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Perfil: De seminarista à líder de movimento gay
“Espero que muitas pessoas possam se engajar em construir um mundo onde todos sejam respeitados.” Luiz Mott. Verdade e justiça. As duas palavras são usadas por Luiz Mott, presidente do Grupo Gay da Bahia (GGB), para se autodefinir. “Minha vida, ações, pesquisa e militância são baseadas nisso. A ciência baseia-se em verdades, empiricamente falando, e considero a justiça como a maior das virtudes, pois reconhece os direitos das pessoas”, explica o paulistano que vive há mais de 30 anos em Salvador (BA). Doutor em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo (USP) e mestre pela Universidade Sorbonne de Paris, se aposentou faz cinco anos, após ter lecionado antropologia na Universidade Federal da Bahia (UFBa). Atualmente, ainda mantém vínculos com o Programa de Pós Graduação em História da UFBa, orientando dissertações e eventualmente ministrando palestras. Mott sempre esteve voltado à pesquisa. Para ele, sua maior contribuição, em termos da história da homossexualidade, ainda está por vir. Um estudo dos mais de 500 sodomitas [palavra de origem bíblica usada na época medieval para designar pessoas que tem relação homossexual] do Brasil, Portugal e África perseguidos pela Inquisição. O material está em sua casa e aos poucos tem trabalhado nele. Mas, há quase 25 anos Luiz já vem colaborando para a reflexão sobre a homossexualidade no campo acadêmico. Lançou mais de dez livros sobre o assunto, incluindo “O Lesbianismo no Brasil”, a primeira obra do país a dar uma visão histórica, literária e política sobre as lésbicas brasileiras.
- Agora, a luta é pela criminalização da homofobia, diz presidente de movimento gay Quando perguntado sobre sua maior conquista, o presidente do GGB não hesita: “ter dedicado metade da minha vida, mais de 30 anos, à defesa dos direitos humanos dos gays, lésbicas e travestis”. Prêmios reconhecendo a militância de Luiz são diversos. Em 1998, recebeu o título de Cidadão de Salvador da Câmara Municipal da capital baiana. “Guardo a mesma garra de quando iniciei nessa luta. Espero que muitas pessoas possam se engajar em construir um mundo onde todos sejam respeitados.” Certa vez, fomos ao Farol da Barra para ver o pôr do sol. Sentamos discretamente. No momento em que fui pegar minha moto, um jovem que havia nos visto juntos me deu um bofetão na cara. Isso me deixou profundamente abalado”, conta. Hoje, Luiz está bem tranquilo com relação à sua sexualidade, mas lembra que não foi sempre assim. Passar de filho de família religiosa e seminarista à líder de movimento homossexual não foi fácil. “Vivi a infância numa família de classe média alta católica. Todos se reuniam para a missa dominical”. Luiz conta que sofria com preconceito das outras pessoas e de si mesmo: ele tinha uma homofobia internalizada, que o impedia de se assumir. Início da discriminação Luiz Roberto de Barros Mott nasceu em 6 de maio de 1946. Filho de Leone Mott, italiano, e Odete de Barros Mott, brasileira, Luiz é o sexto filho mais novo de uma família de oito irmãos. Viveu o início da infância no bairro do Jardim São Paulo na capital paulista, quando estudou o chamado primário no colégio Liceu Coração de Jesus, no Bom Retiro. Hoje, Luiz está tranquilo com relação à sua sexualidade, mas diz que não foi sempre assim. Quando mudou para próximo de uma igreja no bairro do Sumaré, Luiz — então com nove anos — começou a alimentar a ideia de se tornar seminarista. Os pais gostaram. Para Mott, sair de casa também significou a fuga de uma opressão: a violência moral por parte dos irmãos. Tornou-se primeiro coroinha em São Paulo para depois seguir para um seminário em Juiz de Fora (MG). Na Escola Apostólica de São Domingos, estudou para se tornar padre. “O seminário foi uma experiência importante em termos de disciplina e de austeridade. Não havia chuveiro de água quente. No café da manhã, só pão seco. Tive bons professores. Ensinaram-me a falar francês, noções de latim, grego e inglês, conhecimentos de história e tive boa formação humanística”, avalia.
“No seminário, fui um adolescente marcado pela espiritualidade. Vivia o dia todo pensando em Deus”, lembra Mott. “Nessa época, já sentia uma ‘tendência’ homossexual, que eu reprimia. Estava com medo, porque sabia ser um pecado muito grave dentro da moral cristã.” Durante mais de três anos, manteve uma relação platônica com um seminarista mais velho. Flaviano estava com 17 anos e Luiz tinha 15. Sentia-se culpado. “Mas não chegamos a nenhum tipo de intimidade física. Trocamos inúmeras cartas, tínhamos conversas muito amigáveis.” Quando voltou à São Paulo, foi para o Seminário Maior Dominicano, em Perdizes, e começou a estudar filosofia. Percebeu então que o gosto pela vida religiosa já não era tão forte como imaginava. Em 1964, com quase 18 anos, mudou radicalmente seu projeto de vida. “Essa experiência foi traumática, porque existia uma pressão familiar. Mas me senti suficientemente forte para largar o seminário”. Agora, estava novamente na casa dos pais, no bairro do Sumaré.
Para Luiz, sua maior conquista é a dedicação há 30 anos à defesa dos direitos humanos dos gays, lésbicas e travestis. Quando saiu do seminário, Luiz reatou algumas amizades. Eram colegas e vizinhos que viviam próximos à casa dos pais. “Certa vez um deles falou de mulheres com quem poderia transar. Com o desejo de reforçar a minha heterossexualidade, já que os meus sonhos eram quase todos homoeróticos, tive a primeira experiência com uma moça”, conta.
Luiz sempre teve vontade de viver no Nordeste. Mudou-se para Salvador. Lá se apaixonou por Haroldo, com quem viveu sete anos e quem sugeriu o nome para o movimento social que Luiz acabara de criar, em 1980. “No primeiro documento que publicamos, não coloquei o local onde nos reuníamos com medo de algum tipo de repressão”, relembra. Quando mudaram para uma quitinete na Praça Castro Alves, onde o grupo passou a se reunir, enfrentaram problemas com a discriminação da vizinhança. Hoje, o GGB funciona na Rua Frei Vicente, no Pelourinho. Um homossexual é morto a cada 36 horas no Brasil A cada um dia e meio, um homossexual brasileiro é assassinado, vítima da homofobia. A conclusão é do relatório anual elaborado pelo Grupo Gay da Bahia (GGB). Segundo o levantamento, 260 gays, travestis e lésbicas foram mortos em 2010, 62 casos a mais do que em 2009. O número representa um recorde histórico. Logo depois de fundado, o movimento tomou como primeira campanha a luta para retirar a homossexualidde da classificação internacional de doenças, da Organização Mundial de Saúde (OMS), que a considerava como um transtorno sexual. Para isso, organizaram uma campanha nacional. Dezesseis mil assinaturas foram coletadas. Obtiveram o apoio de políticos importantes: Franco Montoro, Ulisses Guimarães, Darcy Ribeiro. Em 1985, o Conselho Federal de Medicina no Brasil retirou a homossexualidade da classificação de doenças. Internacionalmente, esta alteração só ocorreu em 1994. Após o Supremo Tribunal Federal (STF) brasileiro ter reconhecido a união homossexual, no início de maio deste ano, o próximo passo já está firmado pelo movimento gay: a luta pela aprovação do projeto de lei que prevê a criminalização da homofobia, parado no Senado há mais de dois meses. A relatora da proposta, Marta Suplicy (PT-SP), tem enfrentado resistência da bancada evangélica para dar continuidade à questão.
Hoje, Luiz mora há seis anos com o pedagogo Ronaldo Assis e está feliz. No entanto, para ele, a lentidão com que tramitam as leis relacionadas aos homossexuais no Congresso é sua maior frustração. “Espero ainda estar vivo para testemunhar a vitória da criminalização da homofobia, que não garante privilégios, mas direitos iguais, nem menos e nem mais”, afirma.
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