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Roma Gay que sei

Capital milenar da Itália é confluência de arte, cultura, desejo e muita sedução!

 

Luiz Mott, Antropólogo, Universidade Federal da Bahia, Fundador do Grupo Gay da Bahia e Decano do Movimento Homossexual Brasileiro Diretamente de Roma

                                          

Luiz Mott,

ROMA 25/05/07 - Há séculos, talvez milênios, Roma goza a fama de ser uma versão ocidental de Sodoma e Gomorra. Os evangélicos mais fundamentalistas costumam maldosamente comparar a ?cidade eterna? à grande prostituta descrita no Apocalipse. Nos tempos da Inquisiçao, os italianos eram tão infamados de praticar o homoerotismo, que o simples fato de algum português ter vivido ou mesmo passado pela Itália, bastava para ser suspeito de também praticar?o abominável e nefando pecado e crime de sodomia?. Até no Brasil colonial chegou tal opinião, tanto que em 1593 um morador de Pernambuco é acusado perante o Santo Oficio de ter dito que, em Roma havia diversas ruas onde rapazes se ofereciam como prostitutos e que o Papa ordenara que as mulheres andassem  com os peitos nus para desviar os romanos dos amores com o mesmo sexo, embora o próprio Sumo Pontífice, na época Clemente VIII, fosse igualmente acusado de ser sodomita! A expressão? Amor à italiana? passou desde então a ser sinônimo de cópula anal, gíria encontrada inclusive em  documentos oitocentistas de Minas Gerais.


Esta ?má? fama dos italianos como  aficionados ao homoerotismo,
teve novo incremento nas últimas décadas  com a onda de travestis e
transexuais brasileiros que emigraram para a Itália a fim de atender a demanda do mercado homo-trans-sexual. São por volta de duas mil as ? trans brasilianas? que vivem de profissionais do sexo em Milano, Remini, Bologna, Napolis, Roma, etc, etc. Nossa expressão ?viado? entrou no vocabulário local, termo usado ate na RAI, a rede estatal de televisão italiana.

São profundas e antigas as raízes do homoerotismo neste maravilhoso país cuja influência cultural impregnou indelevelmente grande parte do mundo ocidental. Colonizados culturalmente pelos gregos ? onde a pederastia era marca registrada entre dóricos e espartanos, os italianos herdaram também uma mitologia bastante marcada pelo sincretismo mediterrâneo, onde muitos deuses, inclusive o pai de todos, Zeus/Jupter, era um velho descaradamente  pederasta, tendo raptado  para o Olimpo o belo e andrógino príncipe Ganimedes, para ser seu amante predileto. É enorme a quantidade de esplendorosas estátuas de Antínuo e Alexandre Magno por todos os museus e palácios romanos, o casal gay mais famoso da antiguidade clássica.

Durante a Idade Média a sodomia tinha se alastrado de tal modo nos
reinos da península itálica, que São Pedro Damiani, rigoroso
franciscano de Firenze, escreveu o célebre Livro de Gomorra, visando
reprimir sobretudo dentro dos conventos, o que povo chamava, com
razão, de ?vicium clericorum?, o vício dos clérigos. Os mais famosos e poderosos cardeais romanos, assim como mais de uma dezena de Papas,  têm seus nomes em todas as listas de homossexuais célebres, e foram exatamente eles, que, como todas as bibas que se prezem, adoram antiguidades..., foram tais prínicipes da Igreja os maiores colecionadores de obras de arte antiga e renascentista dedicadas ao homoerotismo: a coleção de arte do cardeal Barberini,  por exemplo, reúne centenas de nus masculinos ? de Eros, Dionsio, hermafroditas, Antínuo e muitos atletas e gladiadores, preciosidades que não deixam dúvida que incontáveis sodomitas de antanho certamente bateram deliciosas punhetas contemplando, passando a mão ou mesmo pagando boquete naqueles maravilhosos nus de mármore.

Os sexólogos deram até um nome pra quem curte transar com estátuas: pigmalionismo, ?perversão sexual consistente em satisfazer a libido sobre estátuas ou outras obras do gênero...? Confesso que eu próprio já me
arrisquei a ser flagrado pelas câmaras dos museus romanos, inclusive
do Vaticano, por não ter resistido a tentação de passar a mão nas
bundas maravilhosas, ou nos mimosos  pintinhos de algumas inebriantes estátuas greco-romanas... Além da estatutária homoerótica, essas homoeróticas coleções cardinalícias incluem numerosas pinturas de artistas reconhecidamente gays, seus contemporâneos, como Da Vinci, Michelangelo, Caravaggio, Rafael, o próprio ?Sodoma?, pinturas onde o nu masculino tambem é mostrado em toda sua sedução homeorótica, seja na figura repetidíssima de São Sebastião, ex-amante do Imperador Diocleciano e patrono dos gays desde a Idade Média, seja em belos ?ragazzi?, como os inocentes jovens eternizados por Boticceli e sua escola, seja ?bofes? da pesada, os preferidos por Caravaggio e seus discípulos.

E hoje, como se manifesta a homossexualidade neste belo pais com 60 milhões de habitantes? Nem sempre povos que tiveram um passado  fortemente marcado pelo homoerotismo mantêm a mesma liberdade e preferência pelos amores unissexuais: a Grécia contemporânea é um bom exemplo de como, desgraçadamente, certas culturas ?involuem? em termos de aceitação da diversidade sexual.

Após três semanas em Roma, percorrendo a cidade eterna  de cabo a
rabo, minha conclusão é que qualquer grande capital brasileira, do
mesmo porte de Roma ? como Salvador, Belo Horizonte, Curitiba ou
Porto Alegre ? os gays, lésbicas e transsexuais são muito mais
visíveis do que seus similiares romanos. Em quase um mês vivendo
como um romano ? pegando ônibus e metrô, indo às feiras e mercados populares, andando pela Via Veneto, Piazza Navona, Fontana de Trevi, Piazza de Spagna, Colosseo, Vaticano, Termini (estação ferroviária), etc, etc, até agora não vi nas ruas aproximadamente uma dezena  gays, três travestis e só identifiquei dois casais de lésbicas.

Quatro destes gays eram jovens padres, todos vestidos de preto com o colarinho plastificado e que em frente a uma gelateria próxima a Piazza de la Colonna, não contiveram os olhares e gritinhos quando viram passar dois bofes ma-ra-vi-lho-sos! Vi tambem dois casais de turistas bastante gays: um casal estava de mãos dadas na mesa de uma pizzeria, o outro, um gringo quarentão e um negro de vinte, este último ostensivamente efeminado e bandeiroso, ambos extasiados (e a biba-afro desmunhecando) perante um gigantesco cavaleiro nu, a célebre estátua equestre do Campidoglio. As três travestis andavam, de tarde, ultra discretas, perto da Estação Termini: sem maquiagem, apenas nós, ?del ambiente?, as distinguiríamos como trans. Vi pelas ruas  maior número de  ?putanas? que translesbigays.

Ao comentar tal ausência,  um militante gay romano me disse, sorrindo: ?se quiser encontrar gays, vá ao Vaticano...? Embora praticamente ?invisíveis? nos locais públicos mais turísticos, apesar do olho clínico de um  membro desta confraria, com certeza os homossexuaiws  devem se contar aos milhares, milhões, na cena  gltb romana e italiana. Que são bastante discretos e reservados em público, não há como negar!  Não obstante, o tema ?omossessualitá? esteve presente na televisão e nos jornais quase todos os dias no mês de maio de 2007: a grande discussão é sobre o reconhecimento das famílias de fato, de um lado o Vaticano e os conservadores defendendo com unhas e dentes o matrimônio  cristão tradicional, do outro os partidos de esquerda e Ongs libertárias, que lutam aguerridamente pelo reconhecimento das famílias alternativas, inclusive a união homossexual.

Os dois principais grupos ativistas italianos, o ArciGay e o Circolo di Cultura Omossexxuale Mario Mieli várias vezes apareceram nas telinhas protestando por  não terem sido convidados a participar de uma importante reunião governamental sobre o tema família, denunciando tal preconceito no Dia Mundial contra a Homofobia. Prometem uma macro-maniestação no próximo Dia do Orgulho Gay, 9 de junho, planejando superar a cifra de um milhão dos que  participaram do ultra conservador ?Family Day? no segundo domingo de maio na Piazza di San Giovanni.

Estive na sede do ArciGay, no mesmo Dia Mundial contra a Homofobia, onde apresentei uma palestra com powerpoint (em italiano macarrônico que psicografei de minha ultra católica Nonna vêneta!) tendo como tema ?Omossexualitá e Omofobia in Brasile?. Uns 25 gays, alguns bastante jovens, apenas uma lésbica, os quais fizeram muitas perguntas, tentando entender o porque de tantos crimes homofóbicos num país onde os homossexuais são muito mais visíveis do que na Itália.

Presentearam-me com um camiseta  com  a frase invertida da absurda Deputada neta de Mussolini, que disse ?antes fascita do que viado?, ao que  o ArciGay  estampou: ?Meglio frocio (viado) che fascita!? Bingo! Visitei tambem a principal livraria gay de Roma, Babele, situada na Via dei Banchi Vecchi, em Trastevere, numa simpática ruazinha cheia de antiquários. Livraria pequenina mas bem conhecida, tanto que em duas livrarias, quando procurei, e não achei, nenhum livro sobre homossexualidade, os dois livreiros e também no quiosque de informação turística, todos sabiam de cor sua localização. Na Babele há muitos livros do principal historiador gay romano, Massimo Consoli, o ?trevisan de Roma...? Comprei uma obra polêmica,  I Triangoli rosa di Benedetto XVI,(15 euros)  sobre ?a fobia antigay de Ratzinger?. Nesta livraria há distribuição gratuita de revistas gays, a Lui Guidemagazine (60 páginas), com lindas fotos de semi-nus masculinos e comerciais da cena gltb, e a bela revista do Circolo Mario Mieli, Nueva Mirada, tambem mensal, já no seu numero 90, com ótima apresentação, mais cultural e politica. Segundo tais revistas, cena gay roomana  constaria de aproximadamente 62 locais comerciais, incluindo as ongs: 8 danceclubs, 3 shops, 5 saunas, 14 bares & pubs, 5 men?s club, 2 agências de viagem, 9 restaurantes, 6 livrarias, 1 sexy shop, 1 internet point, 10 hoteis, 21 centros sociais. Depois de Roma, as cidades que têm maior numero de entidades gltb são Milano (16), Torino (7), perfazendo um total de 55 cidades com grupos ou locais destinados ao público gltb.

Ah! um último detalhe: passeando distraído pela  Piazza del Pantheon, eis que de repente vejo um jovem negro de quase dois metros, lindo de morrer, o primeiro homem que em Roma me olhou ousadamente, tipo olhos nos olhos...Quase caí morta de emoção! Logo em seguida veio a cantada, em português!!! Me disse: ?você é uma gracinha, tezão!? O cara era brasileiro, jogador de volei na Itália, uma simpatia! Ainda bem que tem brasileiros que curtem coroas...





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