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Mundo trans

Sonho de ganhar a vida na Itália atrai travestis brasileiras

Jorge Gauthier | Agência CORREIO | Fotos: Robson Mendes e Reprodução - Edição Marcelo Cerqueira 1.10.09


Grande número de travestis brasileiras nas ruas de Roma, na Itália, já provoca queixas dos italianos

Sucesso - Ranella curte casa em Salvador, comprada como trabalho na Itália

 

Trabalho aceito - Travesti paulista Thelma Look vive na Itália há cerca de 20 anos

 

Babado - A travesti Nathalie deve ficar na Itália só enquanto durar processo

 

 

As roupas são sempre decotadas para desenhar as curvas femininas no corpo masculino. Os cabelos são alisados ou protegidos por belas perucas. A pele sempre está extremamente maquiada, principalmente na altura dos olhos, para brilhar com o reflexo dos faróis dos carros em meio à névoa das regiões mais frias (e ricas) da Itália.

Na “pista” luxuosa do país europeu, travestis da América do Sul, principalmente brasileiras e colombianas, dominam o mercado das atividades sexuais e artísticas nas boates - de olho nos benefícios da moeda local. Apesar do fascínio por “fazer a vida à moda italiana”, as travestis não encontram tantas facilidades: frio, fome, violência e humilhação vêm misturados com os tão sonhados euros.

Lucros
Ninguém sabe o número exato de travestis que colorem com suas plumas e paetês as tradicionais ruas italianas, destino predileto para elas, mas Thelma Look, travesti de 45anos, que há 20 vive na Itália, acompanhou o gradativo aumento da quantidade de travestis, o que deixou o mercado competitivo, arriscado e menos lucrativo.

“Quando eu decidi sair de Aparecida (interior de São Paulo) para fazer vida na Itália os travestis eram novidade. Aqui era uma mina de ouro. Ganhei muito dinheiro porque quase não tinha travesti na rua”, revelou Thelma. “Quando estávamos no Coliseu de Roma, por exemplo, os turistas paravam para fotografar. Hoje, as ruas estão lotadas de travestis e isso passou a incomodar o cidadão italiano. A polícia agora tem que agir”, completou a travesti, que largou a prostituição e atualmente é estilista em Firenze (Itália).

Antes de virar estilista, Thelma chegou a dividir quarto com a travesti baiana Thaynna, envolvida recentemente em escândalo sexual que culminou com a renúncia do governador da região do Lazio (Roma), Piero Marrazzo. “Cheguei a ser presa mais de 20 vezes. A vida aqui para quem é ilegal não é fácil. As meninas (travestis) do Brasil pensam que aqui é tudo maravilhoso, mas é uma vida muito difícil”, lembrou a travesti Thaynna, que há dez anos saiu da favela Roça da Sabina (Bara) para viver em Roma.

Fascínio
A presença e o sucesso dos transexuais brasileiros têm explicação histórica para o Presidente do Grupo Gay da Bahia (GGB), Marcelo Cerqueira. “Existe uma fascinação. Deve ser herança dos tempos do Império Romano, Calígula e companhia”, brinca. Cerqueira pontua que o italiano, além de sexualmente mais liberal, é menos preconceituoso.

Nascida em Nazaré das Farinhas e criada em Cajazeiras (Salvador), Ranella Márcia, 38 anos, ou Claudio Macedo Almeida, decidiu começar a viver seu sonho dourado da Itália em 1997. “Eu já fazia pista na Pituba (Salvador)e me senti atraída em ir buscar dinheiro na Itália. Entrei com o visto de turista, o que é a pior coisa para um travesti, porque a polícia prende, bate e ainda pega dinheiro. No começo pensei que isso só acontecia no Brasil”, lembra Ranella,que,apesar de tudo, continua viajando periodicamente para a Itália.

“Fico lá um semestre, junto dinheiro e passo dois anos no Brasil. Mesmo com tanta violência, tenho que correr o risco. Já fui presa várias vezes por estar clandestina. É muita humilhação”, relembra Ranella, que, antes de decidir viver da prostituição, fez até o segundo ano do curso de administração em Salvador.

Riscos
O clima frio do Inverno italiano, tão atraente para os turistas, é a pior sensação para as travestis. “Trabalhamos com o corpo e não temos como nos privar de mostrá- lo. Ficamos na rua fazendo vários programas por noite. Quando voltamos para casa, a pele está vermelha, ardendo, queimada com o frio”, lembra Ranella, que implantou próteses de silicone nos seios para “melhorar no mercado”.

Privações
A famosa lucratividade, segundo Ranela, só é possível nas terras italianas, diante de muitas privações. “O programa comum é igual aos do Brasil, mas o dinheiro acaba rendendo, porque a moeda é mais forte e lá não temos muitos gastos. Aqui, quando fazemos programa, gastamos o dinheiro na rua mesmo. Lá, no final da noite, voltamos para casa”.

A travesti lembra que o dinheiro só é maior quando o cliente é usuário de drogas e quer pagar para a travesti usar a droga junto com ele.“Sou esperta, finjo que uso e aproveito a grana, geralmente acima de cinco mil euros”,conta Ranella, que adquiriu casas e carro com o que conquistou na Itália. Mesmo com tanto sofrimento, ela não pensa em deixar o eldorado italiano. “Gosto de ganhar dinheiro. Irei para a Itália enquanto tiver mercado”.

Ajudar família é foco, diz psicóloga
O desejo de ir para fora do país em busca de prosperidade não é somente das travestis, mas a vontade delas é estimulada pelas dificuldades sociais, segundo avaliação da psicóloga Adriana Nanun, doutora em psicologia clínica pela PCU-RJ.

“Se o preconceito ao homossexual não afeminado é grande, para as travestis é ainda maior e já começa na escola, com as piadinhas e a violência, que acabam expulsando a travesti do sistema educacional”. Em casa, segundo a psicóloga, muitas delas apanham acabam sendo atiradas na rua.

“Infelizmente a prostituição é a forma mais rápida de sobreviver na rua”, explica. Fazer a vida na Itália, segundo a doutora em psicologia, para a maioria das travestis tem um único objetivo: ajudar a família. “Ela mandou o dinheiro para construir dois andares de nossa casa. Esse teto que dormimos hoje devemos agradecer ao esforço que ela está tendo na Itália”, lembra Altamira Menezes Vasconcelos, irmã da travesti Thaynna, que foi envolvida em recente escândalo sexual na Itália.

A especialista indica que, apesar do crescimento na quantidade de travestis na Itália isso não tende a tornar a aceitação mais fácil. “Quando a quantidade é maior, aumentam as dificuldades diante das autoridades locais”, avalia a psicóloga. Apesar de a Itália ser o país com maior quantidade de travestis brasileiros, Suíça, Espanha e França também recebem um grande número de travestis.

Escândalo: pivô deve ser expulsa
Atravesti brasileira Nathalie - pivô do escândalo que levou à renúncia do governador Piero Marrazzo - recebeu um visto provisório “para fins judiciais” para permanecer na Itália até o fim da fase de instrução do processo sobre a chantagem sofrida pelo político. Nathalie foi apontada como a travesti flagrada no vídeo ao lado do agora ex-governador.

A gravação mostra Marrazzo apenas de camisa em um apartamento, onde está uma travesti e há uma mesa com uma carreira de cocaína. De acordo com as autoridades, foi constatado que a travesti brasileira está ilegalmente na Itália. Entretanto, como ela é considerada testemunha chave no processo, a Justiça italiana decidiu conceder um visto provisório especial - “para fins judiciais” -, já que Nathalie deverá ser chamada a depor novamente. Mas ela deverá ser expulsa após a conclusão do processo.

Jornais italianos afirmam que as outras travestis ouvidas no inquérito - inclusive a baiana Thaynna - também correm risco de ser expulsas. O vídeo comprometedor foi gravado no começo de julho por policiais, que passaram a extorquir o governador da região do Lazio/ Roma.Na semana passada, o caso veio a público com a prisão dos policiais. Travestis disseram que Mazzarro era um cliente assíduo. No começo da semana, o político renunciou ao cargo de governador.

 

 


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