SALVADOR, BA - 25/05/07 - Impressionante é pensar que foi apenas em 1973 que a Associação Americana de Psiquiatria excluiu a homossexualidade do seu Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM).
A dissociação dos conceitos de homoerotismo e patologia foi fundamental, obviamente, mas sua associação a idéias medievais de pecado, desvio ou marginalidade – realizada insistentemente pelos segmentos religiosos judaicos, cristãos e, sobretudo, muçulmanos, assim como por parte de setores políticos conservadores de direita – continua prejudicando seriamente não só gays, lésbicas e bissexuais, mas toda a sociedade.
O discurso negando o que seria uma conquista simples da modernidade – a aceitação da orientação sexual, que é constitutiva de cada indivíduo – alimenta manifestações de violência contra homens e mulheres nesta condição em todas as partes do mundo.
Sem o carisma de João Paulo II e paramentado com seus óculos Gucci e seus sapatos Prada, bem ao gosto da sofisticada elite européia, o papa Bento XVI ignora conscientemente essa conseqüência e, em vez de repensar o dogma, faz recrudescer o estigma. Ao dizer que o amor entre pessoas de mesmo sexo é antinatural e condenar a união dessas pessoas, o sacerdote não ajuda a sociedade a lidar melhor com a questão.
Assim sendo, hoje, 17 de maio, Dia Internacional Contra a Homofobia, alguns dias depois da badalada visita de Sua Santidade ao Brasil, temos uma boa oportunidade de refletir sobre o tema. Não se deve esquecer que Bento XVI é um upgrade do reacionário cardeal alemão Joseph Ratzinger, e os dois – não sei se erro nas contas – vestem Prada.
O cidadão de alto poder aquisitivo que lê o jornal de hoje no confortável sofá de sua residência pode não imaginar, mas a homofobia é um mal que traz em essência um severo controle social. Isso é tanto causa de desconforto quanto o racismo ou a discriminação por condição econômica de outros, embora de forma mais sub-reptícia, enfronhada no cotidiano com tal sutileza que só quem está na situação de se ressentir com possíveis achaques e acintes é que detecta imediatamente sua presença nociva. Para estes, não há sutileza nenhuma. Sujeitos de suas vontades, mas submissos às condições de enquadramento ideológico naturalizadas no dia-a-dia, gays, lésbicas e bissexuais ficam impedidos de viver suas vidas em plenitude de comportamento e afirmação.
Talvez a grande dificuldade de se entender a questão esteja na formulação do próprio termo "homofobia", cunhado pela primeira vez pelo psicólogo norte-americano George Weinberg, em 1971, para designar "a opressão premeditada ao homossexual, incluindo ódio, medo, discriminação, assédio moral e violência física". Assim, aquela brincadeira "sem maldade" em que um sujeito arremeda os modos considerados pouco masculinos de seu colega de trabalho (ainda que este não seja gay) não é vista como homofobia.
O humorista Renato Aragão, encarnado no seu personagem Didi Mocó (não no de embaixador do Unicef ou no de apresentador do Criança Esperança) faz isso há décadas na tevê, ensinando às crianças brasileiras como tratar outras crianças e adultos que têm comportamento diferente do padrão macho-fêmea. Para quem não lembra, quando o humorista Mussum (Antônio Carlos Bernardes Gomes, 1941/1994) era vivo, Renato também fazia piadinhas racistas com ele – mas isso foi bem antes de chegarem as leis que tornaram a discriminação racial um crime.
No caso da homofobia, o mero rigor da lei não seria uma solução eficaz, ainda que seja urgentemente necessário. Embora a política do homossexualismo venha sendo construída de forma virtualmente idêntica à do problema da discriminação racial, calcada pelos liberais nas leis do direito civil, são assuntos extremamente diferentes. Na ilusão da democracia, a lei tem que fazer de conta que está resolvendo o mesmo problema central com cada um desses grupos heterogêneos.
As expressões da sexualidade humana não são uma configuração estanque da consciência humana, cujo mistério seria primazia dos que detêm o poder, a fim de controlar aqueles que não têm poder (e esse poder é, basicamente, a consciência de si). Isso é uma ordenação tacanha e arbitrária que existe há milênios, contra a qual há avanços, mas que – enquanto não houver respeito ao outro, em sentido pleno – não tem hora para acabar.
Sandro Lobo é editor de Salvador e Bahia de A TARDE. E-mail: sandro.lobo@gmail.com