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PASTOR MARCOS GLADSTONE!
Editoria local Salvador, Ba, 25/04/2010 - 14h47 min
Acomunidade LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transexuais) e setores progressistas da sociedade ficaram absolutamente estarrecidos com as declarações do secretário de Estado do Vaticano, Tarcisio Bertone, associando a homossexualidade à pedofilia. Não resta a menor dúvida de que a pedofilia está diretamente ligada a uma prática perversa e abusiva. Falta ao pedófilo algo essencial para o comportamento humano em uma sociedade que viva em estado de direito: constituir o outro como sujeito. Os homens e mulheres (sim porque a pedofilia não é apenas uma perversão masculina) que cometem esse crime não atribuem a suas vítimas nenhuma qualidade enquanto seres humanos. Estas são simplesmente e desgraçadamente objetos de um abuso que toda a sociedade, em uníssono, deve condenar moral e legalmente. Entretanto, atrelar a homossexualidade a isto consiste igualmente em um crime de grave irresponsabilidade, pois destitui a homossexualidade de sua estrutura básica: a de uma simples variação da sexualidade humana, ainda que a heterossexualidade se apresente como predominante. Afirmar que homossexuais não são pedófilos em potencial seria trazer essa discussão para a superficialidade da declaração de Tarcicio Bertone. Isso todos nós já sabemos, mesmo que alguns argumentos claramente homofóbicos e segregadores insistam em discordar disso. O que alguns setores retrógrados de nossa sociedade preferem fingir não ver é a mais clara das realidades: que a homossexualidade não é apenas um comportamento, ou prática, ou modalidade sexual. Trata-se - e devemos insistir nisso até derrubarmos todas as formas de preconceito - de uma orientação sexual que creio ser inerente àqueles que expressam seu afeto e desejo desta forma. A questão crucial seria então a maneira pela qual essa orientação sexual se desdobra, se estrutura e constitui-se no sujeito como desejo natural. Reparem que não falei de homossexualidade e sim de sexualidade, pois há diversos casos de abusos sexuais de meninos, mas também de meninas. Nisso precisamos concordar em parte com o padre Bertone; não é o celibato clerical que causa a efervescência pedófila na Santa Sé. Mas não é tampouco a homossexualidade, e sim uma sexualidade vivida de forma doentia e destrutiva. Como pastor evangélico de uma denominação cristã inclusiva sempre digo em minhas mensagens pastorais, durante nossos cultos, que a pedofilia é claramente um transtorno confirmado pela Classificação Internacional de Doenças. Como jurista que sou não posso fugir a responsabilidade de dizer que se trata de transtorno e crime! Como HOMOSSEXUAL assumido e casado com outro pastor evangélico, não posso ainda deixar de me indignar com as distorções abusivas do secretário Tarcisio Bertone, pois além de não ser pedófilo nunca fui vítima de pedofilia. Minha homossexualidade é algo absolutamente natural em mim, e a reconheço como uma variação saudável e inclusa no plano de salvação de Deus para a minha vida. Essa é a verdade que vivo, prego e anuncio. Enquanto nos dermos o direito de fazer afirmações irresponsáveis como a deste religioso, estaremos colaborando perversamente com um mundo de exclusão, preconceito e trevas; mas também estaremos deixando de atacar o real problema: a necessidade da construção de um mundo onde as pessoas possam viver sua orientação sexual com dignidade, cidadania, saúde e respeito. Talvez isso diminua sobremaneira o flagelo que tanto atinge as dependências da Santa Sé e de tantos outros lugares onde seres humanos são abusados diariamente e violentados em sua sexualidade. PASTOR MARCOS GLADSTONE é fundador da Igreja Cristã Contemporânea
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