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Modelos de transgressão

Se moda é atitude e comportamento diferenciado, as travestis entendem do assunto porque redesenham as roupas e o corpo para construir a aparência desejada. As customizações no vestuário e a modificação corporal delas podem ser conferidas na exposição fotográfica TRANS; registros de um redesenho mútuo, da estilista Carol Barreto. Em cartaz, a partir do dia 03/04 (quinta-feira), às 19horas, na Galeria Jayme Fygura, localizada no Teatro Gamboa Nova. 

No trabalho, oito travestis apresentam seus próprios trajes utilizados no cotidiano e em ocasiões especiais, em poses que lembram modelos tarimbadas. “Elas se pintam de uma maneira diferente na frente da câmera. Não consegui uma imagem não pousada, só de verem o objeto o comportamento mudava. Percebo que a fotografia é como se fosse um palco para elas”, observa Carol.

Para compreender as nuances do grupo quando o assunto é expressão sexual e moda, tema do seu mestrado, a estilista freqüentou durante um ano as reuniões da Associação das Travestis de Salvador (ATRAS) e construiu laços de afetividades com o grupo. Assim, deixou as retratadas mais à vontade na hora de contar suas histórias sobre os artifícios usados na construção da aparência. “Elas utilizam o corpo para externalizar a subjetividade e o modo como se percebem”, afirma a pesquisadora.
O processo de “fabricação do feminino” é demorado, arriscado e precisa ser atualizado constantemente. Uma das modelos retratadas, Millena Passos, presidente da ATRAS, conta que toma hormônio injetável para aumentar os seios, diminuir a quantidade de pêlos no corpo e adquirir outras características de mulher. A rotina de beleza dela também inclui cuidar dos cabelos, manter as sobrancelhas alinhadas e as unhas em dia. Quando o assunto é roupa, ela prefere vestidos longos em cores escuras, entretanto, veste mais calças e blusas sociais por causa do trabalho. Para a recriação das roupas, ela contrata os serviços de uma costureira, e diz que costuma modificar o decote das vestimentas para valorizar os seios. Ao refletir sobre moda, Millena conclui: “a mídia coloca um padrão de beleza, mas a moda quem faz sou. Mesmo acima do peso, me acho sexy”.  

O suporte selecionado para impressão das vinte fotografias que compõem a exposição TRANS; registros de um redesenho mútuo foi o papel comum, de pouca durabilidade, facilmente amassado ou rasgado. Segundo a estilista a escolha do material está ligada à fragilidade do grupo retratado, a inconstância de seus corpos e da sua aparência escarificada e redesenhada pelas impressões da sociedade. “Tosco, roto e puído pela segregação, esse papel registra – como a pele das travestis – a memória da sobrevivência desse corpo”, afirma Carol. A exposição traz também fotos de Tâmara, que foi assassinada em fevereiro deste ano, em Mar Grande, localidade de Vera Cruz, em circunstâncias não esclarecidas pela polícia.

As fotografias com orientação etnográfica complementam a dissertação de mestrado intitulada Moda e Expressão Sexual: redesenho e construção da aparência no grupo das travestis de Salvador, que está vinculada ao Programa de Pós-Graduação Desenho, Cultura e Interatividade da Universidade Estadual de Feira de Santana (UESC). Carol Barreto é também professora universitária e leciona na Unifacs, na Faculdade da Cidade e na Faculdade Jorge Amado.

Serviço
Galeria Jayme Fygura, Teatro Gamboa Nova
Período: de 03/04 até 30/04
Horário: De quinta a sábado, das 19h às 21h e aos domingos, das 16h às 19h.
Entrada gratuita
Informações: (71) 3329-2418

 

 


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