Sessão
Solene do Orgulho Gay no Legislativo Soteropolitano rende
homenagens ao Dia 28 de Junho.
Por Marccelus Bragg
“O
dia em que a Câmara Municipal desmunhecou” ou
“mantenha a cidade limpa, mate uma bicha todo dia”
– frases a tentatórias contra a dignidade GLBT
– parece que nunca existiram, soam como se pertencessem
ao passado distante, um tempo segregador e cruel em uma Salvador
injusta. Mas as frases existiram sim, alguém as escreveu
embasadas no próprio preconceito e foram estampadas
no maior periódico do Norte e Nordeste. Pois bem, duas
décadas depois, os mesmos homossexuais que foram humilhados
pela mídia reacionária, pelos vereadores retógrados
e pelos poderes constituídos daquela época,
voltam com uma força inimaginável, o clamor
da conscientização tomou corpo, fez-se real.
Mas nem tudo é comemoração.
E quem esteve na Sessão Solene desta quinta-feira última,
promovida pela vereadora Vânia Galvão do PT,
comemorativa ao Dia Internacional do Orgulho Gay – 28
de Junho, no Plenário Cosme de Farias do Legislativo
soteropolitano, vai poder confirmar – aconteceu uma
“lavagem da alma” um troco no mais alto nível,
pois a “Luva de Pelica” da vez foi o discurso
repleto de relatos impactantes que o doutor em estética
da UFBA, prof. Ricardo Liper proferiu “ aqui mesmo do
lado deste prédio da Câmara, uma multidão
ensandecida pelo ódio aos homossexuais fez com que
uma pobre vítima, parda [menção de momento]
e pobre, se atirasse na sua fuga desesperada, achincalhada
sob os gritos de viado, pega este piado descarado para dar
porrada, sobre uma vitrine, se estilhaçando sobre os
vidros, lhe ocasionando cortes horríveis, numa cena
de crueldade, uma pena de morte às caras e à
olho nú”.
Já
para o prof. Luiz Mott, decano do Movimento Homossexual Brasileiro,
“ em 1980 fundamos o Grupo Gay da Bahia e para se conseguir
registrar a agremiação como tal, foi necessária
a intervenção de um Juiz corajoso, Gudesten
Soares, porque os cartórios se recusavam a fazê-lo.
Para se conseguir o reconhecimento de Utilidade Pública
Municipal, Grupo Gay da Bahia assumiu um enfrentamento que
culminou com a vitória, mas não foi fácil.
E culturalmente, advém das famosas “Mareatas
Gays” na década de 80 “um giro de barco
ao redor do Forte de São Ma rcelo”, quando iniciávamos
as comemorações do DIA da CONSCIÊNCIA
HOMOSSEXUAL - 28 de JUNHO, o que hoje nós assistimos
estupefactos pelo sucesso de público e de organização,
que são as estrondosas Paradas Gays como a recente
de São Paulo que reuniu 3,5 milhões de pessoas,
a maior do mundo. Mas a contrapartida desta exposição
e do reconhecimento a alguns direitos GLBTs, são os
alarmantes índices de crimes contra homossexuais. É
doloroso por exemplo a recente perda do prof. Lamarck da UFBA,
a quem o próprio reitor qualificou como “grande
colaborador da Universidade, uma perda irreparável”.
Sem falar nos tantos e tantos crimes de que são alvo
a comunidade gay e o perfil de impunidade que absolve os assassinos.”

Para o anglo-brasileiro, o prof. Dr. Edward Macrae, que tem
no currículum a sua participação ativa
na existência do Grupo SOMOS/SP de imensa combatividade
nos anos setenta, “ a minha experiência de Bahia,
nestes 30 anos em que conheço Salvador é que
houve realmente nos últimos anos a padronização
dos corpos, antes isto não acontecia e o “idatismo”
, a segregação explícita aos mais velhos,
um preconceito que também temos que combater “em
alguns ambientes se sente a sentença “ o que
você está fazendo aqui, você é um
velho” Isto faz mal, fere e humilha. Então, tal
qual os outros insultos racistas, o “idatismo”
tem que ser combatido.
Nos
últimos tempos não tínhamos uma Sessão
tão prestigiada quanto essa. Várias organizações
GLBTs, ONGs, simpatizantes e a garotada do Projeto Se Ligue
do GGB lotaram o Plenario Cosme de Farias e nas palavras do
presidente do Poder Legislativo, o Ver. Valdenor Cardoso
“ esta é a Casa do Povo de Salvador, é
aqui que os mais diversos segmentos tem que se manifestar.
Eu estou honrado por ter feito a abertura, o discurso principal
da Parada Gay do ano passado, é a presença deste
poder legislativo – que emana do povo, e que volta ao
mesmo, nas homenagens que rendemos todo tempo e todo instante
da nossa vida ao estado de direito, à democracia e
ao respeito ao ser humano, independente de qualquer expressão
sexual”
Além da vereadora Vânia Galvão, estiveram
presentes os vereadores José Carlos Fernandez, Aladilce
Souza, Olivia Santana e Valdenor Cardoso. E comporam a mesa,
Valkiria do Palavra de Mulher Lésbica, a Vereadora
Vânia Galvão, a Vereadora Aladilce Sousa, Sassá
do GLBTdo PT, Marcelo Cerqueira presidente do GGB, os professores
Luiz Mott, Edward Macrae e Ricardo Liper, Cristina “Negra
Chris” da Rede afro, etc.
E para quebrar o clima de nostalgia ou de denúcias
que envolve o 28 de Junho, performaces de artistas transformistas
causaram comoção na platéia, especialmente
Fabianne Galvão “ a cambalhoteira”
que desvairada ou desavisada sobre os limites do cerimonial,
saltou sobre
a mesa principal , espantando as vereadoras e fazendo da mesma
a passarela para o seu estrelismo. Já a caricata Aluvânia
Butantãn atacou de “A Perereca da vizinha tá
presa na gaiola, xô Perereca!!!” numa referência
aos cem anos da atriz Dercy Gonçalves e por último
Shandelle Houston, que fez o plenário em peso, se levantar
e cantar, com a versão Vanusa do Hino Gay “I
will Survive - Eu sobrevivo”.
Gentilíssimo e excelente anfitrião, o presidente
da casa, Vereador Valdenor Cardoso brindou à todos
com um coquetel “meritório à data magna
da comunidade GLBT da cidade do Salvador”, servido no
claustro do centenário Paço de Câmara
e Cadeia – vetusto prédio que abrigou o mais
antigo parlamento do Brasil, regado aos saborosos abarás
e acarajés - da travesti baiana tradicionalíssima
da Ribeira - “Valoir”
CONFIRA
A GALERIA DE FOTOS
(Clique para ampliar)
|