dar o título Em carne viva à sua biografia do escritor Paulo Coelho – seria uma decisão apropriada, uma vez que das mais de 600 páginas resultantes de três anos de pesquisas surgiu o perfil de um homem complexo, revelado sem nenhuma concessão ou mesmo piedade. O problema é que Carne viva é o título do último romance de Paulo Francis, recentemente lançado pela editora Francis.

A solução foi batizar a biografia de O mago, e assim ela chega na próxima semana às livrarias, sob a chancela da editora Planeta do Brasil, que promove um esquema monstro de lançamento: são 100 mil exemplares na primeira remessa, além de promessa de tradução para 40 países. A dissecação, no entanto, continua a mesma – autor de biografias célebres como Chatô e Olga, Fernando Morais reúne no livro um punhado de informações que vão surpreender o próprio Paulo Coelho que, por acordo firmado, não avaliou o trabalho de apuração tampouco o resultado final. “Ele deve receber o livro na sexta-feira (ontem) e só então descobrir como ficou”, conta o biógrafo.

A sensação deverá ser a mesma de um homem que se vê nu diante de uma platéia de milhões de pessoas – em O mago, Morais detalha a trajetória pessoal do escritor vivo que atualmente consegue ser mais traduzido que Shakespeare no  mundo. Um relato que não esconde pactos com o diabo, sacrifícios de animais, internações em hospícios, prisão pelo DOI-Codi, relações homossexuais, consumo de drogas, sucesso como letrista até a descoberta de uma poderosa espiritualidade e a notoriedade como escritor, que o tornou uma figura conhecida até na Sibéria, despertando admiração de reis, papas e chefes de estado. “Confesso que eu não me sentiria bem se meus segredos mais íntimos fossem revelados dessa forma”, comenta Morais, que espera por um telefonema do escritor nos próximos dias, revelando sua opinião.  

Os detalhes mais surpreendentes, na verdade, foram oferecidos pelo próprio Paulo Coelho. Morais conta ter ficado curioso com um pormenor do testamento do escritor: a determinação de que um baú, trancado à chave e guardado em seu apartamento de Copacabana, seja imediatamente incinerado após sua morte. “Eu quis saber o conteúdo, mas ele dissimulava até que, diante de tanta insistência,  propôs um jogo: Paulo me daria as chaves se eu descobrisse quem foi o militar que o prendeu em um quartel no Paraná, em agosto de 1969, confundindo-o com um guerrilheiro.”

Desafio aceito e cumprido – Morais abriu o baú depois de enviar, por e-mail, os dados pedidos pelo escritor. Lá, a surpresa: 170 cadernos com os diários de Paulo Coelho de 1960 a julho de 1994, além de cem fitas cassetes, com informações bombásticas, desde descrições objetivas até divagações existenciais. “Tive de alterar todo o trabalho realizado.” (Ubiratan Brasil/AE)

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TRECHOS

Homossexualidade: “Já estava de novo instalado na casa dos pais e a peça continuava  em cartaz quando o diabo da homossexualidade decidiu tentá-lo mais uma vez. Agora a iniciativa não partiu dele, mas de um ator de cerca de 30 anos que também trabalhava na peça. Na verdade, os dois só haviam trocado algumas palavras e olhares, mas numa noite, após o espetáculo, o outro o abordou sem meias palavras: ‘Quer dormir comigo lá em casa?’ Nervoso e surpreso com a cantada inesperada, Paulo respondeu o que lhe veio à boca: ‘Sim, quero, sim.’ Passaram a noite juntos. Apesar de se lembrar, muito tempo depois, que sentira certa abjeção ao se ver trocando carícias com um homem, fez sexo com ele, penetrando-o e se deixando penetrar.” 

Pacto: “Prestes a completar 25 anos, (Paulo) não passava de um joão-ninguém, sem a mais remota perspectiva de um dia tornar-se um escritor famoso. O beco parecia sem saída e a dor dessa vez era tão profunda que, em vez de implorar socorro à Virgem Maria ou ao indefectível São José, como costumava fazer, Paulo resolveu se entender com o Príncipe das Trevas. Se lhe desse poderes para realizar todos os seus sonhos, o diabo receberia em troca a sua alma (...) Utilizando uma caneta de tinta vermelha (‘cor do referido ente sobrenatural’), começou a redigir o pacto, sob a forma de uma carta dirigida ao diabo (...) Mas fez questão de deixar expresso que aquele era um teste, não um contrato eterno. ‘Conservo o direito de voltar atrás’, prosseguiu, sempre em letras vermelhas, ‘e quero acrescentar que só faço isto movido pelo desespero completo  em que me encontro’. O ajuste não durou nem uma hora. Fechou o caderno, saiu para fumar um cigarro e caminhar na praia e, ao voltar para casa, estava pálido como um defunto, aterrorizado com a loucura que fizera. Abriu de novo o caderno e escreveu em letras maiúsculas que ocupavam toda a página: PACTO CANCELADO. EU VENCI A TENTAÇÃO!”

 

 

 


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