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O autor Silvio de Abreu, de "Passione", afirmou que atores gays devem ficar no armário

Salvador,Ba, 26/05/2010 18h30 - por MARCELO CERQUEIRA

Novelista Silvio de Abre.

As declarações do novelista de “Passione” Silvio de Abreu cairam feito bomba na comunidade homossexual brasileira. A reação foi de pura indignação com posicionamento do autor sobre assumir e ficar no armário. Diretamente de Roma onde trabalha por um mês o antropólogo Luiz Mott teve acesso as declarações do novelista Silvio de Abreu e respondeu as críticas através de nota a imprensa.

O novelista declarou a colunista da Folha de São Paulo Mônica Bergamo que  "Ator que assumir que é gay é bobo". Na resposta Mott disse ao novelista “Ator que se assume gay não é bobo não, como defendeu o novelista Silvio de Abreu: é honesto consigo próprio e com seus fãs” declarou o ativista decano do movimento homossexual brasileiro. Mott também acredita que cada um se assume negro, judeu, soropositivo, gay, quando e com quem achar melhor, mas o ativista é categórico na critica quando o assunto é assumir ou ficar no armário. “Viver no armário é compactuar com a mentira, com a homofobia que mata um homossexual a cada dois dias no Brasil”, conclui Mott gay assumido há 35 anos e não se arrependo um minuto!

A homofobia tem sido a verdadeira praga do século XXI. A homofobia internalizada é o maior problema porque nem os psicólogos têm a capacidade de resolver esses conflitos dos homossexuais que não estão em sintonia com o seu ego. Esses homossexuais egos diatônicos são apenas gays de cama, ativos ou passivos desfrutam da homossexualidade sem desenvolver uma identidade negada pela homofobia internalizada.  Na opinião de Leo Mendes, ativista gay da cidade de Goiânia em Salvador participando de evento afirma que homossexuais envenenados com a homofobia interna são os piores seres humanos. “As piores pessoas homofobicas são esses gays que assumem o poder e pregam contra a homossexualidade”, disse.

Leo Mendes é favorável às declarações do colega ativista Luiz Mott em relação assumir e permanecer na gaveta. Para ele ficar no armário é se misturar com baratas, traças, mofo e ácaros nocivos a saúde física e mental. Leo Mendes acredita que esses gays públicos, ricos e que vivem em bolhas de luxo, poder e glória da mídia não tem noção da realidade das pessoas homossexuais que vivem em comunidades cercadas de violência e carências diversas. Muitas delas exploradas, inclusive pelas milicias do tráfico e prostituição.

As estatísticas do GGB apontam que a cada dia um homossexual é assassinado no Brasil vitima da homofobia da sociedade. “É um choque ouvir essas coisas de formadores de opinião”, diz Mendes. “Esses gays homofobicos só lembram o que são quando vão pra cama fazer ativo ou passivo”, conclui Leo Mendes. O que ele fez voi um aviso aos navegantes, aspirantes que em suas novelas não coloca homossexuais, isso é homofobia interna e burrice.

 

Carta aberta de Toni Reis* a Sílvio de Abreu –  É “bobo” querer ser você mesmo e ser feliz?

 Curitiba, PR 30/05/2010 - Sílvio de Abreu, tenho uma admiração pelo seu trabalho desde que me conheço por gente, quando ainda criança assistia animado suas novelas na nossa televisão preto e branco, lá em Pato Branco-PR, no sofá velho de corvim, na casa de madeira: a primeira, Éramos Seis, que é a novela da minha vida; depois, Guerra dos Sexos, lembro até hoje a cena marcante com o Bimbo (Paulo Autran) e a Charlô (Fernanda Montenegro). Sempre gostei do seu bom humor. Já a novela Plumas e Paetês, assisti em Quedas do Iguaçu-PR, na televisão colorida, no sofá de napa, numa casa de alvenaria. Você tem tratado da homossexualidade, entre outras obras, na novela A Próxima Vítima, explorando o envolvimento entre os personagens Jefferson e Sandro. Nesta  novela você prestou um grande serviço, desmistifcando a homossexualidade de forma positiva. A cena em que Sandrinho fala para Suzana Vieira que ele é gay e os dois choram foi para mim um dos momentos mais lindos da televisão brasileira. Em Torre de Babel, havia um casal de lésbicas, que morreu em uma explosão em um shopping center.  Na época nós achávamos que a mensagem subliminar da morte delas foi lesbofobia. Será que não foi?  E agora, com Passione, sem grandes comentários, vamos ver no que vai dar! Hoje assisto a novela no nosso apartamento, numa televisão de plasma, no sofá de tecido.

Por que estou escrevendo para você?

 Semana passada, você teria afirmado para a colunista Mônica Bergamo, da Folha de São Paulo, que atores homossexuais não devem assumir a sua orientação sexual para não prejudicar seus trabalhos na televisão, porque a revelação pode decepcionar o público feminino, que prefere ver os galãs heterossexuais na tela, e que a melhor opção, nesses casos, é permanecer no armário. “Se ficarem falando por trás, não tem importância. Se ele falar abertamente, vai prejudicar. Ator que fizer isso é bobo”.

Bobo vem do latim ‘balbu”, e significava “gago”. Segundo o dicionário, bobo quer dizer “indivíduo defeituoso, ridículo, tolo e maluco.”

Vejo que o aparelho de televisão evoluiu, e o sofá e a residência também. O que parece não ter evoluído é a mentalidade em relação ao assumir-se homossexual. Nas palavras de Elis Regina, “ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais.” John Lennon compôs uma música chamada Imagine. Eu fico imaginando como seria se fizessem no Brasil o Dia Sem  LGBT. Muitas instituições não funcionariam. Com certeza, o Projac não funcionaria, e não seria apenas maquiadores ou cabeleireiros que faltariam.   

Silvio, vou te contar resumidamente um pouco da história da minha vida para você entender um pouco da minha tristeza e indignação com sua declaração.

Quando falei para minha mãe, aos 14 anos de idade, que eu era gay, ela não teve dúvida. Não me chamou de bobo, mas me mandou para o médico me “curar”. Não deu certo. Procuramos a Igreja Católica e fiz promessa para Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, não deu certo. Fiz novena, mas como eu tive várias recaídas, tive que recomeçar a novena e ela virou quarentena. Fui ao culto da igreja evangélica Assembleia de Deus, não deu certo. Fui ao Centro de Umbanda e tive que fazer uma oferenda, porque o pai de santo me falou que eu tinha uma pomba-gira desgovernada, mas não deu certo. Fiz muita simpatia, que não convém descrever aqui. Não funcionou. Permaneci gay. Fazer o quê?

Para resumir a história, minha mãe falou para mim quase cochichando, “meu filho, já que não tem jeito mesmo de você se curar deste mal, não fale para mais ninguém. Se falar, eu vou sofrer, você vai sofrer, todo mundo da nossa família vai ser motivo de chacota.” Vejo na afirmação que você fez o eco das palavras da minha mãe.

O que fiz? Saí da minha cidade. Estudei. Fui para a Europa onde fiquei por quatro anos. Quando voltei, fundei o primeiro grupo gay do Paraná e depois, em 1995, juntamente com outros 31 grupos, fundamos a ABGLT – Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais. Por força do ofício, eu assumi minha homossexualidade de forma muito explícita, o que recomendo a todos e todas. Foi como tirar o peso de dois sacos de cimento das costas. Não precisei mais mentir ou omitir. 

Depois de me apresentar, e me referindo à Constituição Federal, sei que as pessoas têm o direito à privacidade. O artigo 5º, inciso X, da Constituição oferece proteção ao direito à reserva da intimidade, assim como ao da vida privada. Segundo Celso Bastos e Ives Gandra, intimidade consiste "na faculdade que tem cada indivíduo de obstar a intromissão de estranhos na sua vida privada e familiar, assim como de impedir-lhes o acesso a informações sobre a privacidade de cada um, e também impedir que sejam divulgadas informações sobre esta área da manifestação existencial do ser humano," opinião da qual comungo e procuro respeitar.  

Por outro lado, para nós LGBT que sofremos todo tipo de discriminação (vide o item Pesquisas em www.abglt.org.br/port/pesquisas.php), é muito importante que tenhamos referências positivas de gays, lésbicas e pessoas trans nos meios de comunicação, e não apenas caricatas estereotipadas, ou ausência de referências. Isto vale tanto para diminuir o preconceito presente na sociedade de modo geral, como também ajuda os jovens que estão se descobrindo LGBT a terem menos dificuldade em se assumir e a não se sentirem inferiores por causa de sua sexualidade diferente da convencionalmente aceita.

Com a sua afirmação de que é bobo o ator galã que assume sua orientação sexual, você reforça o preconceito, a discriminação e principalmente o estigma existentes contra as pessoas LGBT. Sério.

Sílvio,você como o formador de opinião que com certeza é, basta ver os mais de 230 sites e blogs e mais de 30 jornais nos quais sua fala repercutiu, espero que você não esteja recomendando que as pessoas ajam com hipocrisia, que “é o ato de fingir ter crenças, virtudes, ideias e sentimentos que a pessoa na verdade não possui”. A vida não é um palco iluminado. Ela deve ser vivida intensamente, porque também ela não é um ensaio. Aqui meu amigo, a vida é um ato só, e não tem direito a uma reprise, embora tenha gente que acredite que pode fazer um remake.  

Peço que você analise esta frase do nosso querido Caetano Veloso, da música Dom de Iludir: “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é.” Quando uma pessoa assume sua verdadeira orientação sexual, ela deixa para trás muitas coisas ruins, não precisa mais mentir e fingir. Não corre o risco de ser chantageada. Não precisa mais correr risco de vida.

Você sabia, Sílvio, que muitos gays famosos (atores, políticos, religiosos, jogadores...) acabam sendo mortos por se exporem, muitas vezes levando pessoas estranhas para suas casas às escondidas, por não poderem ser o que realmente são. Ficar no armário causa baixa autoestima e aumenta a vulnerabilidade. Muitos atores e personalidades de Hollywood e até da televisão e do cinema brasileiros morreram de aids como consequência disso. Ficar no armário não faz bem para ninguém.

O primeiro vereador gay assumido eleito, Harvey Milk, cuja história foi retratada o filme A Voz da Igualdade, disse: “Se você não é livre para ser você mesmo na coisa mais linda da vida, que é a expressão do amor –, então a vida, em si mesma, perde seu sentido.” Será que ele era bobo, ou defeituoso?

 Sílvio, o armário não é lugar para as pessoas. É escuro, alguns tem mofo e outros  até traças. Não faz bem para a saúde mental.

Talvez seu raciocínio seja de que o ator não seja prejudicado. Sabia que esse raciocínio me incomoda, o raciocínio do “vamos deixar tudo como está e não vamos tentar mudar”. Já pensou se não tivéssemos mudado a regra que pessoas negras não podiam se casar com pessoas brancas. Não faz tanto tempo que atores negros e atrizes negras só tinham papéis de motoristas ou domésticas, porque prevalecia o raciocínio de que se o(a) negro(a) fosse protagonista, a novela não teria sucesso.

Também segundo a reportagem, você considera que a exibição de um beijo gay na televisão é um tema polêmico: “é uma exposição com a qual parte do público que não é gay pode se chocar.” Eu pergunto, é melhor colocar um beijo gay, ou tanta violência e espancamento que vemos hoje nas novelas? Eu prefiro o beijo. Cito aqui um soldado gay americano que disse” Fui condecorado porque matei vários homens na guerra, fui expulso do exército porque beijei um”.  O  que você falou é o mesmo entendimento da hipocrisia americana com relação aos gays no exército: você não fala que é e eu não pergunto.

Minha mãe, em 1978, quando eu tinha 14 anos, mandou que eu me curasse da homossexualidade. Mas em 1996, ela fez todo aquele sacrifício, abertamente e sem medo, e se propôs a casar com meu marido, David Harrad, para que ele pudesse ficar no Brasil comigo. Minha mãe mudou. Agora ela teria 79, e você tem 68. Ela era uma pessoa de pouca instrução, mas de grande sabedoria.   Se minha mãe mudou, você Silvio de Abreu pode mudar. Você estará colaborando para um mundo melhor em que as pessoas sejam elas mesmas, sem simular afeição. E estarão cumprindo a finalidade da vida, que Aristóteles tão bem definiu como sendo a Felicidade. É “bobo” querer ser você mesmo e ser feliz?

“A sexualidade faz parte de nossa existência. E o projeto de uma bela existência implica o de uma livre sexualidade.” (Jean-Philippe Catonné)

Atualizado em 31/05/2010 - as 12h22 min

 

 

 

 


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